Bases dos EUA serão alvos legítimos no caso de ataque ao Irã, reafirma Teerã

Masoud Pezeshkian, presidente do Irã. (AFP)

O embaixador iraniano, Amir Saeid Iravani, denunciou escalada de ameaças de Trump e reiterou que o país exercerá seu direito de autodefesa, conforme o artigo 51 da Carta da ONU

Em carta entregue ao secretário-geral Antonio Guterres e ao Conselho de Segurança da ONU, o embaixador iraniano Amir Saeid Iravani denunciou ameaça explícita do presidente Trump de bombardear o Irã em 10-15 dias e “a movimentação e acúmulo persistentes de equipamentos e recursos militares por parte dos Estados Unidos”, reiterando que Teerã exercerá seu direito de autodefesa conforme o artigo 51 da Carta da ONU e considerará “todas as bases, instalações e ativos da força hostil” na região como “alvos legítimos” caso seja “alvo de ação militar”. Neste sábado (21), em discurso pela tevê estatal, o presidente Masoud Pezeshkian afirmou que o país não vai “curvar a cabeça” diante de pressões.

Órgãos de mídia dos EUA apontaram que um “ataque limitado” poderia já ocorrer neste final de semana e que o Pentágono estaria “pronto” para uma guerra de “semanas”. Há notícias de que os EUA estão esvaziando algumas das bases mais próximas ao Irã, com temor do troco que virá. Na semana passada, Trump apregoou em público uma “mudança de regime” no Irã.

Neste momento, os Estados Unidos concentram em torno do Irã a maior presença militar na região desde a guerra de agressão ao Iraque, com dois porta-aviões nucleares e 12 navios de guerra de escolta, inclusive sete lança-mísseis, mais dezenas de bombardeiros, aviões-cisterna de reabastecimento, aviões de comando, sistemas antimísseis e, sem dúvida, submarinos nucleares. Na região, os EUA já têm 30 mil soldados estacionados em 19 bases.

Sobre tal armada, o líder máximo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, lembrou que o porta-aviões pode ser “perigoso”, no entanto, “mais perigosa do que esse navio de guerra é a arma capaz de afundá-lo”, numa referência aos novos mísseis hipersônicos iranianos. O Corpo da Guarda Revolucionária do Irã já comunicou estar com “o dedo no gatilho”.

A reiteração da ameaça de Trump foi feita a seguir à inauguração do seu assim denominado “Conselho da Paz”, de que é, aliás, presidente vitalício, e poucos dias depois do discurso de Marco Rubio, seu secretário de Estado, no fórum de Munique, instando os europeus a ajudarem Washington a recolonizar o mundo. Trump encerrou a sessão do seu “Conselho” com um martelo de ouro, como nas leiloatas de Wall Street.

Mas mesmo as mais buriladas conspirações podem ter problemas inesperados: o Reino Unido, que está ultimando a devolução de Chagos às Ilhas Maurício, anunciou que não cederá a base de Diego Garcia para ataques ao Irã, segundo o The Times.

A exigência de “zero de enriquecimento” viola os direitos dos países não-nucleares determinados pelo TNP. Há décadas está estabelecida a decisão soberana do Irã de não ter armas nucleares mas de dominar a tecnologia nuclear para fins pacíficos. Desde as revelações de Mordechai Vanunu, o mundo inteiro sabe quem viola o TNP e inclusive tem uma centena de bombas nucleares: Israel.

A posse de mísseis para dissuasão de um agressor com a ferocidade de Israel é um direito líquido e certo de uma nação soberana como o Irã, uma das mais antigas civilizações do planeta. E é seu direito apoiar aqueles que lutam contra o colonialismo de colonos de Israel no Oriente Médio, o que é uma conquista da revolução anticolonial vivida pela humanidade no século passado, desencadeada a seguir à derrota do nazifascismo.

“COISAS RUINS PODEM ACONTECER”

O ultimato ao Irã sobre o “acordo nuclear” foi acompanhado por um comentário de Trump bem no estilo dos gangsters de Nova Iorque: “coisas ruins podem acontecer”.

Note-se que foi o próprio Trump que, no primeiro mandato, rasgou o acordo que existia e que funcionou estritamente durante três anos de Obama, no qual em troca do fim das sanções, o Irã se submetia ao mais rigoroso regime de inspeção já aplicado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Na semana passada, o genocida Benjamin Netanyahu foi à Casa Branca para os últimos detalhes de mais essa tentativa de submeter o Irã. Em junho de 2025, ele fora obrigado a pedir penico, após Israel ser severamente atingido pela resposta iraniana ao ataque desencadeado por Tel Aviv e ao qual, a seguir, Washington se somara.

A nova tentativa contra o Irã ocorre em meio ao que equivale a uma anexação de fato da Cisjordânia pelo regime supremacista israelense e à continuação do genocídio, agora a conta-gotas, mas sempre contando mais cadáveres, em Gaza, enquanto Tel Aviv busca dobrar o Líbano e cravar uma cabeça de ponte na Síria.

Como apontado na carta à ONU, o Irã não busca a guerra nem iniciará uma, mas se atacado exercerá seu direito legítimo. Na quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, participou em Genebra da segunda rodada visando um acordo, em que os EUA estiveram representados pelo magnata Steve Winkoff e, ao final da qual, aparentava haver uma avaliação “positiva”. Teerã inclusive se comprometera a apresentar sua proposta por escrito em duas semanas, após as partes definirem os princípios para um possível acordo.

Nas negociações, o Irã recusou qualquer discussão sobre os mísseis de sua força de dissuasão e sobre o apoio a forças de resistência ao expansionismo – e ao apartheid – israelense.

Em entrevista a uma rede norte-americana MS Now, Araqchi disse que “não oferecemos nenhuma suspensão [do enriquecimento de urânio] e o lado americano não pediu o enriquecimento zero”.

Na quarta-feira, as forças iranianas realizaram um bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo do mundo, provocando uma enorme fila de petroleiros, numa demonstração da capacidade iraniana de cumprir sua promessa de fechar essa via essencial caso o país seja atacado. O que, entre outras coisas, faria a cotação do petróleo ir à estratosfera.

Irã e Rússia também realizaram um exercício naval conjunto no Mar de Oman e no norte do Oceano Pacífico – como vêm fazendo há oito anos. Segundo a mídia, Moscou e Pequim – que têm tratados de parceria estratégica com o Irã – deram a devida assistência ao restabelecimento e reforço da capacidade de defesa iraniana após a guerra de 12 dias do ano passado, em que o país foi atacado por Israel e pelos EUA.

Em paralelo, o secretário do Tesouro Scott Bessent se gabou abertamente de que executou a ordem de Trump de provocar o colapso da moeda iraniana, o que serviu de gatilho para os distúrbios inflados pela CIA, Mossad e a quinta-coluna. De acordo com a mídia, motivado pelo sucesso na Venezuela, o regime Trump estaria tentando arrancar concessões também no terreno econômico, especialmente, no petróleo, o substrato do dólar desde 1975.

RÚSSIA ADVERTE

Na quarta-feira, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, em entrevista ao canal de televisão Al Arabiya, advertiu sobre “consequências adversas” para a comunidade internacional de novos ataques ao Irã, com “riscos reais de acidente nuclear” e de desmoralização da AIEA e do próprio Tratado de Não-Proliferação, já que, sob este, instalações nucleares iranianas sob proteção da AIEA não podem ser tocadas.

Lavrov também lembrou que, após a assinatura do JCPOA, o controle da AIEA sobre as atividades do Irã foi “sem precedentes”, mas que Teerã “nunca violou o Tratado de Não Proliferação ou o seu acordo de garantias com a AIEA”.

“Todos os riscos e tensões políticas surgiram depois que os Estados Unidos se retiraram do JCPOA em 2018, três anos após o início de seu mandato”, disse ele.

AS RAÍZES PROFUNDAS DA REPÚBLICA ISLÂMICA

Falando a uma multidão em Tabriz, nos 48 anos de um episódio-chave da revolução islâmica no Irã, o aiatolá Khamenei enfatizou que “a nação iraniana, em múltiplos cenários, demonstrou sua grandeza, sua vontade, sua firme determinação e suas capacidades; desde a guerra dos doze dias até os eventos recentes”, os distúrbios, afirmou ele.

“O que aconteceu foi uma tentativa de golpe fracassada. No fim, quer o inimigo goste ou não, este golpe, preparado com tanto esforço, despesa e planejamento, fracassou e foi derrotado”. Ele destacou também a participação de milhões de iranianos em manifestações por todo o país, particularmente em 11 de fevereiro.

A verdadeira força do Irã – assinalou – reside nas raízes profundas da República Islâmica em seu próprio povo.

O líder máximo iraniano descreveu os Estados Unidos como um império em declínio. Ele apontou para as crises econômicas, as divisões políticas e a instabilidade social dentro do próprio país, resumindo o conflito central em termos claros: os Estados Unidos buscam dominar o Irã, e a nação iraniana se mantém firme em seu caminho.

Ele lembrou que, em seus primórdios, a República Islâmica era como uma muda delicada, mas mesmo assim seus inimigos não conseguiram arrancá-la. Hoje, ela cresceu e se tornou uma árvore forte e frutífera. “A República Islâmica não está separada do povo. A República Islâmica pertence ao povo iraniano.” Sua força reside não apenas em suas armas, mas em suas raízes: em seu povo.

Sobre as negociações nucleares indiretas em curso com os Estados Unidos, Khamenei enfatizou que negociações genuínas não podem ocorrer quando uma das partes dita os resultados antecipadamente. Elas exigem igualdade e reconhecimento mútuo da soberania. Durante 17 anos, o Irã enfrentou pressão, ameaças, sanções e tentativas de derrubada, e mesmo assim resistiu.

70% DOS AMERICANOS CONTRA A GUERRA AO IRÃ

Nos EUA, a volta das guerras sem fim é crescentemente repudiada pelos mais diversos setores. Pesquisa Quinnipiac mostrou que 70% dos americanos são contra outra guerra no Oriente Médio, com apenas 18% apoiando. Enquanto a aprovação líquida de Trump está em -22, na média das pesquisas recentes AP-Norc, NBC News, Yahoo-YouHove e Quinnipiac – ou seja, mais do que o dobro dos norte-americanos o desaprovam do que aprovam. Em fase idêntica do mandato, Biden estava com -13.

Parlamentares, grupos anti-guerra como o Code Pink e até o The New York Times manifestaram sua oposição ao frenesi de guerra de Trump.

A ex-deputada Marjorie Taylor Greene postou no X que “os americanos não querem entrar em guerra com o Irã!!! E escancarou o estelionato eleitoral de Trump, que em sua campanha prometera dar fim às guerras eternas.  “Eles querem poder pagar suas vidas e seguir em frente. Eles querem ser felizes e aproveitar a vida. Eles querem que o governo coloque os pedófilos da elite na cadeia. E votaram a favor de NÃO MAIS GUERRAS ESTRANGEIRAS E NADA DE MUDANÇA DE REGIME.”

“Os americanos não querem outra Guerra sem fim no Oriente Médio. Nós queremos direito à Saúde, não Guerra. Trump, pare com a bola de demolição”, pronunciou-se o senador democrata Edward J. Markey. “Não à guerra com o Irã”, conclamou o deputado Don Beyer, denunciando que “Trump ameaça levar a América à guerra com o Irã a menos que eles façam um acordo como o que Trump rasgou em 2017 para desistir de um programa de armas nucleares que ele clamou ter ‘completa e totalmente obliterado’ há poucos meses”.

Os deputados Ro Khanna (democrata) e Thomas Massie (republicano) anunciaram que vão apresentar na Câmara uma Resolução de Poderes de Guerra na próxima semana determinando que o presidente “cesse o uso das forças armadas dos EUA de hostilidades contra a República Islâmica do Irã ou qualquer parte de seu governo ou exército, a não ser que explicitamente autorizado por uma declaração de guerra ou por uma autorização específica para uso de força militar contra o Irã”.

A LUA SOBRE O TITANIC

Enquanto a mídia norte-americana chamava a atenção para o “índice da pizza” – o aumento repentino da encomenda de pizzas no prédio do Pentágono que coincide com as aventuras de Trump – no esforço para confirmar ou declarar adiado o ataque, o ex-analista da CIA, e opositor à guerra, Larry Johnson, ponderou sobre a questão.

Johnson observou que há dois membros seniores do governo Trump que estão alertando o presidente de que o ataque seria “suicídio político”. Eles forneceram a Trump os resultados de uma recente pesquisa de opinião segundo a qual “se Trump iniciar uma guerra com o Irã e houver baixas significativas dos EUA, o Titanic terá mais chances de navegar novamente do que os republicanos vencerem as eleições de meio de mandato”.

Para o ex-analista, um segundo fator que torna um ataque menos provável neste fim de semana é “o discurso do Estado da Nação de terça-feira feito por Trump”. “A chefe de gabinete Susie Wiles pode ser uma ferramenta sionista corrupta, mas não é politicamente obtusa. Iniciar uma guerra com o Irã, especialmente depois que o acordo tarifário de Trump foi rejeitado pela Suprema Corte dos EUA, provavelmente desencadearia uma tempestade entre democratas, independentes e a mídia. Em vez de Trump poder exibir todas as suas conquistas enormes durante seu primeiro ano de seu segundo mandato, a atenção pública estaria clamando por informações sobre a guerra.”

Segundo Jonhson, o chefe do Estado Maior, Caine, e o almirante Brad Cooper, comandante do CENTCOM, alertaram o presidente que há uma “alta probabilidade de baixas” dos EUA quando os EUA atacarem.

Um fator crítico que é a fase da lua, acrescenta Jonhson. “As próximas 24 horas marcam o fim da Lua Nova, ou seja, da escuridão. A Força Aérea e os aviadores da Marinha não gostam de voar missões de ataque quando a lua está brilhando e pode iluminar aeronaves. O próximo período de escuridão é em meados de março… Trump ou lança até domingo ou provavelmente terá que esperar até meados de março para fazer o trabalho.”

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