DAVI MOLINARI
Só quando me aproximei entendi o que eram aquelas peças coloridas penduradas em fios no teto do Fale Mais Sobre Isso. De longe, pareciam as bandeirinhas de festa junina que o Volpi pintava com a precisão de quem tem TOC, mas de perto… eram gravatas. Centenas delas. Algumas com o nó duplo impecável, ao estilo lorde inglês que nunca pegou um metrô na Sé; outras com o nó simples de quem saiu com pressa de uma audiência de custódia e, por fim, umas apenas enroladas, como se o dono as tivesse arrancado num surto de baixa tolerância à frustração.
— Juvenal, foi você que transformou o boteco numa filial da Faria Lima em dia de folga? — perguntei, enquanto me dirigia à mesa-divã, onde meu necessário psicanalista curtia o happy hour banhado por um sol de fevereiro que parecia querer derreter o bom senso da nação.
— Querido, isso aqui é um protesto alegre — explicou Juvenal, enquanto recolocava na entrada uma placa que eu conhecia bem: “Não toleramos Cidadãos de Bem”. — Os estudantes começaram, os funcionários exaustos do setor financeiro e bancário aderiram e os comerciários, já embalados pelo Carnaval, completaram o varal. São os “penduricalhos da elite”.
O Doutor, como de costume, não disse uma sílaba. Estava sentado na pose de O Pensador de Rodin, enquanto contemplava uma tulipa de chope vazia e rabiscava hieróglifos num bloquinho sobre a mesa, que provavelmente diziam algo sobre a minha pulsão de morte tardia. Ele apenas chacoalhou a cabeça duas vezes. Não entendi se era um “oi” ou se ele estava tentando ajustar o superego ao barulho da rua.
Juvenal se aproximou com duas tulipas de colarinho cremoso e uma porção de manjubinhas crocantes, que pousou na mesa com a precisão de um piloto da NASA estacionando na Estação Espacial.
— Veja, meu caro paciente — Juvenal continuou, agora como um filósofo de avental —, a nação sacou que a elite não segue as regras. Essa conversa de que “leis existem para ser quebradas” é o mantra do Narcisista que sabe tirar proveito do sistema. Os penduricalhos salariais que o STF tenta suspender são só a ponta do iceberg. No setor privado, é fundo anônimo, investimento cruzado… Tudo penduricalho para lavar dinheiro de origem incerta.
— Eu sei, Juvenal — suspirei. — Eles pró-laboram enquanto o nosso risco e retorno é entrar no cheque especial para pagar o cartão. Nosso penduricalho é o saldo negativo. Mas por que a placa contra os “cidadãos de bem” voltou?
O Doutor parou de escrever e ativou as orelhas como um Pastor Alemão que ouviu o barulho de um saco de ração abrindo.
— Medo, meu caro. Medo dessa agressividade crônica travestida de moralismo — Juvenal baixou o tom. — É o tal “apito de cachorro”. O Trump ofende o Obama com termos racistas nas redes, e aqui a moda pega. De repente, o sujeito se acha no direito de ser um sociopata na rua. Veja esses casos da semana: um lutador profissional, um “cidadão de bem” exemplar, que resolveu exercitar a homofobia em Natal, moendo um casal na porrada numa pizzaria. Por quê? Necessidade de domínio.
Eu completei, sentindo o amargor do chope casar com a indignação: — E não para aí. Tem o “pai de família” que, em Mato Grosso, transforma a casa num ringue de agressão doméstica. Ou aqueles garotos, criados a leite com pera e viagens para a Disney, que maltrataram o cão Orelha até a morte por pura maldade. É a pulsão de destruição sem filtro.
— E o caso do chiclete? — Juvenal interveio, limpando a mesa com uma fúria contida. — Um rapaz morto por causa de um chiclete! É a impulsividade elevada ao grau máximo. O sujeito não consegue lidar com um “não” ou com um incômodo banal sem querer aniquilar o outro.
O Doutor, que até então parecia uma estátua de gesso, fechou o caderninho com um estalo seco. O silêncio no Fale Mais Sobre Isso ficou tão denso que dava para ouvir o gás do chope subindo. Olhei para ele esperando uma interpretação freudiana profunda sobre o Mal-estar na Civilização.
Ele olhou para as gravatas penduradas, olhou para a minha manjubinha e soltou a frase capital:
— “O problema é que o ‘Cidadão de Bem’ usa a moral como perfume para esconder o cheiro podre do próprio sadismo.”
Para minha total surpresa, o Doutor levantou-se, pegou uma das gravatas de seda italiana do varal e a amarrou na testa como se fosse uma bandana de guerrilheiro carnavalesco.
— Juvenal, traz outra. O diagnóstico é um só: estamos todos de alta para o bloco dos Borderlines — anunciou o Doutor, com um brilho de ironia nos olhos.
Estava oficialmente aberto o Carnaval no Fale Mais Sobre Isso.
Publicado originalmente em Divã no Boteco LXXII. Enviado pelo autor.











