China abre 15º Plano Quinquenal com crescimento industrial de 6,3% em dois meses

Conferência Consultiva Política do Povo Chinês aprovou o 15ª Plano Quinquenal (Xinhua)

Já estão em vigor na China o 15º Plano Qüinqüenal (2026-2030) e a meta para este ano de crescimento real da economia de 4,5-5,0 %, com a conclusão das “Duas Sessões”, como são conhecidas as reuniões anuais do Congresso Nacional do Povo (NPC) e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), a expressão maior no terreno legislativo da democracia popular de processo integral chinesa e do sistema de planejamento de médio e longo prazo, que permitiram sob o comando do Partido Comunista da China elevar o país, um dos mais pobres do mundo depois do ‘século de humilhações’, até a condição de o maior em paridade por poder de compra, principal parceiro comercial da grande maioria das nações e executor da façanha de tirar 800 milhões da pobreza e urbanizar 68% da população em sete décadas, um feito sem precedentes na história da humanidade.

As “Duas Sessões” ocorreram de 4 de março até o dia 12. A sessão de encerramento ocorreu no Grande Salão do Povo, em Pequim, com a presença do presidente Xi Jinping e de outras autoridades, incluindo os membros do Comitê Executivo do Partido Comunista Chinês, Li Qiang, Wang Huning, Cai Qi, Ding Xuexiang, Li Xi e Han Zheng.

Sob o comando do presidente do NPC, Zhao Leji, e participação dos 2.762 deputados, a plenária culminou um processo de discussão abrangente desde as mais remotas bases, agregando propostas e contribuições de especialistas, esboçando os rumos da China nos próximos cinco anos nesses tempos de “mudanças não vistas em 100 anos”, como tem alertado o presidente Xi.

Com o 15º Plano Qüinqüenal a China avançará em seu processo de modernização, tendo como foco os novos motores do crescimento – inovação, alta tecnologia (Inteligência Artificial no processo produtivo, veículos de nova energia, semicondutores avançados, biotecnologia, big data, robótica) – bem como o desenvolvimento do mercado interno e intensificação da abertura visando apoiar a economia interna e o desenvolvimento do projeto de futuro compartilhado da humanidade com sustentabilidade.

O 15º Plano Qüinqüenal incorpora, pela primeira vez, o conceito de “nova qualidade das forças produtivas” formalizado pelo presidente Xi em 2023 como diretriz central para descrever um modelo de crescimento ancorado em setores intensivos em inovação em contraposição ao modelo tradicional baseado em manufatura de baixo custo e exportações em volume.  Também define 109 grandes projetos nacionais.

MODERNIZAÇÃO SOCIALISTA

Segundo Zhao, o período do 15º Plano Quinquenal será uma etapa decisiva para fortalecer as bases do desenvolvimento e avançar rumo ao objetivo de alcançar, até 2035, a modernização socialista em termos fundamentais, o que implica em “aumentar substancialmente o PIB per capita para que fique no mesmo nível de um país desenvolvido de nível médio” e focar no desenvolvimento do mercado interno e na melhoria da vida das pessoas.

Entre as deliberações, está a de que, até 2030, ¼ da energia gerada na China terá de vir de fontes não fósseis: a China já é recordista em patentes para aplacar a crise ambiental.

As metas para 2026 incluem a criação de mais de 12 milhões de novos empregos urbanos, uma taxa de desemprego urbano em torno de 5,5% e uma meta de inflação, medida pelo índice de preços ao consumidor (CPI), em torno de 2%, com a renda pessoal crescendo no mesmo ritmo da expansão econômica. As emissões de dióxido de carbono por unidade de PIB serão reduzidas em 3,8%, prosseguindo a transição para um modelo de desenvolvimento mais sustentável.

INOVAÇÃO E MULTILATERALISMO

O NPC também se debruçou sobre o recém encerrado 14º Plano Quinqüenal, em que a China consolidou a liderança mundial na indústria manufatureira e se tornou o carro-chefe das inovações que visam enfrentar a crise ambiental e na inovação científica e tecnológica como um todo, apesar do virtual bloqueio desde Washington. Ao mesmo tempo, a China sustentou sua meta de segurança alimentar, com a produção de grãos superando os 700 milhões de toneladas.

A china também se tornou um ponto de estabilidade em um cenário internacional cada vez mais fragmentado e conturbado, com sua convicção no multilateralismo, na Carta da ONU, na não-intervenção e respeito à soberania, resolução de conflitos pela negociação e ampliação da abertura ao exterior, em termos mutuamente vantajosos e sem pré-condições.

Concepção em que se inserem tanto a Nova Rota da Seda quanto os Brics e a democratização da ONU e dos principais organismos internacionais, de forma que a Maioria Global possa superar de vez cinco séculos de colonialismo.

Os países do leste asiático (Asean) superaram os EUA como o maior parceiro comercial da China. Em termos da contribuição da China para a economia global, desde 2008 ela contribuiu em média com cerca de 30% para o crescimento global a cada ano.

Também a China se tornou o maior fabricante de veículos no mundo e recordista em veículos elétricos ou híbridos, com 35 milhões de unidades e 60% de todos os veículos elétricos/híbridos do mundo, deixando para trás o Japão. Surpreeendeu ainda na Inteligência Artificial de fonte aberta, com o DeepSeek e outras, e já é o único país fora os EUA que tem seu próprio sistema de Big Techs, operando em um nível que já supera pela complexidade as norte-americanas. Também implantou um sistema de trens de alta velocidade sem paralelo no mundo e a estação espacial Tiangong (Palácio Celestial).

ESTABILIDADE E PREVISIBILIDADE

Na plenária de encerramento, os parlamentares aprovaram o relatório de trabalho do governo e o esboço do 15º Plano Quinquenal. Também foram aprovadas novas legislações, incluindo o Código Ecológico e Ambiental, a Lei de Promoção da Unidade e do Progresso Étnico e a Lei de Planejamento do Desenvolvimento Nacional. Após a votação, Xi Jinping assinou as ordens presidenciais que promulgam oficialmente as novas normas.

Conforme o Global Times, o planejamento de médio e longo prazo adotado pela China tem contribuído para consolidar uma percepção internacional de “estabilidade e previsibilidade” em relação à economia chinesa.

No atual quadro de insana violação do direito internacional por parte dos EUA, que ameaça anexar até o Canadá e a Groenlândia – sem falar nas agressões à Venezuela e Irã, e ameaças a Cuba -, a China definiu um aumento de 7% nos gastos militares para 2026.

UM DEBATE PROFÍCUO

Em meio à guerra tecnológica e tarifária desencadeada pelo império em declínio e crescentemente agressivo, e as decorrentes medidas tomadas pela China para conter a investida norte-americana e manter a prumo seu desenvolvimento, foi intenso nas “Duas Sessões” o debate sobre os problemas a enfrentar.

“Embora reconheçamos as nossas conquistas, também temos plena consciência das dificuldades e desafios que enfrentamos”, diz o relatório aprovado no NPC.

Como apontou o premiê Li Qiang, o impulso econômico global permanece “lento”, enquanto o multilateralismo e o livre comércio estão “sob severa ameaça”. Ele chamou a “aprimorar nossas próprias capacidades para enfrentar os desafios externos” e as limitações internas.

“A transição para novos motores de crescimento é formidável. O desequilíbrio entre forte oferta e demanda fraca é agudo, as expectativas do mercado são fracas e há muitos riscos e perigos ocultos em áreas-chave”, ele assinalou, em relação ao problema ainda candente da crise no setor imobiliário, que era também uma fonte central de financiamento para os governos locais, desde o colapso da Evergrande.

Durante o boom imobiliário, as autoridades locais conseguiram arrecadar dinheiro vendendo terrenos para desenvolvimento imobiliário, fonte que essencialmente secou. Entre as medidas de atenuação, está a autorização aos governos locais para emissão de títulos de dívida ultralongos e a perspectiva de que imóveis encalhados sejam comprados pelos governos locais para programas habitacionais.

Mas está mantida a orientação de desalavancar o setor, dentro da concepção do presidente Xi de que casa é para morar, não para especular. Outra medida aprovada foi a continuação, agora em 250 bilhões de yuans, do programa de subsídio para a troca de bens duráveis.

MAIS ESTADO E MAIS BEM ESTAR

Também, para aumentar a margem para ampliar o consumo dos cidadãos, gastos que anteriormente ainda não haviam sido coletivizados, como creches, passaram a ser assumidos pelo Estado ou através de subsídios.

Analistas apontam que é mais complexo influenciar o cidadão a consumir, numa situação em que este teme o desemprego e a renda insuficiente, do que o Estado estimular investimentos, o que pode ser feito mais diretamente. Entre os jovens, a insegurança no emprego dificulta a decisão a ter filhos, ou a adia, agravando a queda da taxa de natalidade, que acontece em paralelo ao envelhecimento recorde da população.

Ao mesmo tempo, a China já é recordista mundial em número de robôs industriais, superando a soma de todos os outros países combinado: mais de 2 milhões de robôs em operação em suas fábricas. É também responsável por mais da metade da demanda mundial anual.

De acordo com um especialista ouvido pela CGTN, “a igualdade de acesso aos serviços públicos básicos até 2035 é um requisito fundamental para a modernização socialista da China”, o que deve ser entendido como uma referência aos trabalhadores migrantes internos e unificação do mercado nacional, o que demanda arranjos apropriados em educação, assistência médica, saúde pública e segurança previdenciária. 

Sobre os desafios para transitar para o desenvolvimento com base no mercado interno, o Decano da Faculdade de Economia da Universidade de Fudan, Zhang Jun, disse ao portal chinês Guancha que “os jovens não querem ter filhos, por considerarem os custos muito altos, e, ao mesmo tempo, enfrentam dificuldades para encontrar trabalho e emprego nas cidades, além de condições precárias de moradia. Isso é especialmente verdadeiro para os 270 milhões de trabalhadores migrantes, que basicamente não possuem status legal nas cidades e não têm acesso a serviços públicos básicos.”

Outra questão candente é que, enquanto a inflação ao público está em cerca de 2%, o Índice de Preços do Produtor IPP está em -2,6%, deflação, o que configura o que o presidente Xi citou como “involução”, um ciclo autodestrutivo de concorrência excessiva e predatória, caracterizado por empresas que baixam preços desenfreadamente em setores emergentes e desorganizam a produção. O IPP tem estado negativo por oito ou nove trimestres consecutivos, observou o acadêmico Zhang ao portal Guancha.

O MAIOR MERCADO DOMÉSTICO DO MUNDO E O SISTEMA INDUSTRIAL MAIS COMPLETO

Além dos problemas, foram destacadas vantagens admiráveis da China: “possui o maior mercado doméstico do mundo, um sistema industrial completo e uma cadeia industrial completa, que servem como uma base importante para a criação de novas tecnologias, o desenvolvimento de novas indústrias e o fornecimento de suporte de hardware”. “Esta é a maior fonte de resiliência em nosso desenvolvimento econômico”, observou Justin Lin Yifu, membro da CCPPC e reitor do Instituto de Nova Economia Estrutural da Universidade de Pequim, em recente entrevista ao Global Times.

Também o “capital humano”. “A inovação não pode ser alcançada sem talento. Comparada a outros países e regiões, a China possui um grande grupo de talentos, com mais de 5 milhões de graduados anualmente em áreas como ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), estando entre as melhores do mundo. A melhoria do capital humano compensará os efeitos adversos causados pelo envelhecimento populacional, afirmou ainda o acadêmico.

AS RELAÇÕES MUTUAMENTE VANTAJOSAS DA CHINA

A tentativa de Washington de exportar sua crise para a China, via desacoplamento, não saiu exatamente como o planejado, com a China crescendo as exportações para os demais países, também afetados pelo tarifaço, com superávit comercial recorde de 1,2 trilhão de yuans em 2025, e um crescimento nos dois primeiros meses de 2026 de 21,8% nas exportações, quando a expectativa era de 7,1%.

O que precisa ser contrarrestado com iniciativas para abrir o imenso mercado interno chinês ao Sul Global, como a recente concessão de tarifa zero às exportações dos 53 países africanos.

Também os principais países europeus e o Canadá iniciaram a retomada das relações econômicas mutuamente vantajosas com a China, uma espécie de corolário às avessas da Trumpnomics & Donroe Doctrine. Como está o imbróglio Trump vs Pequim ficará para ser visto na próxima viagem dele à China – depois de ter recuado, sob porrada, inclusive a restrição da China à exportação das terras raras, das insanas sobretarifas de 145% logo após o malsinado “Dia da Libertação”.

É A INDÚSTRIA, ESTÚPIDO

A produção industrial de valor agregado da China, um importante indicador econômico, cresceu anualmente 6,3% nos primeiros dois meses de 2026, segundo dados divulgados na segunda-feira pelo Departamento Nacional de Estatísticas (DNE). O ritmo foi 1,1 ponto percentual mais rápido do que o registrado em dezembro do ano passado, de acordo com o DNE.

Somente em fevereiro, a produção industrial cresceu 0,83% em relação a janeiro. O dado mede a atividade das grandes empresas, com um faturamento anual de pelo menos 20 milhões de yuans (US$ 2,9 milhões).

Por setores, a produção de valor agregado da mineração aumentou anualmente 6,1% nos dois meses, enquanto a do setor manufatureiro cresceu 6,6%. Produção e fornecimento de eletricidade, aquecimento, gás e água aumentou 4,7%. Fabricação de equipamentos aumentou 9,3%, respondendo por 47,4% do crescimento total.

A produção de valor agregado das empresas de manufatura de alta tecnologia cresceu 13,1% em termos anuais, enquanto o setor de manufatura de produtos digitais registrou uma expansão de 8,8%. Ambos superando consideravelmente o crescimento geral, sublinhou o porta-voz do DNE, Fu Linghui.

A produção de turbinas eólicas aumentou 28,7% em termos anuais; baterias de íons de lítio, 84%.  “Anos de progresso na transição para energia verde produziram resultados notáveis”, acrescentou Fu.

Olhando para o futuro, Fu disse que a prioridade será “construir um forte mercado doméstico e um mercado nacional unificado. As principais medidas também incluem promover a integração entre a inovação em ciência e tecnologia e a inovação industrial, modernizar indústrias tradicionais, cultivar indústrias emergentes e do futuro e acelerar o desenvolvimento de um sistema industrial moderno.”

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