“Direção dos Correios quer humilhar a categoria”, denuncia Diviza

Elias Diviza, presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios de São Paulo. Foto: Divulgação

Em entrevista exclusiva para a Hora do Povo, Elias Diviza, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nos Correios SP (SINTECT/SP), declarou que a postura da direção dos Correios nas negociações salariais “tem sido um esculacho com a categoria”.

Para o presidente, esta postura de tirar direitos já adquiridos (inclusive de não repor a inflação) tem irritado os trabalhadores e provocou a recente greve. Qualificou de “mais que intransigência” a insistência em apelar ao STF contra o acordo já celebrado com o TST (Tribunal Superior do Trabalho). “Vamos recorrer e esperamos também sensibilizar o STF”, afirmou.

Diviza é carteiro da Casa Verde (periferia de São Paulo) e um dos mais destacados dirigentes sindicais da nova safra. Segundo ele, a direção da empresa quer jogar nas costas dos trabalhadores a responsabilidade pelas dificuldades por que passam os Correios.

“Não investiram nada em tecnologia, num setor que passa por fortes transformações e que sofre com a concorrência desleal dos cartéis privados que não respeitam nem as leis trabalhistas do país”, disse.

Para o líder sindical “os Correios são estratégicos para a integração nacional e no conhecimento geográfico e social do Brasil”.

Leia, a seguir, a esclarecedora entrevista:

HP – O que o sindicato vai fazer diante da decisão do STF (Superior Tribunal Federal) de suspender parte do acordo decidido pelo TST( Tribunal Superior do Trabalho)? Quais os itens do acordo que foram suspensos?

Diviza – A principal responsável, ou irresponsável, foi a direção da empresa, que recorreu ao STF, após fechado o acordo com base na decisão do TST. Quis humilhar os trabalhadores. Não foi apenas uma intransigência, o que para a direção de uma estatal já seria grave, foi um esculacho. Ficou um clima muito ruim. Uma indignação generalizada. Isso fica guardado no peito.

O STF atendeu ao pedido dos Correios e suspendeu o ticket alimentação/refeição extra, chamado de ‘vale peru’, o plano de saúde, o adicional de 200% para trabalho em dia de repouso e a gratificação de férias de 70%. O sindicato está fazendo uma campanha ampla no Congresso Nacional e na sociedade de denúncia da mesquinharia da direção da empresa. Vamos recorrer da decisão. Como sensibilizamos o TST, estamos confiantes de sensibilizar o STF. Querer jogar nas costas do trabalhador as dificuldades por que passam os Correios é muita covardia.

HP- A greve atrapalha a reestruturação da empresa?

É claro que atrapalha. Por isso, nós lutamos durante meses, o tempo todo, para que chegássemos a um acordo na mesa de negociação. A postura da direção da empresa, que se recusava até mesmo a repor a inflação, de agosto para cá, irritou a categoria e provocou a greve.

HP – Antes dava lucro, agora dá prejuízo de seis bilhões. Isso é inevitável?

Diviza – Durante muitos anos deu lucro. Tanto lucro que o governo Dilma transferiu seis bilhões de reais para o superávit primário. O governo de Bolsonaro diz que deixou 3 bilhões em caixa, só não diz que foi dilapidando a estrutura da empresa, não honrando compromissos com os trabalhadores.

Praticamente não houve nenhum investimento em novas tecnologias num setor que está em profunda transformação. Os Correios concorrem com cartéis privados internacionais, mastodônticos, que promovem dumping, atropelam a legislação trabalhista.

O Brasil está escancarando as portas para esta informalidade. Trabalha-se 14 horas, sem nenhum direito, sem nenhuma regulamentação quanto à remuneração, a Previdência, etc.

Onde é exigido o cumprimento das leis do país, eles não chegam nem perto. Como, por exemplo, o Uruguai.

HP – Por que vocês defendem que os Correios são estratégicos para o país?

Diviza – Ninguém conhece geográfica ou socialmente o Brasil como os trabalhadores dos Correios. Desde a periferia de São Paulo até o sertão nordestino, a floresta amazônica e o cerrado. Numa emergência, como numa guerra, é aos Correios a quem se pode apelar. Nem mesmos os militares detêm este conhecimento.

Os Correios são o principal fator de integração nacional. Chega aonde ninguém mais chega. Isso tem um custo. É investimento, o cartel das entregas quer ficar só com os grandes centros que dão lucro. 

CARLOS PEREIRA

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