
A Hora do Povo conversou nesta semana com Osvaldo Bertolino, jornalista e historiador que lança a biografia “Renato Rabelo – Vida, Ideias e Rumos”, pela Fundação Maurício Grabois, em ato nesta segunda-feira (07), às 18h30, no auditório da UNIP Vergueiro, em São Paulo. A obra descreve trajetória política e intelectual de uma das figuras centrais da esquerda brasileira nas últimas seis décadas.
Ele é autor de várias biografias de dirigentes do PcdoB, entre elas a de Maurício Grabois (comandante militar da Guerrilha do Araguaia), de Péricles de Souza, militante baiano, combatente da ditadura militar, que teve importante papel na reorganização do Partido e no processo de redemocratização do Brasil. Bertolino destaca o papel do dirigente comunista na luta pela democracia brasileira, desde a sua atuação no movimento estudantil, o combate à ditadura e a luta pela eleição de Lula e a reconstrução do país.
O autor considerou um desafio sintetizar a vida do dirigente do PCdoB. “O Renato é o principal dirigente do processo da incorporação da AP ao PCdoB, no contexto da Guerrilha da Araguaia, e depois ele se transforma na segunda pessoa, segundo dirigente do PCdoB, depois do João Amazonas, e com a idade avançada do João Amazonas, ele foi assumindo naturalmente a direção do PCdoB”.
“O Renato é um ser humano de caráter sólido, de convicção revolucionária fraterna, de luta pela causa da humanidade profunda, é uma convicção profunda, é uma pessoa muito dedicada, muito serena”, destaca Bertolino.
JOSI SOUSA

Leia os principais trechos da entrevista:
HP- Gostaria que você abordasse um pouco da trajetória do Renato que é destacada no livro.
Osvaldo Bertolino: Importante dizer que o Renato surge na luta política no movimento estudantil, ainda lá em 1955, ele é de 1942, portanto, muito jovem, participando da AJEC, que era um movimento católico, a Juventude Estudantil Católica, organizações da juventude formadas pela Ação Católica Brasileira. Essas organizações criaram a AP, a Ação Popular, que foi a transição de um processo político progressista mais ligado à igreja católica, e a AP já tinha mais um sentido político.
Na eleição do Juscelino, em 1955, ele já estava lá (na Bahia) participando, perto da região em que ele nasceu, em Ubaíra, depois ele foi para Salvador, no final dos anos 50. Ele pegou toda essa trajetória aí, do governo Juscelino, depois do Jânio, a renúncia do Jânio, a tentativa de impedir a posse do João Goulart, a marcha golpista contra o João Goulart, o golpe de 64.
Após uma temporada de estudos na China, junto com Conchita, sua mulher, ele retorna ao Brasil. A essa altura já havia encerrado o mandato como presidente da União dos Estudantes da Bahia e era dirigente da AP.
“Eles entram para o PCdoB, em 1973, quando a AP, já a APML (Ação Popular Marxista-Leninista), é incorporada ao PCdoB. Ele Haroldo Lima e o Aldo Arantes, que tinham feito um documento chamado de ‘Documento dos Três’. Esse documento faz exatamente a transição do pensamento de Mao Tse Tung para a ideia do PCdoB, do pensamento leninista, eles já entram na executiva do PCdoB. Então, ele saiu de lá (China) e veio para fazer esse processo de incorporação.
HP – O que você destacaria do 28º Congresso da UNE, já com Renato na clandestinidade?
Bertolino: Após um inquérito policial militar começou a caçar o Renato, ele entrou para a clandestinidade, deixou o curso de medicina e foi para Belo Horizonte, onde estava lá sendo preparado o 28º Congresso da UNE, indicado para ser um dos vices. “[…] o Congresso foi o que eu chamo de jogo de gato e rato. Os estudantes montaram o que chamaram de ‘Operação Trote’, para enganar a repressão, conseguiram enganar a repressão, e fizeram o congresso clandestinamente, dando informações falsas, enfim, driblando a repressão, por isso que eles deram o nome de ‘Operação Trote’. Passaram um trote na ditadura e conseguiram fazer o congresso na clandestinidade, foi quando o Renato se elegeu vice-presidente da UNE.
Logo depois teve um dia nacional de protesto, em setembro, acho que Setembro Amarelo, se não me engano, que os estudantes fizeram um grande protesto nacional contra a ditadura, ele dirigiu o protesto em Brasília e em Goiânia, e também lá houve repressão, quebra-quebra, quebra-pau, e a ditadura responsabilizou ele pelos atos, e lá houve também um outro inquérito, e aí ele passou a ser caçado no país inteiro, e clandestino, a atual esposa dele, a Conchita, também era dirigente estudantil, fugiu com ele, eles casaram em 1967, aí venceu o mandato dele, ele foi para a China fazer um curso político-militar.
HP – Na obra são abordados aspectos não conhecidos da trajetória de Renato Rabello na vida pública. Poderia citar alguns deles?
Bertolino: São vários, a começar pelos acontecimentos que eu narrei aqui, lá do Congresso da UNE, pesquisas de documentos dos arquivos da ditadura, pegando os personagens, as pessoas que estão por aí ainda. Nessa parte, por exemplo, de estudante, tem bastante coisas que são revelações que até então se conhecia de ouvir falar, mas não tinha a profundidade que tem.
A questão da China, do debate sobre o pensamento Mao Tsé-Tung, o pensamento leninista, o debate entre AP e PCdoB. Tem também coisas da época do exílio, tem Memórias do Enver Hoxha, que era o principal dirigente do Partido do Trabalho da Albânia, que só tem na (própria) Albânia.
Tem também revelações de conversas, a amizade do Renato, por exemplo, com o vice-presidente José Alencar, que foi fundamental já no governo Lula para enfrentar o neoliberalismo do Palocci, do Meirelles (Henrique Meirelles, presidente do Banco Central), do Ministério da Fazenda.
Vai mostrando exatamente a dimensão, o tamanho, a importância que tem o Renato, isso é reconhecido, inclusive, pelo Lula, ao longo da trajetória da biografia. Pela Dilma (Rousseff) também (eles reconhecem) a importância que teve o Renato, exatamente com essa ideia de que você tem que ter o caminho para você ir fazendo as transformações sociais. Eles agradecem muito ao Renato.
E tem coisas que depois foram se mostrando fundamentais, a defesa do mandato do Lula, por exemplo, o Renato teve um papel fundamental, quando eles fizeram a primeira tentativa de golpe do impeachment do Lula, em 2004, 2005. Ali, o Lula fez um movimento, levou o PCdoB para o núcleo central do governo, com o Ministério da Coordenação Política, na época ocupado pelo Aldo Rebelo, e isso foi fundamental para criar um movimento mais aberto, mais amplo, que possibilitou a resistência, a reeleição do Lula.
No caso da Dilma foi a mesma coisa no enfrentamento do golpe, que o PCdoB trabalhou muito, foi decisivo, foi fundamental para a reeleição da Dilma em 2014. Depois chegou o golpe de 16, aquela história toda que nós conhecemos, e também agora, mais recentemente, na eleição do Lula em 2022, na incorporação do PPL (ao PCdoB), esse encontro dessas duas organizações revolucionárias.
O Renato também teve papel importante em tudo isso.
Então são revelações que, no conjunto, temos a dimensão do tamanho e da importância do Renato.
HP – Adalberto Monteiro, que faz o pósfácio da obra, diz que ela “costura o itinerário” do biografado: coerência, convicção e compromisso com os princípios de um projeto de nação.
Bertolino: O livro está estruturado em três partes. A primeira parte é do desbravador, que é essa que eu falei para você, que eu acabei de relatar. A segunda parte é a parte do ideólogo. E a terceira, é a parte do construtor. E o livro tem as três dimensões, é o meu, que vamos dizer assim, estilo biográfico. Eu, como biógrafo, obviamente, desenvolvi uma técnica de escrever biografias, que é isso aí. Que eu procuro situar a vida pessoal do biografado, a vida familiar, os parentes, esposa, filhos, pais, irmãos, a mãe. Enfim, a vida pessoal, os amigos, os companheiros.
HP – Quem é o homem, o cidadão, o ser humano Renato Rabelo?
Bertolino: É uma figura extraordinária, uma figura que tem uma formação ética, uma formação ideológica, uma convicção revolucionária profunda, ele tem um carisma contagiante. Uma figura muito dedicada às pessoas, muito fraterno, muito querido por todos, muito querido pela família, pelos filhos, pela esposa, irmãos, uma pessoa de um caráter sólido.
O Renato é isso, é um ser humano de caráter sólido, de convicção revolucionária fraterna, de luta pela causa da humanidade profunda, é uma convicção profunda, é uma pessoa muito dedicada, muito serena.
O lançamento da biografia “Renato Rabelo – Vida, Ideias e Rumos” acontece nesta segunda, às 18:30, no auditório da UNIP Vergueiro, em São Paulo.

SERVIÇO:
Lançamento do livro Renato Rabelo – Vida, Ideias e Rumos
- Data: 7 de abril (segunda-feira)
- Horário: 18h30
- Local: Auditório da UNIP Vergueiro – Rua Vergueiro, 1211 – Paraíso, São Paulo/SP –
- O evento é gratuito e terá transmissão ao vivo pelo canal TV Grabois no YouTube (link direto aqui).