DAVI MOLINARI
É óbvio que a visão conservadora, intrínseca ao bolsonarismo militante, posiciona-se contra as manifestações populares, tendo o Carnaval como seu alvo preferencial. O que surpreende, no entanto, não é o fato de o arcaico Partido Novo buscar a punição eleitoral de Lula por uma homenagem espontânea recebida das massas na Sapucaí. O que torna o caso meritório de debate é a postura blasé e quase lacônica da imprensa — especialmente de articulistas do sistema Globo e outros grandes veículos — ao validarem como “notícia séria” a revolta conservadora contra a arte e a sátira.
A depender dos editorialistas e jornalistas de hoje, os palcos e as peças de teatro deveriam ser submetidos a um crivo burocrático para decidir se podem, ou não, elevar heróis ou detratar algozes do imaginário popular. Chega-se ao cúmulo do absurdo quando a imprensa ecoa, de forma insistente, a tese jurídica de “campanha eleitoral antecipada” dentro de um desfile de escola de samba. Trata-se de uma aberração interpretativa tentar enquadrar o suor, a fantasia e o enredo da Acadêmicos de Niterói no contexto de uma disputa eleitoral que deverá ocorrer daqui a 9 meses. No fundo é uma tentativa de criminalizar a cultura popular. A redação da Globo chegou ao desplante de escalar o repórter Pedro Bassan para uma constrangedora entrada ao vivo de mais de três minutos, dedicada a dar eco às estúpidas e falsas premissas de crime eleitoral.
A trajetória extraordinária de Lula, por si só, rende dezenas de enredos e peças. Assim como heróis históricos foram imortalizados para elogiar virtudes ou criticar tiranias — pense em Henrique V, de Shakespeare, retratado como o rei ideal para glorificar a dinastia Tudor, ou em Antígona, de Sófocles, que resiste ao rei Creonte em defesa da justiça —, o enredo sobre Lula serve como apologia popular à sua jornada de operário a presidente. É um eco da tradição teatral que mistura o louvor ao herói com a sátira social.
Negar a história de Lula é a tática central do conservadorismo e do bolsonarismo na disputa pelo poder. É previsível que tentem desvalorizar justamente o que dá força ao petista, repetindo o que a historiografia oficial e as elites tentaram fazer com Zumbi dos Palmares e outros ícones nacionais: deslegitimar o mito para apagar a luta. Felizmente, a Acadêmicos de Niterói pôde homenagear Lula em vida e no exercício da Presidência, exercendo a liberdade que o Carnaval pressupõe.
Agora, ver a imprensa e seus articulistas negarem a importância histórica de Lula, digna de toda e qualquer merecida homenagem, ou questionarem a escolha do tema pelos sambistas, remete aos tempos de Torquemada e da Inquisição, quando a arte era censurada por ousar desafiar o establishment. Não é à toa que o jornalismo dito ‘profissional’ perde vigor no Brasil, cedendo o espaço da credibilidade para o vácuo das fake news. Tivessem decência intelectual e distanciamento crítico, os articulistas estariam defendendo a soberania estética do Carnaval, em vez de darem palanque a interpretações jurídicas capengas que visam apenas calar a voz do povo sob o pretexto de um suposto ‘equilíbrio eleitoral’.











