Choque entre trens também deixou mais de uma centena de feridos. O Sindicato Espanhol de Maquinistas e Ajudantes Ferroviários alertava para a falta de manutenção após a privatização. 32 estão desaparecidos
Um acidente ferroviário no município de Adamuz, em Córdoba, na Espanha, deixou 42 pessoas mortas, 32 desaparecidas e mais de uma centena feridas – várias em estado grave – após um trem da privatizada Iryo que viajava de Málaga para Madri perder o controle, descarrilhar, e bater de frente em um comboio da Alvia que vinha na via contrária.
Até o momento o foco das denúncias está concentrado na falta de investimentos em manutenção e segurança após a privatização, com as investigações iniciais apontando para falha na soldagem dos trilhos.
O Sindicato Espanhol de Maquinistas e Ajudantes Ferroviários (Semaf) é uma das entidades que vinha alertando sobre a falta de manutenção preventiva adequada, com apenas um trem de monitoramento para verificar os trilhos em toda a Espanha e sérios problemas na obtenção de peças de reposição devido a orçamentos insuficientes. “Não houve investimentos em sua manutenção e modernização”, declarou Rafael Escudero, porta-voz do sindicato, referindo-se aos trens e trilhos.
Irmã de um dos garçons do trem Alvia, María del Mar Falón, disse que ele e seus colegas declararam inúmeras vezes sua preocupação com o estado dos trilhos e a forma como os trens circulavam. “Meu irmão chegou e disse: ‘Como o trem partiu hoje, fiquei até com medo. Estamos completamente desamparados”, contou.
PROPAGANDA E REALIDADE
Conforme a propaganda da Iryo (italiana) e Oigo (francesa), novas operadoras privadas de trens de alta velocidade da Espanha – concorrentes da estatal Renfe (Red Nacional de los Ferrocarriles Españoles) – as transnacionais oferecem “uma rede moderna e confortável” que atinge até 300 km/h, com diferenciais como WiFi 5G e opções de gastronomia, se “destacando pelo conforto e qualidade do serviço”. Pois foi justamente um trem da Iryo que saiu dos eixos provocando a tragédia.
Infelizmente, a privatização e liberalização dos trens na Espanha não foi um evento único, mas um processo acelerado em 2021 quando a União Europeia obrigou a “abertura” do mercado, dando carta branca às transnacionais contra a estatal.
“Estamos apreensivos com as causas do acidente”, apontou o sociólogo David Moscoso, frisando que emboja seja cedo para determinar o que poderia ter acontecido para descarrilhar os últimos três vagões do trem Iryo, há anos vários rumores vinham alimentando a preocupação entre os trabalhadores ferroviários.
Ainda com os números incompletos, que iam aumentando durante a noite, o sociólogo alertava “sobre as primeiras vítimas da privatização ferroviária na Espanha”. “Não há palavras para aliviar as vítimas e seus familiares, só podemos mostrar a nossa solidariedade e empatia”, assinalou.
“Sou neto, filho, sobrinho e primo de um ferroviário, pertenço a uma daquelas famílias históricas dos chamados ferroviários do nosso país, em cujas casas falamos de trabalho e, portanto, de problemas ferroviários”, recordou Moscoso, conclamando a população a que reflita sobre o ocorrido.
“DESASTRE ABSOLUTO PARA A INFRAESTRUTURA“
“Durante anos, desde que o último governo do Partido Popular sob a presidência de Mariano Rajoy privatizou parte do serviço público ferroviário, com as empresas Iryo e Ouigo na linha de alta velocidade, os trabalhadores da Renfe e da Administradora de Infraestruturas Ferroviárias (ADIF) têm falado com preocupação sobre algumas das suas consequências”. Por exemplo, “é dito que Ouigo representa um desastre absoluto para a infraestrutura de alta velocidade espanhola, porque é um comboio muito mais pesado devido à sua dupla altura, e isso está causando desestabilização das vias”.
Moscoso recordou que “esta privatização também é responsabilizada pelos atrasos permanentes dos trens AVE, porque é priorizada a passagem de concessionárias privadas”. “Ou alguém se lembra de tantos atrasos neste serviço antes da privatização? E também podemos nos perguntar se os controles de qualidade e a inspeção de manutenção das empresas privadas cumprem os mesmos padrões e exigências que os da pública ADIF”, questionou.
“Este é o primeiro acidente ferroviário de alta velocidade na história de Espanha envolvendo uma concessionária privada e devemos evitar a todo custo que ocorram mais”, concluiu Moscoso.











