“Defendemos não só o Irã, mas o direito internacional” diz Lavrov em entrevista

Lavrov entrevistado por Lea Salamé da TV France 2 (Redes Sociais)

Depois de muito tempo, a Televisão Francesa entrevistou o chefe da diplomacia russa, Sergey Lavrov, questionando-o sobre “por que defende veementemente seu aliado, a República Islâmica do Irã?”

“Não defendemos tanto a República Islâmica, mas, antes de tudo, o direito internacional”, retrucou Lavrov. “O Irã não é apenas nosso aliado, mas também um parceiro estratégico, como refletido no tratado intergovernamental pertinente. Não creio que os franceses, que historicamente sempre declararam seu compromisso com o direito internacional, desconheçam o que está acontecendo”.

“Quando o presidente dos EUA, Donald Trump, declara que o direito internacional não lhe interessa e que se guiará por seus princípios morais e instintos, isso não pode ser recebido com aprovação”, afirmou o chanceler russo.

Ele sublinhou que a Rússia tem insistido em sinalizar aos americanos a oportunidade de estabelecer um diálogo para resolver todos os problemas no Golfo Pérsico e na região do Oriente Médio como um todo.

“Cada vez que os Estados Unidos e seus aliados intervêm nos processos em curso na região, a situação se torna mais grave. Iraque, Síria e Líbia foram devastados”.

“Hoje, o mesmo acontece com a República Islâmica do Irã. E, pela segunda vez consecutiva, a agressão contra este país começa em meio a negociações”.

“Quando membros importantes do governo do presidente dos EUA falam com bravata e orgulho sobre os assassinatos a sangue frio do Líder Supremo do Irã e de outros membros da liderança do país, é difícil descrever isso como algo além de cinismo”, enfatizou Lavrov.

Defendemos – ele acrescentou – os interesses do Irã e de todos os países da região, incluindo nossos parceiros estratégicos próximos no Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), que também sofrem com a agressão lançada pelos Estados Unidos e por Israel.

RÚSSIA “BENEFICIADA”, ALEGA ENTREVISTADOR

Imbuído da russofobia que grassa em terras europeias, o entrevistador tentou então arrancar de Lavrov a admissão de que a Rússia estaria sendo beneficiada pela guerra de Trump contra o Irã. “O senhor pode vender mais petróleo para os países asiáticos? Isso permitirá que o senhor feche o déficit e financie a operação militar especial na Ucrânia?”.

Pacientemente, o chanceler russo esclareceu ao hipócrita que na Rússia “nunca nos alegramos quando guerras iniciadas por outros povos e Estados levam a mudanças nos mercados mundiais, causando o aumento dos preços dos hidrocarbonetos e de outros produtos que a Federação Russa exporta. Sempre continuaremos, aconteça o que acontecer, a comercializar e manter relações econômicas com aqueles que têm interesse nisso.” E desancou as “sanções ilegítimas” ao petróleo russo.

MONOPOLIZAÇÃO DO PETRÓLEO

“Vemos o interesse dos Estados Unidos. Eles o declararam. Existem documentos oficiais e declarações de autoridades nas quais afirmam que buscarão dominar os mercados globais de energia.”

“A Venezuela é um exemplo direto. A alegação era de que era necessário ‘eliminar o regime do cartel de drogas’. No fim, tudo culminou com os Estados Unidos assumindo o controle da indústria petrolífera venezuelana.”

“O mesmo está acontecendo com o Irã. O presidente dos EUA, Donald Trump, declarou claramente que deseja controlar o Estreito de Ormuz e todos os carregamentos de hidrocarbonetos que passam por ele, em conjunto com o Irã.”

“O gasoduto Nord Stream foi destruído por sabotadores ucranianos com o apoio evidente de serviços de inteligência ocidentais. Ninguém condenou essa ação, nem a França nem a Alemanha. Os Estados Unidos agora também afirmam que querem tomar o controle do Nord Stream.”

“Se observarmos as sanções impostas às empresas russas Lukoil e Rosneft, todas as suas operações no exterior são atualmente alvo de uma tentativa de aquisição hostil. Portanto, não somos nós que estamos usando ações no cenário internacional para tentar obter vantagens ilícitas.”

UCRÂNIA NEUTRA E RESPEITADORA DOS DIREITOS

Diante da oposição de Lavrov à violação do direito internacional no Irã pelos EUA e Israel, o entrevistador o questiona se a Rússia não está igualmente violando o direito internacional na Ucrânia.

“Quanto à violação do direito internacional pelos Estados Unidos e Israel no Irã, não sou eu quem está dizendo isso. É um fato que ninguém nega, incluindo a República Francesa”, observa Lavrov.

Ele salienta que, quanto ao Irã, houve um processo de negociação em junho de 2025 e fevereiro de 2026. “E os ataques, sem declaração de guerra, sem qualquer justificação, ocorreram em plena negociação, na véspera de uma nova rodada planejada.”

Quanto à relação entre a Ucrânia e o direito internacional, Lavrov o relembrou de que quando a URSS entrou em colapso em 1991 a Ucrânia declarou sua independência “com base em uma declaração especial afirmando que seria um Estado soberano, independente, desnuclearizado e neutro, que não se uniria nem buscaria se unir a nenhum bloco militar ou político”.

“Nessa mesma declaração, foi afirmado que a Ucrânia, como Estado independente, garantiria os direitos humanos legítimos, incluindo os direitos das minorias nacionais e, como proclamado, os direitos linguísticos e religiosos.”

“Reconhecemos a independência daquela Ucrânia, não daquela governada por um regime nazista”, disse Lavrov, levado ao poder “por nossos colegas ocidentais após um golpe de Estado em fevereiro de 2014”.

PERFÍDIA NA NORMANDIA

França, Alemanha e Polônia “assinaram os acordos entre o então presidente Viktor Yanukovych e a oposição, que estipulavam e implicavam a criação de um governo de unidade nacional e a realização de novas eleições antecipadas”.

“Na manhã seguinte, quando a oposição pisoteou as assinaturas da França, Alemanha e Polônia, nem Paris, nem Berlim, nem Varsóvia se manifestaram ou exigiram que a oposição respeitasse seus compromissos.”

“Então começou a agressão do regime de Kiev contra seus próprios cidadãos: mais de 40 pessoas queimadas vivas em Odessa, cidades bombardeadas, o centro de Luhansk e muitas outras localidades. A guerra havia começado”.

“Por iniciativa do então presidente francês François Hollande e da chanceler alemã Angela Merkel, o processo da Normandia teve início com a participação do presidente russo Vladimir Putin e do então presidente ucraniano Petro Poroshenko, culminando na assinatura dos Acordos de Minsk em fevereiro de 2015. Gostaria de salientar que esses acordos foram endossados ​​pelo Conselho de Segurança da ONU.”

“Algum tempo depois (muito recentemente), após François Hollande e Angela Merkel deixarem o cargo, eles reconheceram, juntamente com o ex-presidente ucraniano Petro Poroshenko, que não tinham intenção de implementar esses acordos e que desconsideraram a resolução do Conselho de Segurança da ONU.”

“Queriam ganhar tempo para armar o regime nazista ucraniano. Sua natureza nazista é evidente, ainda que apenas pela série de leis aprovadas muito antes da operação militar especial, que proibiam o idioma russo em todos os lugares: na educação (em escolas e universidades), na cultura, em livros e na mídia. Uma lei que proibia a Igreja Ortodoxa Ucraniana canônica também foi aprovada.”

DIFERENÇA ENTRE IRÃ E UCRÂNIA

“Você perguntou qual a diferença entre a situação no Irã e na Ucrânia. A diferença é que a República Islâmica do Irã não violou nenhuma obrigação internacional, incluindo aquelas relativas ao programa nuclear iraniano.”

“Em 2015, o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) foi assinado. Ele foi endossado pelo Conselho de Segurança da ONU. O JCPOA foi destruído pelos Estados Unidos quando, em 2017, durante o primeiro mandato do presidente americano Donald Trump, eles se retiraram do plano, violando todas as suas obrigações.”

“O Irã não violou nada. A Ucrânia violou tudo o que poderia ser violado, juntamente com seus protetores ocidentais.”

“E quando propusemos, em dezembro de 2021, a conclusão de tratados com os Estados Unidos e a Otan sobre garantias de segurança que assegurariam um equilíbrio entre segurança e estabilidade, baseado em um equilíbrio de interesses entre a Rússia, a Ucrânia e o Ocidente, nos disseram que não era da nossa conta e que a Ucrânia permaneceria na Otan”.

“ATÉ ONDE VOCÊS ESTÃO DISPOSTOS A IR?”

O entrevistador insiste na tese da violação do direito internacional pela Rússia na Ucrânia. “Quais são os seus objetivos? Civis? Até onde vocês estão dispostos a ir para derrotar a Ucrânia?”

Lavrov retornou à complacência com o golpe de Kiev de 2014 de “nossos vizinhos franceses, alemães, poloneses e outros – que agora se recusam categoricamente a reconhecer que garantiram uma solução há 12 anos”.

“Um ano depois, em fevereiro de 2015, a Alemanha e a França também assinaram e endossaram no Conselho de Segurança da ONU o que chamaram de suas garantias sob os Acordos de Minsk, e depois admitiram que nunca tiveram a intenção de implementá-las.”

“Qualquer líder político normal na Europa não pode deixar de entender a traição que todas essas ações representaram.”

“Quanto aos objetivos que buscamos, eles foram declarados pelo presidente russo Vladimir Putin. Eles são determinados pelas causas que provocaram esta crise. Primeiro, nos prometeram, por muito tempo, em declarações políticas, que a Ucrânia não seria admitida na Aliança, que a Otan não seria ampliada. Depois, quando começaram a violar essas declarações e os acordos firmados no âmbito da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), nos disseram que esses eram compromissos políticos, não jurídicos. Isso significa que mentiram para nós quando assinaram as respectivas declarações políticas no mais alto nível da OSCE.”

IDIOMA RUSSO PROIBIDO PELOS NAZISTAS

“O segundo problema que nós e nossos compatriotas, os russos e falantes de russo na Ucrânia, enfrentamos é a completa eliminação de seus direitos sob silêncio absoluto daqueles ‘faróis’ de liberdade e democracia que são a França e os demais membros da UE.”

“Vocês conseguem imaginar um país proibindo um idioma, especialmente um idioma oficial da ONU, em absolutamente todas as esferas? Você pode ser processado administrativamente, até criminalmente, se usar o russo na Ucrânia.”

“Estávamos falando do Irã. Lá, o hebraico não é proibido. Em Israel, também, nenhum idioma é proibido: nem o árabe, nem nenhum outro. A Ucrânia, no entanto, é o único Estado onde essa prática é aplicada.”

AS “GARANTIAS” EUROPEIAS PARA KIEV

“Agora, dizem que o Ocidente está prometendo ‘garantias de segurança’ à Ucrânia”, destacou Lavrov, “incluindo o envio de “forças de estabilização”, o que, em última análise, constituiria pura ocupação.”

“Mesmo deixando de lado as formas concretas que essas garantias de segurança assumem, para quem elas servirão? Para um regime nazista”, sublinhou Lavrov.

“Nem a França, nem a Alemanha, nem ninguém no Ocidente está dizendo à Ucrânia: ‘Estamos ajudando vocês. Restaurem o idioma russo, conforme consagrado em sua Constituição, e parem de perseguir a Igreja Ortodoxa Ucraniana.’ Alguém disse isso?”

“É por isso que, quando vocês dizem que vão garantir a segurança de Vladimir Zelensky e sua junta, não se trata de liberdade, igualdade e fraternidade. É algo completamente diferente.”

NEGOCIAÇÕES VS ‘INFLIGIR DERROTA ESTRATÉGICA

“No que diz respeito às negociações, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou repetidamente que preferimos resolver a crise ucraniana, criada pelo Ocidente”, reiterou Lavrov. “O presidente francês, Emmanuel Macron, o chanceler alemão, Olaf Scholz, e o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, declararam que o Ocidente pretende ‘infligir uma derrota estratégica à Rússia’; ‘nem um passo atrás’”, ele acrescentou.

“Todas as recentes reuniões da Otan e da UE terminam com a confirmação do apoio incondicional ao regime de Vladimir Zelensky e, como já disse, com a promessa de garantias de segurança a este regime, assim que a atual guerra, lançada contra nós pelo Ocidente através destes nazis, terminar”, disse o chefe da diplomacia russa.

Por sua vez, as negociações “prosseguiram principalmente com base nos resultados da cúpula entre os presidentes Vladimir Putin e Donald Trump no Alasca, em agosto de 2025. Uma cúpula para a qual não fomos convidados”.

HISTERIA DE GUERRA NA EUROPA

Lavrov também se deteve sobre os preparativos militares em curso na Europa, inclusive “a nova iniciativa de resposta estratégica, propondo o arsenal nuclear francês como um guarda-chuva nuclear e declarando a sua intenção de reforçar as capacidades nucleares do país”.

Os partidos da oposição em França e na Alemanha – ele acrescentou – “estão expressando cada vez mais a sua preocupação de que isto termine mal”.

“É a Europa, e não o Ocidente, que quer manter o regime nazista na Ucrânia em nossas fronteiras. Como podemos aceitar tal declaração do secretário-geral da Otan, Mark Rutte, de que a Ucrânia pertence à Otan? O bom senso dita isso? E quando nem o presidente francês Emmanuel Macron, nem o chanceler alemão Friedrich Merz, nem ninguém se opõe às declarações de Mark Rutte, o que devemos pensar?”

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *