Para Sylvia dos Anjos, maior obstáculo na Margem Equatorial é o licenciamento ambiental
A diretora de Exploração e Produção da Petrobrás, Sylvia dos Anjos, aponta, em entrevista ao jornal O Globo (20/2), as dificuldades de licenciamento ambiental para exploração de petróleo na Margem Equatorial, “no poço mais famoso do mundo”.
“Nosso questionamento é que não podemos definir uma licença ou não para a questão de ‘eu não quero mais óleo’. A exigência do Ibama visa garantir a segurança, e as provas são amplas. Então essa preocupação com a Margem é algo que não é pela técnica”, afirma dos Anjos.
“Nosso maior desafio no Brasil continua sendo o licenciamento porque a gente tem muita área aqui para trabalhar. O país tem que decidir. O acordo de Paris é muito claro. Ele diz que você precisa reduzir as emissões. Não diz que você tem que parar de explorar o petróleo. Já reduzimos mais de 40% das emissões”, afirmou.
De acordo com Sylvia, a Petrobrás já investiu R$ 1,4 bilhão no bloco na Margem Equatorial no Amapá e ficou por meses com sondas paradas aguardando o licenciamento do Ibama.
“Quem gastaria R$ 1,4 bilhão para ter uma licença?”, pondera a diretora. Só a sonda de perfuração (NS-42 ou ODN II) para a Margem Equatorial permaneceu parada desde meados de agosto de 2025.
“Se tiver óleo, nosso modelo está certo. Se não, a gente tem que ajustar o modelo. Temos mapeados cinco plays (áreas) possíveis. Se não tivesse tido tanta dificuldade na licença, essa sonda ficaria cativa ali. Mas a gente perdeu o prazo, então não vai conseguir continuar com a sonda. Qualquer outra sonda, tenho que ter licença. Então é mais um gargalo”, ressaltou a diretora da Petrobrás.
“Desde o início, quando compramos o bloco. A gente já mandou duas sondas que ficaram paradas lá meses, uma sonda custa US$ 500 mil por dia. Decidimos atender de modo que a gente possa ter a licença. Fizemos muito investimento. O DNA de Petrobrás é avaliar o potencial brasileiro. Nenhuma empresa fez isso”, disse.
A posição sobre o licenciamento na Margem Equatorial, conforme a diretora da estatal, encontra-se na seguinte situação:
“O pedido de licença foi de um, mais três poços. Só veio um, e a gente está agora querendo os outros três poços contingentes”, disse. “A rigor, a licença deveria vir junto, mas é um ajuste pequeno na redação para sair a licença dos três poços”.
Dos Anjos afirma que “há uma tentativa de eliminar a produção de petróleo. Mas isso é ledo engano, porque se para de produzir, vai importar. Minha preocupação é que ninguém faz exploração com um poço, tem que ter vários poços”.
Também na Bacia de Pelotas, uma nova fronteira de petróleo, ocorrem as mesmas dificuldades.
“Já foram feitas sísmicas em duas áreas. A licença está sendo difícil. Está demorando bastante. A exploração não começa esse ano. Ficamos em uma negociação infindável para coisas que não precisaria”, declara a diretora.
“Temos que tratar nossos campos como se fosse a menina dos olhos porque não tem outra área igual ao pré-sal no mundo. E tudo que a gente está procurando no Brasil fora do pré-sal, não se compara ao pré-sal. A Margem Equatorial não se compara ao pré-sal, ela se compara à Bacia de Campos, se Deus quiser”, enfatizou. A 500 km da Foz do rio Amazonas, é “o poço mais famoso do mundo”, ressalta a diretora da estatal.
FLUIDO BIODEGRADÁVEL
Sobre o recente vazamento no poço na Margem Equatorial no Amapá, em 4 de janeiro último, que levou à paralisação da operação da Petrobrás, por exigência do Ibama, Sylvia dos Anjos esclarece:
“A operação já foi retomada. A previsão era chegar nos 7 mil metros de profundidade entre fevereiro e março, mas a gente deve atrasar mais um mês. Quando descobrimos o pré-sal, o primeiro poço foi muito difícil, porque tínhamos muitas dificuldades técnicas e durou mais de um ano. Aqui foi uma intercorrência devido à fama desse poço. O poço mais famoso do mundo”.
“Quando a gente faz perfuração, precisa de pressão para a rocha subir. E às vezes não é suficiente. Esses tubos (conexões) jogam o fluido no BOP (blow out preventer, equipamento de segurança) que ajuda a aumentar a pressão para as rochas subirem”.
“Uma dessas 124 conexões estava com vazamento. Foi verificada outra conexão em profundidade diferente com vazamento. A investigação chegou à conclusão de que a conexão estava com folga. Coisas como essas acontecem. E investimos muito para esse fluido ser biodegradável”, completou.
“Se isso ocorresse na Bacia de Campos ou Santos, a gente avisava e arrumava. Mas a Margem está com todo esse clamor. Se fosse em outras áreas não seria um problema e seguiríamos a operação”.











