Bolsonaro preso, bolsonarismo vivo: a economia da atenção como estratégia político-eleitoral

Bolsonaro: entra e sai de hospital e holofotes de prontidão (Foto: Evaristo Sá - AFP)

Vitimizando-se e tensionando o debate público, o ex-presidente converte a condenação em ativo político e tenta controlar, à distância, a sucessão da direita em 2026

MARCOS VERLAINE (*)

Com as redes digitais, a vida e a política, definitivamente foram capturadas pela atenção. É o que revela o comportamento de Jair Bolsonaro e do entorno dele após a condenação e a prisão — hoje em regime fechado, com reiterados pedidos de domiciliar humanitária — não se resume a reflexo emocional ou a impulso de vitimização.

Trata-se, pois, de estratégia política consciente, ancorada na chamada “economia da atenção”1, na qual o principal recurso ou ativo em disputa não é o voto imediato, mas o tempo, o foco e a emoção do público.

Ao insistir em narrativas que descrevem as condições dele na prisão como se fossem desumanas ou excepcionais — o que nem de longe isso é real —, o bolsonarismo desloca o eixo do debate público: sai-se da discussão sobre crimes, condenação e responsabilidade institucional e entra-se num terreno emocional, mobilizador e altamente rentável para redes digitais.

O objetivo dessa estratégia não é convencer o centro, mas reter a atenção da base — e, com isso — tentar impedir que essa se disperse, sobretudo eleitoralmente.

CAPITAL POLÍTICO DO VITIMISMO

Na lógica da economia da atenção, Bolsonaro atua como monopolista do barulho. Mesmo inelegível até 2030, ele se mantém como epicentro do debate público à direita.

O vitimismo cumpre basicamente 2 funções centrais. Primeiro, cria monopólio simbólico: enquanto a mídia, as redes e o debate político giram em torno da saúde, da prisão e das decisões judiciais que envolvem Bolsonaro, outros líderes conservadores ficam à sombra, incapazes de construir protagonismo próprio.

Segundo, ativa o engajamento algorítmico: indignação, sensação de injustiça e ressentimento são os sentimentos que melhor performam nas plataformas digitais. E o bolsonarismo conhece esse terreno como poucos.

Não se trata apenas de comoção; trata-se de manutenção de poder simbólico.

UTILIDADE ELEITORAL DA PRISÃO

Paradoxalmente, a prisão não enfraquece Bolsonaro no curto prazo. Essa o reposiciona como curador máximo da atenção da direita brasileira.

Fora da disputa direta, ele se reinventa como ativo eleitoral indireto, alguém que não concorre, mas autoriza, desautoriza e transfere votos.

A estratégia mira 2026 de forma clara: ampliar bancadas no Senado, eleger governadores aliados e consolidar maioria parlamentar capaz de tensionar o sistema institucional por dentro.

A narrativa da “perseguição” passa a ser o eixo unificador dessa campanha difusa, transformando a condenação judicial em combustível político.

Na economia da atenção, o maior risco não é a derrota, mas o esquecimento. O comportamento agressivo, repetitivo e melodramático do entorno bolsonarista serve exatamente para evitar que o eleitor conservador migre para candidaturas de centro-direita mais moderadas ou tecnocráticas.

2026: SUCESSORES SOB TUTELA

Esse modelo, porém, impõe custos claros aos potenciais sucessores da direita na disputa ao Planalto.

Governadores e lideranças regionais que ensaiam voos nacionais — especialmente aqueles com discurso menos radical — enfrentam dilema: ou se alinham integralmente à narrativa da perseguição e da vitimização, ou correm o risco de serem invisibilizados pela máquina de atenção bolsonarista.

A marca “Bolsonaro” foi convertida em ativo permanente de atenção, e nenhum sucessor consegue crescer sem passar por essa lógica político-eleitoral. Isso cria dependência política: o candidato de 2026, seja quem for, tende a surgir não como líder autônomo, mas como extensão simbólica do ex-presidente preso.

A bênção de Bolsonaro — dada por redes digitais, vídeos, cartas ou intermediários familiares — torna-se condição sine qua non para viabilidade eleitoral.

Ao mesmo tempo, essa tutela limita a capacidade de renovação da direita. A insistência em discurso centrado na figura do ex-presidente dificulta a construção de agenda própria, programática e capaz de dialogar com setores além dessa base mais fiel do bolsonarismo.

RISCO INSTITUCIONAL E DEMOCRÁTICO

A estratégia de atenção pode ser eficaz eleitoralmente, mas cobra preço elevado do debate público.

Ao transformar decisões judiciais em espetáculo permanente e a prisão em narrativa épica, o bolsonarismo corrói a confiança institucional, reforça a ideia de que o sistema de Justiça é sempre ilegítimo quando contraria seus interesses e empobrece o espaço democrático.

Mais do que drama pessoal, o que está em curso é a disputa pelo controle da agenda pública. Bolsonaro, mesmo preso, tenta seguir como o centro gravitacional da política brasileira à direita.

Resta saber até quando essa lógica de atenção permanente será suficiente. E se os herdeiros políticos dele conseguirão resistir e existir para além da sombra ruidosa do líder que, mesmo atrás das grades, se recusa a sair de cena.

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

________________


1 Trata-se de conceito em que a atenção humana é vista como recurso escasso e valioso, disputado por empresas e plataformas digitais em ambiente saturado de informações, transformando o foco do consumidor (eleitor) em mercadoria que gera e resistir engajamento, cliques e lucro, com técnicas como rolagem infinita e personalização de algoritmos que visam capturar e reter esse bem finito.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *