
Sobretaxa mínima é de 10% (Brasil, América Latina, Reino Unido). 20% sobre os produtos da União Europeia, 24% sobre o Japão, 26% sobre a Índia, 30% sobre a África do Sul e 34% sobre as exportações da China
No que chamou de “Dia da Libertação” dos Estados Unidos, o presidente Donald Trump concretizou na quarta-feira (2) sua ameaça de guerra comercial ao planeta inteiro, estabelecendo uma sobretaxa abrupta e unilateral que começa com 10% sobre as exportações do Brasil, Reino Unido e a maior parte da América Latina. Vai a 20% sobre a União Europeia, 24% sobre a Coreia do Sul, 25% sobre o Japão, 26% sobre a Índia, 34% sobre a China e Vietnã 46%. Além de inacreditáveis 49% sobre os produtos do Camboja.
O que apelidou de “taxação recíproca”, já que destinada a se contrapor à suposta – por ele – “exploração” sobre os EUA pelos demais países do mundo e decorrente déficit da balança comercial norte-americana. “Cobraremos deles aproximadamente metade do que eles têm cobrado de nós”, inventou Trump.
Além das tarifas recíprocas, outras taxas já anunciadas por Trump também passaram a valer nesta quarta-feira (2), como a cobrança de 25% sobre carros importados pelos EUA e as taxas de 25% sobre as exportações do México e Canadá que não se enquadrem no M-E-C (acordo comercial entre os três países).
Como antes Trump já tinha imposto uma sobretaxa de 20%, a pretexto do fentanyl, sobre as exportações chinesas recairá 54%.
A última vez que houve um tarifaço dessa magnitude foi na década de 1930, com as infames tarifas Smoot-Hawley, que ao invés de enfrentar agravaram as consequências da eclosão da Grande Depressão.
Mas, segundo Trump, a guerra tarifária irá gerar uma “era de ouro” nos Estados Unidos, que voltará a se reindustrializar, com as empresas trazendo as fábricas de volta ao país para evitarem as sobretaxas.
“Assinarei uma ordem executiva histórica estabelecendo tarifas recíprocas com países ao redor do mundo. Recíproco significa: eles fazem isso conosco, e nós fazemos isso com eles”, declarou ele na Casa Branca. “Este é um dos dias mais importantes, na minha opinião, na história dos Estados Unidos”, perorou.
Para Trump, não foram os EUA que impuseram ao planeta sua moeda, o dólar, enfiaram goela alheia abaixo o Consenso de Washington e a globalização, institucionalizaram a farra do boi dos derivativos e levaram, por iniciativa própria, suas fábricas para o Sul Global, para tirar proveito de salários de fome, em pleno “fim da história”, pós-União Soviética. Ao mesmo tempo em que mantinham 800 bases no mundo inteiro, chamavam o mundo de “unipolar”, invadiam e pilhavam terra alheia sempre que dava vontade e decretavam sanções como quem masca chiclete.
SUL GLOBAL ARROMBOU A GLOBALIZAÇÃO, DIZ VANCE
Recentemente, seu vice, Vance, expressou durante uma reunião com investidores de risco uma compreensão mais verídica sobre o que de fato aconteceu: “A ideia da globalização era que os países ricos subiriam mais na cadeia de valor, enquanto os países pobres fariam coisas mais simples. Você abriria uma caixa de iPhone e diria ‘projetado em Cupertino, Califórnia’”.
“Agora, a implicação, é claro, é que ele seria fabricado em Shenzhen ou em outro lugar. E, sim, algumas pessoas podem perder seus empregos na fabricação, mas elas poderiam aprender a projetar ou, para usar uma frase muito popular, aprender a codificar.”
“Mas acho que erramos. Acontece que as geografias que fazem a fabricação ficaramm terrivelmente boas no design das coisas. Existem efeitos de rede, como todos vocês bem entendem.”
“As empresas que projetam produtos trabalham com empresas que fabricam. Elas compartilham propriedade intelectual. Elas compartilham as melhores práticas. E às vezes até compartilham funcionários essenciais.”
“Agora, presumimos que outras nações sempre nos seguiriam na cadeia de valor, mas acontece que, à medida que melhoravam na extremidade inferior da cadeia de valor, também começaram a se recuperar na extremidade superior. Fomos espremidos de ambas as extremidades.”
Situação descrita pelo titular da Casa Branca como: “nosso país foi saqueado, pilhado, estuprado e roubado” por outras nações.
Ainda segundo Trump, “Os contribuintes foram enganados por mais de 50 anos, mas isso não vai mais acontecer.”
OUTRA FACE DO “MUNDO UNIPOLAR”
Compreensivelmente, Trump em sua análise deixou de fora o “privilégio exorbitante” de que o grande De Gaulle já falava, o de comprar bens de toda a parte com papel impresso (na época), dólares, e agora simplesmente com cliques numa tela de computador, a consequência direta de Bretton Woods e seus desdobramentos na década de 1970. O que não o impede de ameaçar com uma sobretaxa ainda maior quem ousar desdolarizar.
Nem sobre o controle das altas finanças no planeta inteiro detido pelos EUA, o que vai desde o FMI e Banco Mundial, até o cassino de Wall Street e seus rebentos mais recentes, como a BlackRock.
Ou que os EUA são superavitários nos serviços. Ou que, nas transações com o Sul Global, os EUA são favorecidos nos termos de troca.
Ou que Washington acha que pode impor aos mais fracos acordos leoninos, como o apresentado à Ucrânia, para pegar as terras raras, o gás e o petróleo, ou o conjunto das imposições via predomínio sobre o FMI.
Trump ignora tudo isso e reduz a questão aos déficits comerciais dos EUA. “Realmente não aguentamos mais. Há muito tempo os Estados Unidos importam mais produtos do que exportam. Estamos colocando a América em primeiro lugar”.
“Vamos começar a ficar inteligentes e vamos começar a ficar muito ricos”, prometeu Trump, referindo-se às tarifas recíprocas. Ele chamou o déficit comercial de “emergência nacional” que ameaça a segurança dos EUA.
Se a aposta de Trump vai vingar, fica para ser visto. Mas o planeta inteiro terá de se pronunciar sobre essa guerra tarifária e encontrar os caminhos para manter o desenvolvimento produtivo e limitar o rentismo.
CETICISMO NOS EUA
Segundo uma pesquisa nacional da Marquette Law School Poll, de março, mais da metade dos adultos norte-americanos acredita que as sobretaxas prejudicarão a economia dos EUA e provocarão aumento da inflação.
No geral, 58% dos adultos acreditam que as políticas de Trump aumentarão a inflação, de acordo com a pesquisa. Apenas 28% disseram que as tarifas ajudariam a economia. O índice de aprovação do trabalho de Trump foi de 46%, com 54% de desaprovação. Sua aprovação entre os independentes caiu de 37% em janeiro para 32%.
Segundo a Casa Branca, o chute dessas “tarifas recíprocas” se baseou nas tarifas cobradas pelo outro país, assim como a suposta “manipulação cambial” e as “barreiras comerciais”.
“Não há base para as taxas equivalentes a tarifas impostas por outros países. Isso é pura invenção”, disse Gary Clyde Hufbauer, membro sênior não residente do Instituto Peterson de Economia Internacional, à Xinhua.
ESCALADA, DIZ NYT
Para o New York Times, a medida foi “uma escalada significativa da luta comercial do Sr. Trump e provavelmente afetará a economia global, elevando os preços para consumidores e fabricantes americanos e incitando retaliação de outras nações”.
“As tarifas anunciadas estão no extremo das previsões”, disse Hufbauer. “Além disso, a caracterização raivosa de países estrangeiros … Difícil ver os EUA evitando uma recessão. O crescimento mundial cairá 1% ou mais”, disse ele.
A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, disse que “o que sabemos é que não será bom para a economia global, para aqueles que impõem tarifas ou para aqueles que retaliam”. “Isso vai interromper o comércio global como o conhecemos ”, alertou. Ela manifestou a expectativa de que a escalada tarifária acabe por levar a negociações nas quais as partes finalmente concordam em reduzir algumas dessas barreiras .
Para Douglas Irwin, historiador econômico do Dartmouth College, “isso será muito maior do que o Smoot-Hawley Act”, apontando tanto para o aumento esperado nas tarifas quanto para o volume de comércio afetado, que deve exceder o que aconteceu em 1930.
“As importações representam uma parcela muito maior do PIB agora do que no início da década de 1930, de longe.” Atualmente, são 14% do PIB dos EUA, cerca de três vezes a participação de 1930.
O que mais preocupa o fundador da DataDocks, Nick Rakovsky, é que as empresas que normalmente planejam entregas para os meses de verão não estão reservando nada além da primeira quinzena de abril . Um comportamento, para ele, “consistente com a incerteza que vimos no passado” durante o caos da cadeia de suprimentos da pandemia de Covid-19”.
Em 2019, durante a primeira guerra comercial de Trump, o Fed concluiu que o impacto da incerteza na desaceleração do investimento e da contratação foi maior do que o efeito direto das tarifas.
Em março, o Fed cortou sua previsão de crescimento anual, a maior queda desde 2022, revisando a projeção deste ano de 2,1% para 1,7% . O que ocorreu antes mesmo das novas tarifas anunciadas e logo após a OCDE alertar que as políticas comerciais de Trump desacelerariam o crescimento global e aumentariam os preços.