Estrella: Sem refinarias e BR Distribuidora nas mãos do Estado, Brasil não terá soberania energética

Guilherme Estrella, geólogo e ex-diretor da Petrobrás (Foto: Reprodução - Youtube)

Ex-diretor da Petrobrás, Guilheme Estrella, disse em entrevista à Hora do Povo que a guerra no Oriente Médio mostra “tempo perdido desde o pré-sal na construção de um projeto nacional”. E alerta: “Não existe país no mundo que funcione com juros de 14,75% ao ano”

Guilherme Estrella, geógrafo, ex-diretor de exploração e produção da Petrobrás, que descobriu as grandes reservas do pré-sal brasileiro, em entrevista à Hora do Povo, afirmou que a guerra no Oriente Médio traz à tona uma realidade que muitos estavam ignorando: “energia no mundo ainda é o petróleo, de 70% a 30% para o petróleo, e que “descobrimos o pré-sal, em 2006, com uma característica absolutamente extraordinária: os campos do pré-sal produzem uma grande quantidade de gás, e esse gás é rico em matéria-prima para fertilizantes nitrogenados, como amônia e uréia”.

Segundo Estrella “a soberania energética de qualquer país é assunto de soberania nacional”. Para o ‘pai do pré-sal’, “consumimos um volume de energia muito baixo. Isso é uma discrepância, porque o consumo de energia, no final das contas, reflete o bem-estar social”. Considera que “logo após a descoberta do pré-sal, já deveríamos ter estruturado um projeto nacional para produção de energia e aproveitamento do gás para fertilizantes”.

Estrella avalia “que não existe país no mundo que funcione com juros de 14,75% ao ano. Nós pagamos, em 2025, cerca de 1,3 trilhão de reais só de juros da dívida. Isso retira recursos que poderiam ser investidos em universidades, infraestrutura, energia”

Segundo Estrella, nesta eleição “o eleitor precisa entender que está escolhendo um projeto de país”.

Leia, a seguir, a entrevista na íntegra:

HP: O Brasil tem um déficit de cerca de 30% no óleo diesel e importa 90% dos fertilizantes. Dá para ter autossuficiência com brevidade?

Estrella: Você citou óleo diesel e fertilizantes — que são, de fato, dois dos maiores buracos que nós temos nessa conjuntura de guerra. E, quando falamos de setor petrolífero, estamos falando de energia. Isso é importante porque, mais do que segurança, a soberania energética de qualquer país é assunto de soberania nacional.

Isso tem um significado enorme para o Brasil. Somos uma das dez maiores economias do mundo, um dos maiores produtores de alimentos, e, ainda assim, consumimos um volume de energia muito baixo. Isso é uma discrepância, porque o consumo de energia, no final das contas, reflete o bem-estar social. E ele não está correspondendo às nossas potencialidades nem à nossa produção.

Energia e fertilizantes, num país como o Brasil, são assuntos estratégicos. Você precisa ter uma visão estratégica voltada para os interesses nacionais.

HP: Quanto à autonomia especificamente de fertilizantes?

Estrella: No caso do Brasil, por exemplo, ainda importamos diesel porque não investimos o suficiente em refinarias. Descobrimos o pré-sal em 2006, com uma característica absolutamente extraordinária: os campos do pré-sal produzem uma grande quantidade de gás, e esse gás é rico em matéria-prima para fertilizantes nitrogenados, como amônia e uréia.

Ou seja, do ponto de vista estratégico, logo após a descoberta do pré-sal, já deveríamos ter montado um projeto nacional para produção de energia do pré-sal e produção associada do gás do pré-sal, para enfrentarmos essas necessidades nacionais nos próximos anos e aproveitamento do gás para fertilizantes.

Naquela época, com as leis vigentes, o governo tinha domínio sobre suas estatais — principalmente Petrobrás e Eletrobrás. A Petrobrás já tinha experiência na área de fertilizantes, inclusive com a Petromisa, que produzia potássio em Sergipe. A jazida praticamente se esgotou, mas o gás do pré-sal veio como uma nova oportunidade para fertilizantes.

HP: E porque não se aproveitou a oportunidade?

Estrella: Só que isso precisava estar dentro de um projeto nacional. E havia condições para isso, porque o Estado tinha controle sobre as estatais.

Eu fui durante nove anos diretor da Petrobrás. A gente fazia investimento contínuo na área de refino. Nós sabíamos que todo o sistema de refino brasileiro foi preparado, foi construído — a maioria das nossas refinarias — com projetos de engenharia para produzir, para refinar petróleos internacionais.

Nós éramos importadores da maioria do volume de petróleo. Era diferente do petróleo extraído da Bacia de Campos e muito diferente do petróleo do pré-sal. Então, a gente investia pesadamente para adaptar as nossas refinarias a esses dois tipos de petróleo, que eram, repito, diferentes dos projetos originais de 10, 15 anos antes, que eram para refinar petróleo importado.

Nós sempre precisamos importar uma parte dos combustíveis consumidos no Brasil. Mas, naquela época, essa importação era pequena: ficava entre 5% e 10% da nossa necessidade total. O restante era produzido aqui mesmo. E a Petrobrás, usando suas próprias refinarias e sua própria distribuidora, a BR Distribuidora, conseguia distribuir para o país inteiro com os menores preços possíveis. Claro, a empresa ainda dava lucro, mas não era o lucro máximo. O objetivo principal era garantir que o brasileiro pagasse um preço justo, e não o preço internacional cheio.

HP: Mas hoje não tem nada disso…

Estrella: Com as mudanças a partir de 2016, isso foi alterado. Houve privatizações e mudanças na gestão das estatais, retirando do governo o controle direto. Então, com o golpe de 16, com a destituição da presidenta Dilma, o governo Temer veio e, por causa disso, todos nós sabemos, veio com a “Ponte para o Futuro”, que é a privatização das empresas estatais brasileira. A Petrobrás foi transformada num ativo dos fundos financeiros transnacionais, visando só o lucro. Vendeu campos de petróleo. Inclusive no pré-sal.

Isso quebrou a capacidade de planejamento de longo prazo. A Petrobrás foi transformada em uma empresa orientada ao lucro máximo, distribuindo enormes volumes de dividendos e reduzindo investimentos. Então, hoje temos uma situação de fragilidade tanto em energia quanto em fertilizantes.

HP: Feriu a soberania nacional?

Estrella: Nós não somos um país soberano. Por quê? Durante os dois anos do Temer e depois os quatro anos do Bolsonaro, toda essa parte de produção de energia e de fertilizantes foi privatizada. E, quando você privatiza, é o lucro máximo sempre, claro.

HP: E a partir de 2022?

Estrela: Nós vencemos as eleições de 2022. Nas eleições presidenciais de 2022, o povo brasileiro decidiu entre dois modelos de Brasil. Os dois modelos que foram apresentados eram aquele que já durava seis anos e um que era anterior a isso. Eles não eram conflituosos entre si. Eles eram excludentes entre si. Não há conjunto, interseção entre um e outro. Mas perdemos isso (essa oportunidade).

Ou é um, com o Estado brasileiro no comando do setor energético e, no caso, especialmente do pré-sal e também de boa parte da produção de fertilizantes. Ou é outro: Estar na mão de empresas particulares. Pior do que isso: a Petrobrás deixou de investir. Não só vendeu os campos. A Petrobrás, em meia dúzia de anos, distribuiu mais de 100 bilhões de dólares de lucro aos seus acionistas

HP: E agora, com essa guerra no Oriente Médio, não se abre uma janela de oportunidades?

Estrella: Ela traz à tona uma realidade que muitos estavam ignorando: energia no mundo ainda é petróleo, meu amigo. A matriz energética mundial ainda é 70-30 para o petróleo.

Por que Gaza foi invadida e anexada ao território israelense? Porque foram identificados, no Mediterrâneo, em águas fronteira de Gaza, grandes volumes de gás. Essa foi a razão de terem invadido e anexado Gaza ao seu território.

São mais de 100 navios presos no Golfo Pérsico que não estão passando pelo Estreito de Ormuz. A Europa está em frangalhos. E é interessante lembrar da Europa, porque com a guerra russo-ucraniana, eles explodiram os gasodutos russos para a Europa, os Nord Stream, os dois, que supriam a Europa com gás russo.

Então, essa é uma realidade que nós temos que enfrentar e aceitar: a transição energética é importante, mas o petróleo continua sendo central.

Interessante também comentar que, às vezes, as pessoas se sentem desconfortáveis com isso. Nós temos uma imagem mundial de um país com matriz energética equilibrada. Hoje o nosso consumo de energia é mais ou menos 50% fósseis e 50% renováveis. Nós precisamos consumir, no mínimo, o dobro de energia do que consumimos hoje — e temos condições para isso.

Uma vez eu estava no Clube de Engenharia, e um colega disse: “não podemos comparar com a Europa, porque lá faz frio”. Eu disse: “e você tem ar-condicionado?”. Ele disse: “tenho em todos os cômodos”.

Ora, nós gastamos energia com calor. E, inclusive, produzir frio consome mais energia do que produzir calor. Então, esse argumento não se sustenta. Nós precisamos aumentar o consumo de energia para melhorar o padrão de vida.

HP: Dá para fazer essa virada?

Estrella: Não é imediato. Exige reconstrução. Nós estamos numa situação de absoluta fragilidade em termos energéticos e em termos de fertilizantes. Durante anos, houve investimento contínuo para adaptar refinarias ao petróleo nacional. Esse processo foi interrompido. Agora foi retomado, mas precisa ser muito ampliado. E agora estamos nessa situação. Numa situação ainda confortável, porque nós somos autossuficientes.

O petróleo se elevou muito de preço, está a 100 dólares o barril, por aí. É de grande lucratividade. Mas aí entra outro problema: as taxas de juros. Não existe país no mundo que funcione com juros de 14,75% ao ano. Nós pagamos, em 2025, cerca de 1,3 trilhão de reais só de juros da dívida. Isso retira recursos que poderiam ser investidos em universidades, infraestrutura, energia. A nossa dificuldade é sistêmica. É um problema de gestão nacional.

HP: E dá para reverter isso? E dá pra voltar a BR Distribuidora? Dá para reestatizar?

Estrella: É difícil, mas possível. O Lula está falando em reestatizar. Mas aí entra um ponto importante: na minha opinião, como cidadão brasileiro, para tentar construir um modelo de Brasil precisamos considerar a convivência entre o poder financeiro transnacional e os interesses brasileiros. Isso exige recuperar o papel do Estado nas áreas estratégicas. Hoje, o controle da Petrobrás está nas mãos de fundos privados, ainda mais quando vendemos a BR Distribuidora. Nós não temos mais controle sobre os postos. O objetivo é lucro máximo. E esses fundos são internacionais, então praticam preços internacionais para maximizar ganhos.

Nós estamos tentando conciliar interesses que são, na prática, inconciliáveis: o interesse nacional e o do capital financeiro internacional.

Além disso, há outros fatores. Produzir no Brasil pode ser mais caro, mas gera empregos, impostos e desenvolvimento. Isso precisa ser considerado. Não é só a performance financeira da empresa, mas também a social.

HP: É a questão do mercado interno?

Estrella: Talvez a maior riqueza do Brasil seja o mercado interno. Então, esse modelo de livre comércio precisa ser revisto. Se abrirmos completamente para economias mais industrializadas, vamos transferir nosso mercado interno para eles.

Nós temos potencial de dobrar o consumo interno. Isso significa crescimento, emprego e renda. Mas, para isso, precisamos de energia mais barata, indústria fortalecida e proteção ao mercado interno. Caso contrário, não vamos competir. Nós já retrocedemos industrialmente. Para recuperar, precisamos reduzir custo interno — principalmente energia.

HP: Esse debate deve entrar nas eleições?

Estrella: Na minha visão isso precisa ficar claro para a população. O eleitor precisa entender que está escolhendo um projeto de país. Existem medidas provisórias que podem ser usadas, mas nem tudo pode ser resolvido por decreto. Mesmo quando o governo quer mudar, enfrenta restrições internas e legais.

Por isso, a solução é estrutural. Não adianta só medidas pontuais. Nós precisamos de uma reestruturação da economia brasileira. Com foco em soberania, desenvolvimento e melhoria de vida da população. Sem isso, ficamos apenas administrando problemas.

HP: Que medidas?

Estrella: Por exemplo, no caso do petróleo, a retomada das refinarias. Nós privatizamos Manaus e Mataripe, na Bahia. No Amazonas, refinaria não está refinando — ela importa combustíveis. Ela importa combustíveis porque ainda existe influência do tal PPI, a política de paridade de importação. Esse negócio de PPI é do Temer.

A gestão da Petrobrás era sistêmica, tendo como objetivo dois pontos principais: primeiro, autossuficiência em petróleo; segundo, o melhor preço nacional. Não era lucro máximo. Era lucro com função social. E também praticávamos a lei com, no mínimo, 25% de distribuição de dividendos. Hoje, nós chegamos a antecipar dividendos. Isso é inaceitável. Quem paga isso, no final, é o trabalhador brasileiro.

Então, estamos diante de um problema sistêmico de reestruturação da economia brasileira, tendo como objetivo a soberania nacional e o bem-estar da população, com criação de empregos, melhoria das universidades e investimento público.

O governo Lula está fazendo isso, mas ainda está preso às restrições internas, como os “comitês de conformidade”. Se custa mais barato, compra fora. Mas isso significa não comprar no Brasil.

Medidas emergenciais são importantes — Bolsa Família, por exemplo —, mas não resolvem o problema estrutural. Temos que mexer na estrutura de gestão do Estado brasileiro como um todo. Empresas estatais, empresas privadas — tudo dentro de um projeto nacional. Porque não é possível a nona economia do mundo ter gente dormindo na praça.

CARLOS PEREIRA

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