A ativista norte-americana Claudette Colvin, pioneira dos direitos civis em seu país após se recusar a ceder o assento a uma mulher branca em um ônibus em 1955, morreu aos 86 anos, informou sua fundação, na terça-feira (13).
Colvin tinha 15 anos quando se recusou a ceder seu assento no estado sulista do Alabama, vários meses antes de Rosa Parks protagonizar um protesto semelhante que se tornou um momento decisivo no nascimento do movimento moderno pelos direitos civis nos Estados Unidos.
“Para nós, ela era mais do que uma figura histórica. Era o coração da nossa família, sábia, resiliente e apegada à fé”, afirmou a Fundação Claudette Colvin. “Deixa um legado de coragem que contribuiu para mudar o curso da história americana”, completou a entidade.
Em entrevista, Claudette contou à AFP, em 2023, que, naquele 2 de março de 1955, ela e suas amigas foram liberadas da escola um pouco mais cedo, quando pegaram um ônibus. “As pessoas brancas sempre se sentavam nos assentos da frente, e os negros, atrás. O motorista do ônibus tinha autoridade para designar quem sentava onde, e quando mais brancos entravam no ônibus, ele pedia os assentos (dos negros)”, contou.
As amigas estavam sentadas em uma fileira um pouco atrás da metade do veículo, e uma passageira branca estava de pé no corredor. O motorista, então, disse para que todas elas se deslocassem para a traseira do ônibus, para que a mulher pudesse se sentar.
“BRANCOS E NEGROS NÃO PODIAM COMPARTILHAR A MESMA FILEIRA”
“Ele queria que eu saísse do meu assento por conta de uma mulher branca, e eu teria concordado se fosse uma idosa, mas, no caso, era uma mulher jovem. Minhas amigas se levantaram relutantemente, mas eu fiquei sentada no assento da janela”, assinalou.
Contudo, a mulher branca ainda não poderia se sentar, já que por conta das regras radicalmente racistas, fascistas aliás, brancos e negros não podiam compartilhar a mesma fileira de assentos. Mas Claudette Colvin disse ao motorista que pagou a passagem e era seu direito constitucional permanecer onde estava.
Por conta desse evento a adolescente foi presa e levada a uma cela de adultos, e integrou a ação judicial Browder v. Gayle, que resultou em decisão da Suprema Corte declarando inconstitucional a segregação no transporte público norte-americano.
Apesar da relevância histórica, o episódio permaneceu por décadas fora dos registros centrais do movimento.
“Sempre que me perguntam por que não levantei quando o motorista me pediu, digo que senti como se as mãos de Harriet Tubman estivessem me empurrando em um ombro e as mãos de Sojourner Truth, no outro. Me senti inspirada por essas mulheres, porque havia aprendido sobre elas em detalhes”, afirmou, referindo-se às heroínas abolicionistas negras que nasceram escravizadas e se tornaram lideranças na luta pelos direitos das mulheres afro-americanas.
CLAUDETTE: ESTIGMATIZADA PELOS RACISTAS
“Não estava com medo, mas chateada e com raiva porque sabia que eu estava sentada no assento correto”, frisou.
Após o caso, Claudette Colvin enfrentou estigmatização social e dificuldades econômicas, mudando-se para Nova York, onde trabalhou como auxiliar de enfermagem até a aposentadoria.
Seu papel histórico começou a ser amplamente reconhecido apenas a partir dos anos 2000, com o avanço de pesquisas acadêmicas e publicações que resgataram sua trajetória. Só em 2021 a Justiça de Montgomery anulou formalmente a condenação imposta a ela em 1955.











