Governador tenta jogar responsabilidade no ex-presidente do banco, afastado pela operação Compliance Zero. Oposição pede impeachment
O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, liquidado pelo Banco Central (BC) após inúmeras transações fraudulentas, em depoimento à Polícia Federal (PF), confirmou tratativas realizadas com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a proposta de venda do seu banco para o Banco Regional de Brasília (BRB).
A imprensa que teve acesso à transcrição do depoimento dado no final de 2025 à delegada da PF, responsável pelo caso que investiga fraudes ligadas ao Master, informa que o dono do Master afirmou que teve encontros institucionais com Ibaneis entre janeiro de 2024 e 2025.
Vorcaro relatou que os encontros ocorreram em sua casa e na casa do governador, em Brasília, nos quais conversaram “algumas vezes” sobre a venda do Master ao BRB.
O banqueiro não chegou a dar detalhes sobre as conversas que teve com Ibaneis a respeito da operação financeira.
Ibaneis chegou a confirmar o encontro em um jantar em Brasília no qual se encontrava Vorcaro, mas negou que o assunto tenha sido tratado. Conversaram sobre amenidades, tergiversou o governador, quando estava correndo à solta a negociata que se tornaria a gota d´água da liquidação do banco pelo BC.
“Em momento algum nas quatro vezes que o encontrei tratei de assuntos relacionados ao BRB/Master. Entrei mudo e saí calado. O único erro meu foi ter confiado demais no Paulo Henrique [Costa]”, disse Ibaneis Rocha, jogando, como é de seu feitio, a responsabilidade nos ombros do ex-presidente do BRB.
Pouco crível que uma operação bilionária como a que estava em curso, quando o banco público já teria aportado bilhões na aquisição de títulos do Master, fosse tratada no nível técnico da instituição, sem envolvimento direto do governador e do governo distrital, acionista controlador do banco.
Nunca é demais lembrar que a liquidação extrajudicial do Master ocorreu após fortes suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito para o BRB, entre 2024 e 2025, no valor de R$ 16,7 bilhões, cifra que revela não apenas o tamanho do rombo, mas, principalmente, da mais nova encrenca política em que se meteu Ibaneis, querendo, agora, convencer aos incautos de que tudo aconteceu por “excesso de confiança” ao subordinado, afastado do cargo após a PF deflagrar a Operação Compliance Zero, sem nenhum envolvimento dele em um negócio dessa magnitude.
O fato é que a tenebrosa transação entre o Master e o BRB, hoje, é a maior imbróglio político para Ibaneis, talvez, maior do que aquele que o afastou do governo por, no mínimo, ter sido – ele e suas forças de segurança pública – conivente com o movimento golpista que culminou no trágico 8 de janeiro de 2023.
O BC, depois de barrar o negócio, já fez as contas e informou que, para que o BRB volte a operar normalmente, são necessários aportes que podem variar de R$ 2 a R$ 3 bilhões
De onde sairá esse dinheiro, Ibaneis ainda não esclareceu, bastando-se em afirmar que o banco tem liquidez e que o governo do DF dispõe de condições, entre as quais, muitos imóveis, para resolver a situação.
OUTRAS REVELAÇÕES DO DEPOIMENTO
O dono do Master relatou também que o banco tinha problemas de liquidez e usava o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como modelo de negócio. No entanto, ele afirmou que relatório do Banco Central indica que isso ocorreu por mudança de regulação e por conta do mercado.
Segundo a transcrição do depoimento, Vorcaro também apontou que a cessão de ativos tinha se tornado a principal captação do banco até o anúncio de que o Master seria comprado pelo BRB. Segundo ele, depois do anúncio as fontes de captação foram fechadas por completo.
O FGC é uma associação privada, sem fins lucrativos, que integra o Sistema Financeiro Nacional e atua na manutenção da estabilidade do sistema, na prevenção de crises bancárias e na proteção de depositantes e investidores.
Na prática, funciona como um fundo privado que atua como um seguro. É ele quem garante que os recursos depositados ou investidos em um banco permaneçam protegidos caso a instituição financeira enfrente alguma crise ou dificuldade.
Desde o dia 19, o FGC ressarce em até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ os correntistas e investidores que tinham recursos no Master. Cerca de 600 mil credores do Master já fizeram o pedido até a noite de segunda-feira (19).
OPOSIÇÃO PEDE IMPEACHMENT
A oposição ao governador Ibaneis Rocha (MDB-DF), do Distrito Federal, pediu nesta sexta (23) seu impeachment após ter sido citado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em depoimento à PF.
O pedido, de autoria de parlamentares do PSB, Cidadania e Psol, tem como base as investigações que envolvem a transação apontada como fraudulenta da instituição privada com o BRB, revelada no ano passado pela operação Compliance Zero da PF.
Segundo apuração do Estadão, Vorcaro teria afirmado à Polícia Federal que tratou diretamente com o governador a venda do Master ao BRB, e que Ibaneis esteve pessoalmente em sua casa. Segundo apurações, ele foi o primeiro político mencionado pelo empresário nas investigações que tramitam no Supremo Tribunal Federal.











