Como o bolsonarismo reconfigurou o tecido social brasileiro; quais caminhos ainda existem para reconstruí-lo?
MARCOS VERLAINE (*)
Trata-se, o chamado bolsonarismo, de fenômeno para além da política. Assim, é preciso compreender que este não pode ser entendido apenas como movimento eleitoral, partidário ou ideológico.
Esse se consolidou como fenômeno sociocultural profundo, capaz de reconfigurar padrões de sociabilidade, linguagem pública, percepção da realidade — visão de mundo — e formas de pertencimento coletivo.
Trata-se de identidade política que ultrapassou o campo institucional e passou a organizar afetos, comportamentos, medos, crenças e visões de mundo, por meio de um reacionarismo1 que movimenta essa idiotia coletiva2, que dragou com força e solidez essa parcela da população e do eleitorado3 que hoje vota e ocupa espaços públicos, por exemplo, pedindo anistia para tentativa de golpe de Estado.
Exemplo recente e emblemático de reacionarismo foi a aprovação, pela Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina), e a posterior sanção pelo governador bolsonarista Jorginho Mello (PL), de lei estadual — flagrantemente inconstitucional — que ataca as cotas raciais ao colidir diretamente com a Lei Federal 12.711/124.
Ao transformar a política em guerra moral permanente, o bolsonarismo substituiu o dissenso democrático pelo antagonismo tosco, em que o outro deixa de ser adversário legítimo e passa a ser inimigo a ser eliminado simbolicamente.
A consequência direta foi a precarização estrutural do debate público: menos argumentos, mais slogans; menos racionalidade, mais emoção primária; menos mediação, mais ruptura; menos política, mais espetáculo.
Essa mutação não é apenas discursiva. É civilizatória, no sentido de organizar ou reorganizar o debate público. Altera o modo como os indivíduos se percebem como cidadãos e como membros da coletividade nacional.
ADOECIMENTO DO ESPAÇO PÚBLICO
A radicalização não se expressa apenas em palavras, mas em práticas sociais, códigos de comportamento e padrões de interação. A normalização da agressividade, da humilhação simbólica, da violência verbal e da desumanização do oponente produziu ambiente de violência política difusa, que tem sido cotidiana, naturalizada e banalizada.
O espaço público deixou de ser lugar de confronto de ideias e passou a ser território de hostilidade permanente. Esse processo gera adoecimento coletivo, no qual a política se converte em fonte de ansiedade social, ruptura familiar, fragmentação comunitária e deterioração dos laços de confiança.
O extremismo deixa de ser exceção e passa a ser método. O conflito deixa de ser episódico e passa a ser estrutural.
BOLHA COGNITIVA E COLAPSO DA REALIDADE COMPARTILHADA
Um dos pilares centrais do bolsonarismo é a construção de “bolha informacional impermeável”, sustentada por redes digitais, algoritmos, desinformação sistemática e teorias conspiratórias.
Forma-se, assim, por meio dessa bolha ecossistema fechado de narrativas autorreferentes, em que fatos deixam de ter valor e a verdade passa a ser definida por pertencimento identitário.
A psicologia política descreve esse fenômeno como “caos cognitivo”: o indivíduo perde a capacidade de distinguir informação de propaganda, realidade de narrativa, crítica de ataque. Tudo é filtrado por enquadramento ideológico rígido, no qual qualquer dado externo é automaticamente rejeitado como ameaça.
Sem realidade compartilhada, não há diálogo possível. Sem diálogo, não há deliberação pública. Sem deliberação, não há democracia funcional. Há apenas conflito permanente.
RESSENTIMENTO COMO ENGENHARIA POLÍTICA
O bolsonarismo não nasce apenas do conservadorismo; esse se estrutura como engenharia política do ressentimento. Frustrações sociais legítimas: crise econômica, insegurança, precarização do trabalho, descrédito nas instituições, medo da mobilidade social são capturadas e reorganizadas em narrativa política simplificadora.
Mas esse ressentimento não é canalizado para transformação estrutural. Esse é redirecionado contra:
• grupos sociais;
• minorias;
• instituições democráticas;
• imprensa;
• ciência;
• universidades, sobretudo, as públicas;
• cultura; e
• democracia.
É o deslocamento clássico da extrema-direita contemporânea: o problema deixa de ser estrutural e passa a ser moral; a crise deixa de ser sistêmica e passa a ser identitária; o conflito deixa de ser social e passa a ser civilizacional.
A política se converte em “guerra cultural”5, permanente.
PERMANÊNCIA DO BOLSONARISMO SEM BOLSONARO
Mesmo após a derrota eleitoral de 2022 e a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, o bolsonarismo persiste como cultura política, método e linguagem. Esse sobrevive como:
• política do choque permanente;
• comunicação baseada em escândalo;
• engajamento via radicalização sectária;
• lógica de “hot takes”6 e polêmicas fabricadas;
• destruição simbólica do debate racional; e
• substituição de projetos por identidades.
O bolsonarismo já não depende de Bolsonaro. Esse se autonomizou como forma de fazer política. Embora, no plano eleitoral, continue sendo refém ou dependente desse líder caótico e barulhento. Ninguém sabe até quando.
QUAL A SAÍDA OU SAÍDAS POSSÍVEIS?
Não existe solução simples para fenômeno complexo e enraizado socialmente. Mas existem caminhos viáveis, estruturais e realistas:
1. Reconstrução da mediação democrática
Democracia não é ausência de conflito: é conflito mediado por regras, instituições e normas compartilhadas. É necessário revalorizar:
• instituições públicas;
• imprensa profissional;
• ciência;
• educação;
• universidades; e
• espaços de diálogo social.
Sem mediação, a política vira guerra. Sem regras, o conflito vira barbárie simbólica. A mediação é o centro do saber. Não há saberes sem mediações. O saber é mediado. A vida é mediada.
2. Educação política, cívica e midiática permanente
Não se combate extremismo com apelos morais, mas com formação crítica. Alfabetização digital, educação midiática, pensamento crítico e educação cívica devem ser políticas públicas estruturantes, não iniciativas pontuais.
Cidadão sem ferramentas cognitivas vira refém de algoritmos, bolhas informacionais e manipulação emocional.
3. Política pública concreta, não apenas simbólica
O ressentimento social não será superado por discursos abstratos, mas por políticas públicas que produzam segurança material, inclusão, dignidade e mobilidade social real. Extremismos prosperam onde há:
• insegurança econômica;
• precarização;
• abandono estatal;
• desigualdade estrutural; e
• ausência de horizonte.
Sem justiça social, não há pacificação democrática sustentável.
4. Reocupação do espaço público pelo diálogo democrático
É preciso reconstruir a cultura do debate:
• não como conciliação artificial;
• não como neutralidade falsa;
• não como apagamento de conflitos; e
• mas sim como disputa civilizada, racional e democrática.
Democracia é conflito organizado por meio das organizações sociais e políticas, sobretudo, os partidos; não eliminação do conflito.
5. Responsabilização institucional e jurídica
Extremismo não se combate com silêncio, relativização ou normalização.
Discursos autoritários, práticas golpistas e desinformação organizada precisam ser enfrentados:
• juridicamente;
• politicamente;
• institucionalmente;
• simbolicamente; e
• sempre dentro do Estado de Direito.
A democracia não se defende sendo ingênua.
RECONSTRUIR O PAÍS EXIGE MAIS QUE DERROTAR UM LÍDER
O bolsonarismo revelou fraturas profundas da sociedade brasileira. Esse não criou todas, mas as organizou, potencializou e radicalizou. Superá-lo não é apenas derrotar uma liderança política: é reconstruir vínculos sociais, reconstituir a confiança pública, restaurar a racionalidade democrática e reerguer a cultura cívica.
A saída não está no espelhamento do ódio. Não está no moralismo vazio. Não está na repressão simbólica. Não está no cancelamento como política.
Está na combinação de: democracia forte + políticas públicas estruturantes + educação crítica permanente + institucionalidade sólida + cultura democrática ativa.
Sem isso, o País seguirá prisioneiro de ciclos de radicalização: mudando personagens, mas repetindo o mesmo enredo.
Porque, no fundo, a maior ameaça não é um movimento específico. É a normalização do extremismo como forma legítima de fazer política.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 O sentido histórico do termo “reacionário” refere-se àquele que se contrapõe ao presente, e consequentemente às mudanças revolucionárias, sociais e políticas. Nesse sentido, entende-se como reação o conjunto de forças que atuam no sentido de retorno ao estado anterior ou a permanência no atraso.
2 Estupidez coletiva é fenômeno sociopsicológico em que indivíduos, mesmo inteligentes, perdem a capacidade de pensamento crítico e se tornam obedientes e manipuláveis por narrativas dominantes, formando massa irracional que pode sustentar regimes autoritários, espalhar ódio e prejudicar o bem comum, diferentemente da ignorância (falta de conhecimento), pois envolve conformismo ativo e resistência à verdade, sendo contagiosa e perigosa.
3 O chamado “bolsonarismo raiz” — isto é, o eleitorado que compartilha integralmente os valores, a identidade e a visão de mundo do líder — constitui o “núcleo duro” do bolsonarismo. Segundo estudos, esse grupo corresponde a cerca de 20% da população brasileira. Fonte principal: Instituto de Estudos Avançados (USP). Artigo principal: “Bolsonarismo e as eleições de 2022”, publicado na revista IEA-USP (Estudos Avançados da USP) em outubro de 2022. Autores: Esther Solano, Camilo Aggio, Marco Aurélio Santana, entre outros pesquisadores que analisam o fenômeno.
4 Tribunal de Justiça suspende lei que proíbe cotas raciais nas universidades de SC – https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2026/01/27/lei-cotas-sc-suspensa.ghtml – acesso em 27.01.26
5 Refere-se aos intensos conflitos ideológicos entre grupos conservadores e progressistas sobre valores, crenças e normas sociais, disputando o controle da pauta pública. Amplificados por redes digitais e estratégias da extrema-direita, esses embates abordam temas como família, religião, educação e costumes, polarizando a sociedade. É o chamado “pânico moral”.
6 São opiniões controversas, impopulares ou provocativas, geralmente expressas de forma rápida e superficial, destinadas a gerar debate ou atenção, especialmente em redes digitais e no jornalismo on-line. São originadas como respostas rápidas às notícias, funcionam como “opiniões quentes” que desafiam o consenso geral, frequentemente sobre cultura pop, esportes ou comportamento, que incentiva o engajamento por meio de discussões irracionais.











