Groenlândia, “America First”2 e o retorno explícito da lógica imperial americana no século 21
MARCOS VERLAINE (*)
Sob Donald Trump, a política externa dos EUA abandona definitivamente a sutileza. E retoma, em 2026, o discurso presidencial sobre “adquirir”, ocupar ou controlar a Groenlândia. Isso não é excentricidade isolada nem tampouco bravata retórica.
Trata-se, pois, da expressão mais nítida de geopolítica agressiva, transacional e imperial, que substitui a diplomacia clássica por lógica empresarial de poder: “quem tem força compra, impõe ou toma”.
Não há mediação simbólica, não há multilateralismo, não há direito internacional. Há apenas, sob a lógica de Trump, interesse estratégico nu e cru.
Trump não esconde o método. A política externa dele opera sob a lógica da coerção: “o jeito fácil ou o jeito difícil”.
Trata-se de diplomacia de intimidação, baseada na assimetria de poder, que transforma soberania em variável negociável e alianças em contratos frágeis. A Groenlândia torna-se, assim, menos território e mais ativo geoestratégico a ser incorporado ao portfólio de poder imperial dos Estados Unidos.
O ataque à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro expressam com nitidez esse modelo de atuação e resgatam o Corolário Roosevelt (1904), aditamento da Doutrina Monroe3, que passou a justificar intervenções diretas na América Latina sob o argumento de garantir a ordem e proteger interesses econômicos, consolidando a lógica do Big Stick — o Grande Porrete.
GROENLÂNDIA: TERRITÓRIO, RECURSO E PODER
Por trás da retórica da “ameaça chinesa” e da “ameaça russa” existe realidade mais concreta: o Ártico tornou-se nova fronteira estratégica global. O degelo transforma gelo em rota marítima, gelo em minério, gelo em petróleo, gelo em disputa.
A Groenlândia concentra 3 vetores decisivos:
• Recursos naturais: terras raras, minerais estratégicos, potencial energético e reservas futuras ainda pouco exploradas;
• Geopolítica do GIUK Gap4: posição da ilha no eixo Groenlândia-Islândia-Reino Unido é central para o controle militar entre América do Norte e Eurásia; e
• Arquitetura de defesa: integração ao escudo antimísseis dos EUA — o chamado Golden Dome —, que amplia a capacidade de detecção e resposta estratégica.
Ou seja: não se trata de proteger a Groenlândia. Trata-se, pois, de controlar o Ártico. Até as pedras sabem disso. O território é meio, não fim. E por estes 3 elementos citados acima observa-se que não se trata, em definitiva, de excentricidade de Trump. São interesses objetivos na veia.
NARRATIVA DA AMEAÇA COMO INSTRUMENTO POLÍTICO
O discurso de Trump se ancora em expediente clássico do poder: hipertrofiar riscos para legitimar expansão. Rússia e China existem como atores no Ártico, mas não como ameaças imediatas à soberania groenlandesa.
A presença russa é regional e estratégica; a chinesa, majoritariamente comercial e diplomática. Não há cercos, não há frotas posicionadas, não há ocupação iminente.
O que há é outra coisa: competição sistêmica por espaços estratégicos futuros. Trump não reage a ataque real; ele antecipa disputa estrutural. A lógica é preventiva, mas também predatória: controlar hoje para não disputar amanhã.
A ameaça, nesse caso, não é o fato. É a narrativa que justifica a ação.
RETORNO EXPLÍCITO DA LÓGICA IMPERIAL
A proposta de “compra”, “posse” ou “controle permanente” da Groenlândia representa algo mais profundo: a normalização do discurso de expansão territorial no século 21.
Trata-se de retorno explícito à lógica imperial clássica, agora travestida de pragmatismo geopolítico.
Trump opera sob visão de mundo de soma zero: se um ganha, o outro perde. Cooperação vira fraqueza. Multilateralismo vira entrave. Soberania alheia vira obstáculo. A política externa deixa de ser sistema de equilíbrio e passa a ser gestão de domínio.
Nesse modelo, alianças são instrumentais, tratados são descartáveis e o direito internacional é apenas custo político. Sob Trump, não há limite ético.
GEOPOLÍTICA DO CONFLITO PERMANENTE
O problema central não é a Groenlândia. É o modelo de mundo que essa lógica produz: instabilidade crônica, erosão das regras internacionais, militarização de territórios estratégicos e naturalização da coerção como método diplomático.
Trump não propõe hegemonia negociada — propõe hegemonia imposta. Não constrói consensos — cria dependências. Não organiza ordem — gera submissão ou conflito.
Essa geopolítica não estabiliza o sistema internacional. Essa o radicaliza.
MAPA DO SÉCULO 21 ESTÁ SENDO REDESENHADO À FORÇA
A Groenlândia é apenas símbolo de algo maior: a transição de um mundo regulado por regras imperfeitas para um mundo regido por correlação bruta de poder.
O que Trump expressa não é apenas a personalidade política dele. Expressa tendência estrutural: a substituição da diplomacia pela coerção, do direito pela força, da política pelo cálculo estratégico.
Não se trata mais de integração global. Trata-se de zonas de influência, que vão sendo redesenhadas. Não se trata de cooperação. Trata-se de controle. Não se trata de soberania compartilhada. Trata-se de domínio.
A nova/velha geopolítica agressiva não é desvio. É um projeto de mundo. E a Groenlândia, hoje, é apenas uma peça nesse tabuleiro maior em que poder volta a significar, de forma direta e brutal, capacidade de impor vontade sobre territórios, povos e Estados.
O século 21, ao que tudo indica, não será menos imperial. Apenas será mais tecnológico, mais estratégico e menos disfarçado. Será que isso sobrevive após Trump?
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
_________________
1 A Política do Big Stick – “Grande Porrete” foi a estratégia de política externa dos EUA sob o presidente Theodore Roosevelt (1901-1909), baseada no provérbio africano “fale suavemente e carregue um grande porrete”, o que significa negociar diplomaticamente, mas com a ameaça ou uso da força militar para defender os interesses americanos, especialmente na América Latina, expandindo o poder naval e intervindo para garantir controle, como no Canal do Panamá e Cuba — Emenda Platt.
2 “America First” traduz-se comumente como “América Primeiro” ou “Estados Unidos em Primeiro Lugar”. O lema nacionalista, popularizado por Donald Trump, reflete política externa e econômica que prioriza os interesses dos EUA, muitas vezes adotando posturas isolacionistas e protecionistas, colocando os interesses americanos acima de acordos internacionais.
3 Doutrina Monroe (1823) – Proclamou “a América para os americanos”, e proibiu novas colônias europeias no subcontinente e estabeleceu o hemisfério ocidental como área de influência exclusiva dos EUA.
4 O Estreito GIUK é área no Oceano Atlântico Norte que constitui ponto de estrangulamento naval. Este nome é sigla para Groenlândia, Islândia e Reino Unido, sendo o estreito as 2 extensões de oceano aberto entre essas 3 massas de terra.











