Bolsonarista Campos Neto acobertou crimes do Master

Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central. (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Atuou duas vezes em 2024 para impedir liquidação do banco

O ex-presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, teve conhecimento das graves irregularidades cometidas pelo Master contra o sistema financeiro, mas optou por deixar o banco seguir livre com seus crimes . Segundo informações divulgadas pelo “O Estado de S.Paulo”, nesta quarta-feira (28), Campos Neto sabia que o Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, acumulava baixa liquidez, irregularidades contábeis e falhas relevantes no gerenciamento de risco.  

No entanto, Campos Neto optou por não intervir diretamente no Master, apresentando apenas soluções de mercado, como venda de ativos do Banco, na chamada “logica de separação do “good bank” (parte boa do Master) e o “bad bank” (ativos podres do banco). Assim, o custo para o sistema financeiro e o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) seria menor”, afirma o jornal.    

Campos Neto presidiu o BC entre 2019 e 2024, por indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Por mera coincidência, esse foi o período que ocorreu a grande expansão do Master –  saiu de R$ 3,7 bilhão em ativos para marca de R$ 82 bilhões, em valores nominais, sem considerar a inflação, de acordo com dados do próprio BC.   
 
Em pelo menos duas vezes Campos Neto teria atuado para evitar uma intervenção ou liquidação do Master ao longo do ano de 2024, sendo a primeira em março e outra em novembro. Essas datas “coincidem com o aperto da fiscalização sobre o Master, de acordo com relato feito pelo BC ao Tribunal de Contas da União (TCU), no processo sob a relatoria do ministro Jhonatan de Jesus”, diz a reportagem.  
 
No primeiro semestre de 2024, com base nesse documentos obtidos pelo jornal, o BC passou a fazer “acompanhamento contínuo da gestão de risco de liquidez” do Master, ante ao cronograma forte de desembolsos para o pagamento de passivos, ao mesmo tempo que mantinha no seu balanço “baixo estoque de ativos líquidos”.  
 
No documento enviado ao TCU, ainda, o BC afirma que no segundo semestre de 2024 a crise no Master se agravou, com frustração do seu plano de negócios, que previa captar R$ 15 bilhões em recursos institucionais de longo prazo. Mas apenas R$ 2 bilhões foram efetivamente captados pelo Master.  
 
No documento, a autarquia cita que detectou uma série de irregularidades no Master.  
 
“Em função da atipicidade das operações, o Banco Central apurou a existência de irregularidades relacionadas a: insuficiência de capital, como resultado de ajustes determinados após se apurar que haviam sido prestadas informações incorretas à Autarquia; inexistência de ativos líquidos na composição de fundo de liquidez que dava amparo às operações estruturadas de longo prazo; e não atendimento de normas relativas ao gerenciamento do risco de crédito, inclusive por depender de informações prestadas por terceiros”, diz o banco.  
 
Também, conforme a reportagem do Estadão, em outubro de 2023, Campos Neto editou uma norma que alterava a contabilização de precatórios (dívidas judiciais) como ativos de risco carregados pelos bancos. Essa medida abriu uma brecha que ajudou o Master a não ser obrigado a fazer alterações em seu balanço. Desta forma, o banco detentor de bilhões em precatórios e direitos creditórios em seu balanço pôde continuar livremente operando, sem a necessidade de receber mais aportes por parte dos sócios ou ser obrigado a vender ativos.  
 
Em novembro de 2024, um mês antes de Campos Neto deixar o cargo, o Master passou a não recolher os compulsórios exigidos junto ao BC. O depósito compulsório é uma ferramenta de política monetária utilizada pelo BC, que entre outros fins, busca garantir a estabilidade do sistema financeiro brasileiro.

O BC teria simplesmente notificado o Master de que o banco poderia ser alvo de medidas “prudenciais preventivas”, o que seria uma espécie de cartão amarelo, como base na resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN), de 2011, que busca “assegurar a solidez, a estabilidade e o regular funcionamento do Sistema Financeiro Nacional”. Segundo o jornal, ainda, Campos Neto chegou até dar “uma espécie de ultimato informal” para que se encontrasse uma “solução definitiva”. A data final para a proposta de solução para o caso era março de 2025 – três meses após o término de sua gestão.    
 
O BC só decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025, após a Polícia Federal ter anunciado que prendeu Daniel Vorcaro na Operação Compliance Zero, deflagrada pelo órgão, com o objetivo de combater a emissão de títulos de crédito falsos por instituições financeiras.

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