O jornal do Exército de Libertação Popular da China (ELP) anunciou que o general Zhang Youxia da Comissão Militar Central (CMC), principal instância de direção militar do país, está sob investigação do Comitê Central do Partido Comunista Chinês (PCCh) por “graves violações disciplinares e legais”. na campanha que promete “levar a luta anticorrupção até o fim”, com “tolerância zero” e “sem zonas proibidas”.
Outro general também sob investigação por razões similares é Liu Zhenli que também integra a Comissão Militar Central. Ambos generais foram removidos de seus cargos .
“Independentemente de quem seja ou da posição que ocupe, qualquer pessoa que se envolva em corrupção não será tolerada”, sublinha o editorial de sábado (24).
Zhang é membro do Bureau Político do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh) e vice-presidente da Comissão Militar Central (CMC), o segundo no comando depois do presidente Xi Jinping. Liu é membro do CMC, chefe do Estado-Maior do Departamento Conjunto do CMC e ex-chefe da força terrestre. O editorial tem como título “Vencer resolutamente a guerra decisiva, prolongada e abrangente na luta contra a corrupção nas Forças Armadas”.
Desde sua posse em 2012, o presidente Xi fez da luta contra a corrupção uma bandeira central do partido e do renascimento nacional. Política que conta com enorme apoio popular, já tendo investigado dois milhões de funcionários em uma década e afastado até mesmo ex-dirigentes do politburo, governadores, diretores de estatais e generais que, diante do assombroso processo de desenvolvimento chinês, descambaram para aceitarem vultosas propinas em troca de contratos, promoções ou favorecimento de parentes, entre outros malfeitos.
Na época, Xi prometeu – e cumpriu – combater “os tigres” (os grandes corruptos) e “as moscas” (os pequenos aproveitadores).
Segundo o editorial, “investigar e punir Zhang Youxia e Liu Zhenli de acordo com a disciplina do Partido e a lei, sem dúvida, retificará ainda mais a situação política e eliminará o veneno ideológico e as práticas ilícitas” e injetará “forte ímpeto” no desenvolvimento do ELP, que permanecerá a força heroica na qual o Partido e o povo podem confiar plenamente.
BATALHA CRUCIAL
“A corrupção é um obstáculo e um entrave ao desenvolvimento do Partido e do país. A luta contra a corrupção é uma batalha crucial que não podemos nos dar ao luxo de perder e que não devemos perder”, afirma a publicação.
“Desde o 18º Congresso Nacional do Partido Comunista da China, sob a forte liderança do Comitê Central do PCCh, da Comissão Militar Central e do Presidente Xi Jinping, todas as Forças Armadas aderiram ao princípio de governar o Partido e as Forças Armadas de forma abrangente e rigorosa, promoveram profundamente a retificação política, a aplicação da disciplina e os esforços anticorrupção, persistiram na investigação e eliminação da corrupção, lidaram resolutamente com oficiais militares corruptos de alta patente e concentraram-se na eliminação de riscos políticos.”
“A prática comprovou que quanto mais o Exército de Libertação Popular combate a corrupção, mais forte, mais puro e mais eficaz em combate ele se torna; quanto mais completa a luta contra a corrupção, mais confiante e determinado ele se torna para alcançar a meta do centenário do Exército de Libertação Popular.”
Não é a primeira vez que oficiais de alta patente são investigados e punidos por corrupção, como no afastamento do ministro da Defesa anterior, Li Shangfu, e do ex-vice da CMC de 2004 a 2013, general Xu Cahiou. Sequer uma exclusividade chinesa: um ex-vice-ministro da Defesa russo, Timur Ivanov, foi recentemente condenado a 13 anos de prisão por corrupção em meio à Operação Militar Especial para libertação do Donbass. No caso chinês, outros nove altos oficiais foram afastados no ano passado.
“ONDE HOUVER GANÂNCIA, HAVERÁ PUNIÇÃO SEVERA”
Dez dias antes, o presidente Xi, em discurso à principal agência anticorrupção da China, do Comitê Central, reiterou que o governo manterá “pressão elevada”, com a diretriz de que “onde houver corrupção, ela será combatida e onde houver ganância, haverá punição severa”.
O objetivo é impedir que corruptos “tenham onde se esconder”, reforçando mecanismos de responsabilização e ampliando a capacidade de fiscalização, afirmou Xi. As normas – acrescentou – devem se tornar “linhas de alta tensão energizadas”, sem privilégios ou exceções.
Para atingir os objetivos de desenvolvimento da China e o 15º Plano Quinquenal, o PCCh “deve mobilizar quadros que sejam verdadeiramente leais, confiáveis, consistentes e responsáveis”, ele convocou.
SEM “TIGRES” E SEM “MOSCAS”
No informe ao 20º Congresso do partido, o presidente Xi enfatizara que a corrupção “é o maior ‘tumor maligno’ que prejudica a vitalidade e a combatividade do Partido, por isso, o combate à corrupção é a autorrenovação mais completa”.
Ele convocou a criar, com esforços simultâneos, coordenados e integrais, “um ambiente em que ninguém ouse ser, possa ser e queira ser corrupto.”
“Temos que investigar e punir firmemente a corrupção em que estão entrelaçados os problemas político e econômico, prevenir que os quadros dirigentes se tornem porta-vozes ou agentes dos grupos de interesses e grupos de poder e influência”.
Xi também chamou a “lidar, sem nenhuma tolerância, com o problema de que os políticos e empresários se conluiam para destruir o ecossistema político e o ambiente do desenvolvimento econômico.”
“Devemos retificar a corrupção nas áreas onde concentram poder, fundos e recursos, punir resolutamente as “moscas”, ou seja, os corruptos pequenos, que atuam no cotidiano das massas populares, e investigar e punir severamente o problema de que os parentes dos quadros dirigentes, incluindo cônjuges, filhos e cônjuges de filhos, e seus funcionários próximos buscam interesses egoístas ou cometem a corrupção, aproveitando a influência desses quadros dirigentes.”
“Continuaremos a investigar simultaneamente tanto os subornados quanto os subornadores, e combateremos a corrupção de novos tipos e a corrupção escondida. É necessário aprofundar a cooperação internacional anticorrupção, e estabelecer um mecanismo integral para prevenir a fuga de corruptos ao exterior, perseguir os corruptos fugitivos no estrangeiro e recuperar os fundos e bens desfalcados.”
DELÍRIO EM LONDRES E WASHINGTON
O mais recente episódio do combate anticorrupção do governo Xi deixou em polvorosa a mídia ocidental, com os mais descabelados rumores sendo enumerados. “Essa medida é sem precedentes na história das forças armadas chinesas e representa a aniquilação total do alto comando”, asseverou o The Wall Street Journal, citando uma “fonte” de um think tank ligado ao Pentágono.
“Exército chinês em crise”, delirou a BBC. A Australian Broadcasting Corporation a chamou de uma purga “surpreendente” que deixa o líder chinês Xi Jinping quase sozinho no topo do maior exército do mundo.
Houve até quem chegasse a dizer que “o potencial para uma invasão de Taiwan agora foi reduzido”, como registrou o Asia Times – que, aliás, achou isso uma tremenda besteira. O WSJ foi ainda mais longe: relatou que Zhang é acusado de fornecer aos Estados Unidos informações sobre o programa de armas nucleares da China.











