Eleições no Japão: fascistas voltam a pôr as mangas de fora

Admiradora de Thatcher e aliada de Trump, Sanae Takaichi, quer Japão de volta ao regime fascista e invasor derrotado nos idos da 2ª Guerra (Kazuhiro Nogi-AFP)

Sequer havia sido proclamado o resultado das eleições antecipadas deste domingo (8) e a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi já afirmava em entrevista estar “trabalhando arduamente para criar um ambiente onde as pessoas possam visitar o Santuário Yasukuni… obteremos a compreensão necessária de nossos aliados e vizinhos.”

O “Santuário Yasukuni” é o local em que estão enterrados os criminosos de guerra classificados ‘classe A’ ,japoneses, da II Guerra Mundial e que foram julgados e executados – os responsáveis desde o estupro de 300 mil civis em Nanquim até a ocupação da China e outros países asiáticos, pilhagem a rodo, massacres, trabalho forçado em massa, sujeição de mulheres e meninas à escravidão sexual e, ainda, os tétricos experimentos em seres humanos da agência 731.

O que é visto por Takaichi, que é da ala mais de extrema-direita do Partido Liberal Democrático, como parte da “normalização” do Japão, visando a revisão da Constituição para permitir o retorno do militarismo e inclusive a revogação dos “três princípios”: não possuir, não produzir e não permitir a entrada de armas nucleares.

E, quando for possível, derrubar o pilar da Constituição pacifista, que lhe foi imposta após a rendição, em que o Japão renuncia ao direito de entrar em guerra ou recorrer à força militar para isso.

Ou, como diz demagogicamente, “aumentar a capacidade de defesa”- com o orçamento militar para 2026 projetado em cerca de ¥ 8,8 trilhões (cerca de US$ 60 bilhões) – o maior de sua história e um aumento de 4-5% em relação a 2025. O objetivo é atingir 2% do PIB até 2027.

Segundo um arguto analista no portal chinês Guancha, “a camarilha militarista japonesa está em êxtase, os Estados Unidos estão presunçosos”. Dias antes da eleição, Trump dera seu “apoio total” a Takaichi, escrevendo em uma postagem no Truth Social que ela “já provou ser uma líder forte, poderosa e sábia, e que realmente ama seu país”. Ele prometeu receber Takaichi em Washington em março. Após o resultado de domingo, Trump a parabenizou e desejou muito sucesso na implementação de sua “agenda conservadora e paz baseada na força”.

“AMNÉSIA HISTÓRICA”

Diante da desfaçatez de Takaichi, a China a advertiu a “não repetir a história”, enfatizando que “amnésia histórica significa traição”.

“Este ano marca o 80º aniversário do início dos Julgamentos de Tóquio. Ao celebrarmos este aniversário, o Japão deve, em particular, encarar e refletir sobre seu histórico de agressão, agir com prudência em palavras e ações em questões históricas importantes como o Santuário Yasukuni, não repetir a história e romper completamente com o militarismo por meio de ações concretas”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian.

Como é amplamente sabido, 35 milhões de chineses foram mortos na resistência à ocupação japonesa, que começou na Manchúria em 1931 e se transformou em guerra total na China em 1937, dois anos antes da II Guerra começar oficialmente na Europa.

Em novembro, Takaichi dirigira à China a provocação de que Tóquio interviria militarmente caso Pequim “invadisse” a ilha de Taiwan, sob a alegação de que seria uma “ameaça existencial ao Japão”. Depois, instada por Pequim a se desculpar pela ameaça e interferência nos assuntos internos chineses, Takaichi se negou, recusa que mantém.

Na ocasião, a China lembrou Tóquio de que Taiwan é um assunto interno chinês e citou os documentos da II Guerra Mundial em que isso está plenamente estabelecido, como a Declaração do Cairo, a Proclamação de Potsdam e o Instrumento de Rendição do Japão, bem como o reconhecimento, pelo Japão, do Princípio de Uma Só China. Taiwan esteve sob ocupação japonesa desde o final do século XIX, até sua expulsão em 1945.

Ali a China também denunciou que a provocação de Takaichi demonstra “um claro esquecimento das atrocidades cometidas pelo militarismo japonês, uma séria falta de respeito pela história da Guerra Antifascista e um desafio aberto à autoridade da ONU e à ordem internacional do pós-guerra”.

Documentos chineses também têm advertido que, embora deseje a reunificação pacífica de Taiwan, a China não abre mão de seu direito soberano ao uso da força, alertando ainda que “a China de hoje não é a China de um século atrás e os EUA de hoje não são os EUA de há 20 anos”.

EX-BATERISTA E MACACA DE AUDITÓRIO DE THATCHER

Sob o resultado das eleições deste domingo (8), o PLD, que vinha de duas derrotas consecutivas por causa da corrupção e da alta dos preços dos alimentos, deu a volta por cima e conquistou maioria de dois terços, condição para uma alteração da Constituição, obtendo 351 de 465 cadeiras, junto com o partido coligado, o da Inovação. O maior partido de oposição, a Aliança Reformista Centrista, recém formado a partir da junção do Partido Democrático Constitucional e do Komeito, de 167 mandatos que detinha só restaram 49. O comparecimento às urnas foi de quase 56%.

Com esse resultado, o PLD passa a ter a capacidade de anular vetos do Senado e a controlar todas as comissões da Dieta. Mas persistem os entraves a mudanças na Constituição, já que o PLD não controla o Senado, que só terá eleição em 2028. E, para mudar a Constituição, é preciso também de 2/3 do Senado. Mas, para dar o pontapé inicial, já é suficiente.

No desempenho de Takaichi, há muito de encenação. Ex-baterista de uma banda na juventude e admiradora de Margareth Thatcher, segundo a mídia japonesa ela conquistou o público e inclusive a geração Z pelo seu “carisma, habilidade nas redes sociais e forte ética de trabalho”. O que incluiu uma sessão improvisada de bateria ao som de sucessos do K-pop com o presidente sul-coreano Lee Jae-myung, então em visita a Tóquio.

Como primeira premiê mulher, num país de políticos homens, mais velhos e corruptos, Takaichi também tirou uma onda de “renovação”. “Entre os jovens japoneses, Takaichi chegou a provocar uma ‘febre Sanae’, com suas bolsas e canetas cor-de-rosa se tornando extremamente populares”, registrou a Reuters.

“POLÍTICA FISCAL EXPANSIVA”

Naturalmente, o rearmamento e a fascistização não foram colocados no centro da argumentação de Takaichi, mas sim sua “política fiscal expansiva”: um pacote de 21 trilhões de ienes e suspensão, por dois anos, do imposto sobre consumo de alimentos, de 8%, medida que visa aliviar a carestia – o preço do arroz dobrou em 2025. Em setembro do ano passado, fazia nove meses consecutivos que os salários reais estavam em queda, segundo o Asia Times.

Em entrevista à rede de televisão estatal NHK, Takaichi agradeceu aos eleitores que “enfrentaram o frio e caminharam pelas ruas nevadas para votar”. “Eu queria que os eleitores me dessem um mandato porque defendi uma política fiscal responsável e proativa que mudaria significativamente a política econômica e fiscal”, asseverou.

De acordo com a mídia, os “mercados” questionam se vai funcionar ao mesmo tempo cortar impostos e expandir os gastos militares e os gastos públicos em geral, como ela promete. A desvalorização do iene barateia as exportações mas ao mesmo tempo torna as importações – como energia – mais caras internamente. No ano passado, o PIB mal chegou à média dos últimos 30 anos, crescimento de 1%. Em 2024, quase nulo; 0,10%. Em 2023, 1,1%.

Outra grande interrogação é o que o país vai fazer após ter mantido seus bancos falidos à tona por três décadas basicamente com juros reais negativos e com os bancos faturando com o carry trade, em que um empréstimo inicialmente em ienes e juros negativos dá seqüência a um empréstimo em outra moeda no Sul Global, com o especulador faturando a diferença entre o juro na estratosfera e o juro japonês.

No ano passado, o agravamento da crise e alta de preços forçou o BOJ a, pela primeira vez em décadas, estabelecer uma taxa microscopicamente positiva, mas o suficiente para ameaçar o sistema de carry trade, o que repercutiu mundo afora. Além disso, em comparação com o PIB é a maior dívida do planeta, mais de 250%, embora ainda tenha o respiro de ser basicamente em moeda nacional japonesa.

Takaichi também embarcou na xenofobia, com discurso anti-imigração, num dos países de maior crise demográfica do planeta, e deverá encaminhar apertos contra estrangeiros. Apesar de os imigrantes representarem apenas 2% da população, uma das taxas mais baixas entre as economias avançadas.

Há outros desafios, como os US$ 550 bilhões na dita reindustrialização dos EUA, conforme o acordo de redução do tarifaço que seu antecessor assinou com Trump. A tarifa sobre os automóveis segue em 25%.

SOB OCUPAÇÃO

E, essencialmente, o Japão continua sendo um país ocupado, com 54.000 soldados norte-americanos e uma infinidade de bases, apesar de Takaichi se apresentar como a líder que “restaurará o orgulho do Japão”, livre das “restrições do pós-guerra”.

E onde, pelo menos enquanto houver algum Hibakusha (vítima das bombas nucleares) sobrevivente, haverá uma forte oposição às armas nucleares, mesmo que ninguém diga, em voz alta, quem as lançou sobre Hiroshima e Nagasaki.

Como observou o analista francês André Benoit, “o Japão que ela lidera é menos independente do que nunca. Sua segurança é subscrita pelos Estados Unidos, sua economia amarrada a Washington e Pequim, sua demografia corroendo a própria base de autossuficiência que celebra.”

Dimensionando: em 2024, o comércio entre o Japão e a China totalizou cerca de US$ 292,6 bilhões, cerca de um quinto de todo o volume do Japão. A China continua sendo o maior parceiro comercial do Japão, respondendo por 17,6% das exportações e 22,5% das importações. Os Estados Unidos, por sua vez, são o maior destino de exportação do Japão e um de seus principais fornecedores de importação.

ZERO VEZES

Já quanto à encenação sobre a “ameaça chinesa”, é como diz o respeitado economista e conselheiro da ONU, Jeffrey Sachs: “Os EUA agem como se o Japão precisasse ser defendido contra a China. Vamos dar uma olhada. Durante os últimos 1.000 anos, quantas vezes a China tentou invadir o Japão? Se você respondeu zero, você está correto.”

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