
Centenas de atores, cineastas, cantores e outros trabalhadores culturais, apoiados por 850 organizações sociais lançaram o manifesto “Nós nos recusamos a aceitar o rearmamento e a guerra na Europa”
O documento com a recusa a elevar o orçamento militar espanhol foi acompanhado da assinatura de mais de 16 mil pessoas e apresentado pelos atores Juan Diego Botto e Carolina Yuste diante do parlamento da Espanha, na quarta-feira (02). Foi lido no mesmo dia em que o primeiro-ministro Pedro Sánchez se apresentou diante da mesma câmara para defender o aumento dos gastos militares para 2% do PIB, antecipando o prazo original previsto para 2029.
O manifesto também denuncia o genocídio perpetrado pelo regime fascista de Netanyahu que, com apoio da Otan vem dizimando dezenas de milhares de famílias palestinas.
Os artistas espanhóis também apoiaram a declaração assinada por 700 membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA (AMPAS), criticando a entidade por sua omissão em relação ao linchamento de Hamdan Ballal, diretor do filme “Sem Chão”, premiado com o Oscar de melhor documentário, atacado por colonos e soldados israelenses na Cisjordânia ocupada na semana passada. A Academia voltou atrás e lançou declaração rejeitando a agressão ao diretor.
Na continuação da mobilização contra o genocídio, mais 19.000 pessoas assinaram uma petição internacional exigindo proteção de Hamdan Ballal e da equipe produtora de Sem Chão.
Essas declarações refletem a grande oposição entre trabalhadores culturais e artistas ao genocídio em Gaza e na Cisjordânia, bem como às políticas militaristas promovidas tanto pela União Europeia quanto pelo governo Trump.
Veja a leitura do manifesto diante do parlamento espanhol:
O manifesto começa enfatizando a importância de serviços sociais fortes e da paz: “A sociedade precisa da segurança que vem de uma assistência médica pública de qualidade e educação para todos; os jovens precisam de um lar para morar; nossos idosos não querem ver suas pensões colocadas em risco; e, acima de tudo, não queremos que nossos filhos e netos experimentem os horrores da guerra”.
“O REARMAMENTO NOS DEIXARÁ MAIS PERTO DA GUERRA”
O texto rejeita a propaganda generalizada dos grandes meios de comunicação espanhóis e do comando político atual que dissemina a falsa suposição de que o rearmamento trará paz, insistindo, em vez disso, que “isso nos deixará ainda mais perto da guerra”.
Os signatários denunciam a Europa de “permanecer em silêncio ou, pior ainda, apoiar Israel em seu genocídio em Gaza e na Cisjordânia, e até mesmo perseguir aqueles que o denunciam”.
Criticando o fato de que políticas militaristas serão pagas pelos trabalhadores por meio de cortes nos seus direitos e gastos sociais, o manifesto alerta que “o dinheiro de nossos hospitais públicos, nossas escolas e universidades públicas, nosso sistema de saúde, nossa proteção social e redes de segurança para tempos difíceis… será redirecionado para comprar tanques, rifles, caças e mísseis para a guerra, simplesmente porque as elites belicistas que atualmente governam a Europa e os EUA decidiram assim”.
O manifesto observa que “contextos militarizados muitas vezes geram medo e alarme social, criando as condições perfeitas para normalizar mecanismos de repressão e autoritarismo, que já estamos começando a testemunhar”.
Em sua seção final, o texto declara que “guerras são planejadas em escritórios confortáveis, mas são as pessoas que pagam o preço”, concluindo com uma forte conclamação: “Nós nos recusamos a aceitar a guerra porque não queremos a paz dos cemitérios, porque a história nos mostra que o único caminho realista para a paz não é militar, mas político. Mãos à obra e busquem a paz — nós a exigimos”.
O documento recebeu o apoio de algumas das figuras mais reconhecidas internacionalmente no cinema espanhol, incluindo Javier Bardem, Aitana Sánchez Gijón ( O Maquinista , Um Passeio nas Nuvens , A Camareira do Titanic ), Luis Tosar ( Leve Meus Olhos , Maixabel ) e Juan Diego Botto ( 1492: Conquista do Paraíso ). Também foi endossado por diretores como Montxo Armendáriz, escritores como Manuel Rivas e Isaac Rosa, e músicos como Rozalén e o compositor hispano-palestino Marwan.