Evento histórico reuniu em La Plata, as três principais centrais sindicais argentinas e representantes de 18 países
Sob o lema “50 Anos Depois do Golpe, Resistimos à Ditadura de Ontem e ao Fascismo de Hoje”, um dia internacional de debate e reflexão foi realizado neste domingo (22) em um auditório lotado do Teatro Argentino, no Centro Provincial de Artes de La Plata, demonstrando a força do movimento sindical como motor da resistência. A comemoração foi organizada pela Central de Trabalhadores Autônoma (CTA), pela CTA dos Trabalhadores e pela Confederação Geral do Trabalho (CGT).
O evento contou com a presença de 73 líderes sindicais do Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Costa Rica, Honduras, República Dominicana, Itália, França, Alemanha, Bélgica, Espanha, Galícia, País Basco, Portugal e Austrália. Esta foi a delegação de apoio mais importante na história do movimento sindical argentino desde o retorno da democracia.
A amplitude desta representação foi destacada pelo secretários-gerais da Confederação Sindical Internacional (CSI) e da Confederação Sindical das Américas (CSA), e Rafael Freire e os líderes das CTAs, Hugo Godoy (Autônoma) e Hugo Yasky, pela dos Trabalhadores. Também discursaram o ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel; Quintino Severo, figura de destaque no Comitê Coordenador dos Sindicatos do Cone Sul, e Carli Bianco, ministra do Governo da Província de Buenos Aires.
“O GOLPE DE BILIONÁRIOS DA EXTREMA DIREITA CONTRA OS DIREITOS HUMANOS É DOS MILEIS, DOS BOLSONAROS E DOS TRUMPS”
Luc Triangle expressou sua gratidão: “Vir à Argentina não é apenas uma questão de solidariedade; hoje, a resistência é o que molda o mundo. Os anos de 1976 a 1983 foram os mais sombrios da história argentina, mas os trabalhadores foram a força motriz por trás da luta para acabar com a ditadura militar. O que vemos no mundo hoje pode não ser um golpe militar, mas sim um golpe de bilionários, da extrema-direita, que atacam a democracia, os direitos humanos e a classe trabalhadora. Os Mileis, os Bolsonaros, os Trumps têm a mesma agenda dos militares da década de 1970 e, assim como as ditaduras, seu primeiro alvo são os sindicatos”.
“SOMOS ANTIFASCISTAS: ESTAMOS COM CUBA, COM PETRO E LULA”
Segundo Rafael Freire, “para a CSA, este ato faz parte de um processo e de uma estratégia que transforma a memória em ferramenta política, como quando comemoramos o 20º aniversário do voto ‘Não’ contra a ALCA, e hoje, neste evento tão comovente, que alimenta nossa resistência e luta pela democracia e contra a extrema-direita”. “Somos antifascistas. Comemorar o 50º aniversário do voto ‘Não’ contra o golpe significa dizer que estamos com o Haiti, um país invisível; estamos com Cuba e com todos os países da América Latina na luta contra o fascismo e apoiamos Lula no Brasil e Petro na Colômbia, que tem eleições importantes este ano”, assinalou.
“FASCISMO E IMPERIALISMO SÃO DUAS FACES DA MESMA MOEDA”
Hugo Godoy, ex-preso político durante a ditadura, enfatizou que “fascismo e imperialismo são duas faces da mesma moeda deste infame sistema que é o capitalismo, que gera e alimenta o racismo, as guerras e a destruição da democracia. É por isso que é necessário que os trabalhadores do mundo construam estratégias comuns para acabar com o fascismo e o imperialismo, e para garantir que a palavra ‘democracia’ não seja apenas uma fachada”.
Conforme Godoy, “é essencial construir a unidade entre os povos para que estes possam ser democracias plenas, e isso não acontecerá enquanto a pobreza e a fome persistirem, e enquanto um punhado de bilionários buscar dominar o mundo”. Ele concluiu afirmando que “estar juntos, realizando este tipo de vigília antes de 24 de março, é muito encorajador e revigorante”.
As atividades culminata terça, 24 de março, com a participação na Marcha Nacional pelo Dia da Lembrança da Verdade e da Justiça, que todos os anos reúne milhares de pessoas em todo o país para recordar as vítimas da última ditadura militar e reafirmar o compromisso com os direitos humanos e a democracia.
“Este dia nos enche de força, convicção e compromisso. Não estamos exercitando a nossa memória com um zelo nostálgico, mas com um profundo compromisso com o presente em que vivemos, com figuras grotescas como Milei e Trump, que pertencem a esta direita recalcitrante e fascista”, engatizou Hugo Yasky.
“LUTAMOS PARA SUPERAR O NEGACIONISMO E O OBSCURANTISMO”
Por fim, o Prêmio Nobel da Paz agradeceu “aos homens e mulheres do movimento sindical internacional que se unirão a nós neste 24 de março, neste dia histórico” e destacou “a luta do povo para superar o negacionismo, o obscurantismo e o discurso de ódio”.
O encontro começou pela manhã com uma cerimônia de abertura que enfatizou a importância da solidariedade e do apoio internacional à classe trabalhadora argentina. O evento incluiu um discurso de boas-vindas dos líderes das duas centrais sindicais da CTA de Buenos Aires: Oscar de Isasi, representando a CTA Autônoma, e Roberto Baradel, representando a CTA Operária. Adolfo Aguirre, Secretário de Relações Internacionais da CTA Autônoma, também participou. Julio Alak, prefeito de La Plata; Estela Díaz, Ministra da Mulher e da Diversidade; e Walter Correa, Ministro do Trabalho, também estiveram presentes.
COORDENAÇÃO REPRESSIVA NO CONE SUL CONTOU COM APOIO DOS EUA
O painel internacional “50 Anos da Operação Condor” prosseguiu com apresentações de representantes da Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Paraguai. As ditaduras nesses países, juntamente com Bolívia e Peru, formaram um sistema de coordenação repressiva durante as ditaduras do Cone Sul. Os palestrantes relataram suas experiências com esse plano repressivo implementado pelas ditaduras do Cone Sul com o apoio dos Estados Unidos. Ricardo Peidro, Subsecretário da CTA-Autónoma (Central Autônoma dos Trabalhadores), que foi sequestrado junto com sua esposa em 1977 e mantido no centro de detenção clandestino “Club Atlético”, compartilhou sua experiência e enfatizou: “Entramos nos campos de concentração como ativistas e saímos dos campos de concentração como ativistas”.
À tarde, outro painel focou no papel do sindicalismo argentino na resistência contra a ditadura e na promoção dos Julgamentos da Verdade, bem como no histórico processo argentino contra os crimes contra a humanidade cometidos pela ditadura. Nesse contexto, Víctor De Gennaro, fundador da CTA, comemorou a importância do dia 24 de março: “A história está viva; não é uma memória abstrata. Esse abraço da classe trabalhadora, com as Mães, Avós e organizações de direitos humanos, nos permitiu derrotar a ditadura, e eles não nos derrotaram, nem nos derrotarão, por mais que tentem impor o fascismo e a violência”.
Durante o evento, foram exibidas duas peças audiovisuais sobre a resistência da classe trabalhadora durante a ditadura, como ela atacou o movimento sindical e como tentou silenciar a voz dos trabalhadores. A luta das Mães e Avós da Praça de Maio e o legado dos 30.000 desaparecidos também foram celebrados.
RECONHECIMENTO ÀS MÃES DA PRAÇA DE MAIO
Na cerimônia de encerramento, os depoimentos de María Adela Antokoletz, uma das 14 mães que fundaram as Mães da Praça de Maio, e de Carmen Arias, presidente da Associação Mães da Praça de Maio, foram profundamente comoventes.
A delegação internacional também expressou seu apoio ao sindicalismo argentino e seu reconhecimento à resistência dos trabalhadores, às organizações de direitos humanos, especialmente às Mães da Praça de Maio, e ao povo argentino que levou os perpetradores do genocídio à justiça em julgamentos que continuam a cumprir o legado de Memória, Verdade e Justiça.
MARIANO VÁZQUEZ/ ESPECIAL PARA O HP
O autor é jornalista especializado na área sindical argentina











