Ameaças de Trump de guerra ao Irã tem rejeição de 70% dos norte-americanos

Porta-aviões Gerald Ford chega ao porto de Haifa, Israel, para cuidar de suas latrinas entupidas (ZM)

Enquanto o porta-aviões Gerald Ford chegava ao porto de Haifa com as respectivas latrinas entupidas e a embaixada dos EUA em Israel anunciava que funcionários não essenciais deveriam partir, o presidente Donald Trump, na sexta-feira (27), após dizer ainda “não ter decidido” pela Guerra ao Irã, disse que “não estava satisfeito” com as negociações e voltou ao ultimato de “zero de enriquecimento”. Os EUA mantêm neste momento no Oriente Médio a maior concentração de forças militares desde a aventura de W. Bush no Iraque.

Ocorre que de acordo com as pesquisas da Universidade Quinnipiac (localizada em Connecticut) 70% dos norte-americanos são contra a guerra ao Irã e o percentual é ainda maior entre eleitores independentes e democratas. Além disso, Trump foi eleito prometendo acabar com as guerras eternas dos EUA.

Não é por acaso que ao fazer o pronunciamento do Estado da União no Capitólio, foi chamado de “mentiroso” por diversos dos deputados democratas.

Pela manhã, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Aragchi, que participara na véspera das negociações em Genebra com os dois enviados de Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, alertou Washington a abandonar as “exigências excessivas”.

“O sucesso nesse caminho exige seriedade e realismo por parte do outro lado e a prevenção de qualquer erro de cálculo e exigências excessivas”, disse Aragchi ao seu homólogo egípcio Badr Abdel Ati em uma ligação telefônica, segundo a agência de notícias ISNA.

A Ati o chanceler iraniano também relatara sobre o “progresso” nas negociações intermediadas por Omã, sobre as quais avaliou terem sido concluídas “com o entendimento mútuo de que continuaremos a nos envolver de forma mais detalhada em questões essenciais para qualquer acordo – incluindo a extinção das sanções e medidas relacionadas à energia nuclear”. E que estão previstas reuniões técnicas em Viena nos próximos dias e novas negociações.

Nessas negociações, o Irã tem deixado claro que não está em discussão seu sistema de defesa com mísseis, nem o apoio às forças regionais que resistem ao expansionismo israelense e ao apartheid, e sim um acordo que, em troca do fim das sanções e normalização das relações econômicas, mantenha a decisão iraniana de não ter arma nuclear, assim como o direito, comum a todos os países filiados ao Tratado de Não Proliferação, de enriquecimento do urânio para fins civis e médicos.

O país também deixou claro que, se agredido, todas as instalações militares norte-americanas no Oriente Médio serão alvos legítimos, assim como Israel. Como assinalou o aiatolá Ali Khamenei, “mais perigosa que o porta-aviões é a arma que o afunda”.

O premiado jornalista Chris Hedges, chamou a ameaça trumpista de guerra de “loucura suicida”, lembrando que “o Irã não é o Iraque. O Irã não é o Afeganistão. O Irã não é o Líbano. O Irã não é a Líbia. O Irã não é a Síria. O Irã não é o Iêmen. O Irã é o décimo sétimo maior país do mundo, com uma massa territorial equivalente ao tamanho da Europa Ocidental. Tem uma população de quase 90 milhões — 10 vezes maior que Israel — e seus recursos militares, assim como alianças com China e Rússia, a tornam um adversário formidável.”

Há, ainda, o problema do Estreito de Ormuz, por onde passa, por uma via marítima com 2 km de largura, um quarto do fornecimento mundial de petróleo e, como repetidamente Teerã alertou, será fechado em caso de ataque, com as todas as implicações na disparada do preço da energia.

“2003 OUTRA VEZ

Pressionado pelo repúdio à perseguição aos imigrantes, como visto em Minneapolis, pela revogação de parte essencial de seu tarifaço pela Suprema Corte, pelos arquivos do partner e pedófilo, Jeffrey Epstein, Trump pode ser tentado a buscar pela guerra um alívio interno.

Chamou a atenção que em seu discurso do Estado da União de terça-feira Trump haja mentido sobre “mísseis intercontinentais” iranianos ameaçando os EUA.

O ex-primeiro-ministro sueco, Carl Bildt, que jamais poderá ser acusado de pacifista ou de radical de esquerda, reagiu sublinhando que “não há quaisquer indicações que o Irã esteja desenvolvendo mísseis balísticos intercontinentais.. e as alegações de que têm mísseis capazes da atingir a Europa são altamente questionais”.

E clamou: “está começando a soar como 2003”.

Em 2003, exatamente no seu discurso de Estado da União, o então presidente W. Bush lançou as fabricações que seriam usadas para desencadear a guerra e invasão do Iraque. A suposta existência de “armas de destruição em massa” e de um programa para obter a “bomba nuclear”. Era tudo mentira, custou 1 milhão de iraquianos mortos e, como se apreendeu bem depois, a intensificação do declínio norte-americano.

Como registrou Khamenei pela plataforma X: “O império americano está à beira da extinção; verdadeiramente a caminho da extinção! Eles têm problemas econômicos, problemas políticos e problemas sociais. Mais de cinquenta por cento do povo americano não aceita o atual presidente”.

MENTIRAS E MAIS MENTIRAS

O enviado Witkoff, em entrevista à nora de Trump, Lara, teve a pachorra de dizer que o Irã estava “provavelmente a uma semana de ter material industrial para fabricação de bombas” – isso  menos de um ano depois do presidente afirmar ter “obliterado” o programa nuclear iraniano com seu bombardeio ao país no ano passado.

Também The New York Times questionou as alegações do governo Trump para justificar “outra campanha militar contra o Irã”.

“O presidente Trump e seus assessores afirmaram que o Irã reiniciou seu programa nuclear, tem material nuclear suficiente disponível para construir uma bomba em poucos dias e está desenvolvendo mísseis de longo alcance que em breve serão capazes de atingir os Estados Unidos”, registrou o NYT, acrescentando: “todas essas três alegações são falsas ou não comprovadas”.

Segundo a publicação, autoridades governamentais americanas e europeias, grupos internacionais de monitoramento de armas e relatórios das agências de inteligência americanas dão “uma imagem bem diferente da urgência da ameaça iraniana daquela que a Casa Branca apresentou nos últimos dias”.

“Não há evidências de que o Irã tenha feito esforços ativos para retomar o enriquecimento de urânio ou tentar construir um mecanismo para detonar uma bomba. Os estoques de urânio que o Irã já enriqueceu permanecem enterrados após os ataques do ano passado, tornando quase impossível para o Irã construir uma bomba ‘em poucos dias’”.

Ainda segundo o NYT, o Irã possui um grande arsenal de mísseis balísticos de curto e médio alcance capazes de atingir Israel e bases militares americanas no Oriente Médio, mas as agências de inteligência americanas acreditam que o Irã provavelmente “está a anos de ter mísseis capazes de atingir os Estados Unidos”.

“TIREM AS MÃOS DO IRÔ

Nos EUA, cresce a resistência a nova guerra no Oriente Médio. “Estou muito preocupado”, disse o deputado Jim Himes, principal democrata no Comitê de Inteligência da Câmara, na terça-feira após uma reunião a portas fechadas com o secretário de Estado Marco Rubio. “Guerras no Oriente Médio não vão bem para presidentes, para o país, e não ouvimos uma única boa razão para explicar por que agora é o momento de lançar mais uma guerra no Oriente Médio.”

Também figuras emblemáticas do movimento MAGA, como o ex-âncora da Fox News, Tucker Carlson, se pronunciou contra a guerra ao Irã e, inclusive, ao entrevistar o embaixador norte-americano Huckabee, e extrair dele a confissão de que “tudo bem” para Israel se apossar das terras entre “o Nilo e o Eufrates”, por ser direito bíblico, desencadeou um forte protesto árabe e islâmico, e ajudou a neutralizar, naquele fim de semana, o afã pela guerra.

Segundo Carlson, o Irã não ameaça a segurança dos Israel e é o regime Netanyahu que quer que os americanos façam o serviço sujo para ele.

No ano passado, Israel iniciou a agressão e tentativa de decapitação, depois os EUA vieram em seu socorro com o ataque às instalações nucleares, o Irã deu o troco com tamanha eficácia que Tel Aviv teve de pedir trégua.

Tanto a ameaça de agora, quanto os ataques do ano passado, são de acordo com a Jurisprudência de Nuremberg o mais criminoso ato previsto na lei internacional, o que condensa todos os outros malfeitos, a guerra de agressão.

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