Entre Jerusalém, marketing ideológico e contradições teológicas, a diplomacia vira palco eleitoral.
MARCOS VERLAINE (*)
A visita do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Israel, em janeiro de 2026, acompanhado do irmão, o ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), não foi gesto de diplomacia econômica nem esforço de política externa substantiva.
Foi, sobretudo, ato simbólico-eleitoral, cuidadosamente encenado para projetar o bolsonarismo no circuito internacional da direita radical e consolidar Flávio como herdeiro político do pai.
Não se discutiram fluxos comerciais relevantes, acordos tecnológicos ou cooperação estratégica concreta. O foco foi outro: imagem, alinhamento ideológico e construção de narrativa. Jerusalém funcionou como cenário. Não como agenda.
ISRAEL COMO SÍMBOLO, NÃO COMO POLÍTICA
A participação na 2ª Conferência Internacional de Combate ao Antissemitismo1, os encontros com lideranças do governo Netanyahu e a promessa de transferir a embaixada brasileira para Jerusalém cumprem papel claro: sinalizar fidelidade ao eixo conservador internacional e reforçar a retórica civilizatória “Ocidente versus inimigos”.
Mas há aqui contradição central. O combate ao antissemitismo — causa legítima e necessária — é instrumentalizado politicamente, enquanto críticas ao governo brasileiro sobre Gaza são rotuladas como antissemitismo, numa operação retórica que confunde deliberadamente Estado, governo e povo judeu.
Essa fusão é intelectualmente desonesta e politicamente perigosa.
Defender direitos humanos, denunciar excessos militares ou cobrar cessar-fogo não equivale a hostilidade aos judeus. Essa confusão empobrece o debate e banaliza conceito grave.
CONTRADIÇÃO TEOLÓGICA QUE NINGUÉM QUER DISCUTIR
Há ainda um ponto que o bolsonarismo evita enfrentar: a profunda incoerência teológica dessa retórica. A base evangélica/protestante que sustenta politicamente essa agenda não tem qualquer identidade religiosa com o judaísmo.
Judeus não reconhecem Jesus Cristo como messias, enquanto o cristianismo se funda exatamente nessa crença.
Isso não impede alianças políticas, por óbvio. Mas torna intelectualmente frágil o discurso messiânico que mistura fé, geopolítica e eleição.
Israel aparece menos como Estado soberano e mais como símbolo escatológico, apropriado por leitura religiosa literal, simplista e, em muitos casos, teologicamente equivocada.
Não se trata de judeus versus evangélicos — trata-se de uso político da religião —, em que a fé vira ferramenta eleitoral e a geopolítica, catequese.
DIPLOMACIA DE PALANQUE, ECONOMIA DE RODAPÉ
Os números deixam claro o contraste. O comércio Brasil-Israel gira em torno de US$ 2 bilhões anuais2, com o Brasil mais importador do que exportador. Não é irrelevante, mas está longe de ser estratégico quando comparado a outros parceiros globais.
Enquanto isso, o Brasil chega a 2026 com desemprego em mínima histórica (5,1%)3, dólar em patamar baixo e Bolsa em alta: indicadores que, paradoxalmente, desmontam o discurso catastrofista da oposição.
Incapaz de disputar a agenda econômica, o bolsonarismo migra para o terreno simbólico, em que fatos importam menos que slogans.
A política externa vira extensão do comício. O mundo, tablado.
REDE INTERNACIONAL DA DIREITA RADICAL
A passagem por Israel, Bahrein e Emirados Árabes integra estratégia mais ampla: construir rede internacional de legitimação, conectando o bolsonarismo a governos conservadores, iliberais ou autoritários.
Não é diplomacia clássica; é internacionalização do populismo de extrema-direita.
O objetivo não é fortalecer o Brasil como ator global autônomo, mas importar capital simbólico para consumo interno, vendendo a imagem de País alinhado aos “fortes” contra inimigos difusos: “globalismo”, esquerda, direitos humanos e imprensa profissional. Esta é a agenda bolsonarista.
AGENDA PLANA PARA MUNDO COMPLEXO
A contradição dessa agenda “terraplanista” é evidente: essa se diz defensora da civilização, mas recusa a complexidade; diz combater o ódio, mas opera pela polarização; invoca a fé, mas esvazia a teologia; fala em soberania, mas subordina o Brasil a alinhamentos automáticos.
Israel, nesse enredo, não é parceiro. É apenas e tão somente símbolo. A diplomacia não é política de Estado. É marketing eleitoral duvidoso. A religião não é fé. É instrumento.
No fim, o que se oferece ao eleitor não é projeto de país, mas narrativa plana para um mundo que já não cabe em slogans. E, como toda visão terraplanista, essa só se sustenta enquanto se evita olhar o horizonte com rigor, história e responsabilidade.
O bolsonarismo, como se diz no mundo dos negócios, “não perde a chance de perder a chance”.
Ou como dizem os chineses: “Há 3 coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.”
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 Em encontro inédito, representantes do Governo do Brasil e da comunidade judaica discutem ações de combate ao antissemitismo – https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2026/01/em-encontro-inedito-representantes-do-governo-do-brasil-e-da-comunidade-judaica-discutem-acoes-de-combate-ao-antissemitismo – acesso em 30.01.26
2 Entenda a relação comercial entre Brasil e Israel em 3 gráficos – https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/entenda-a-relacao-comercial-entre-brasil-e-israel-em-3-graficos/ – acesso em 30.01.26
3 Desocupação cai para 5,1% em dezembro, e 2025 tem melhores resultados da série histórica – https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45761-desocupacao-cai-para-5-1-em-dezembro-e-2025-tem-melhores-resultados-da-serie-historica – acesso em 30.01.26











