Família em conserva e manjubinha frita: O divã do pós-Carnaval


DAVI MOLINARI

Eu estava naquele estado que a psicanálise chama de angústia de desamparo e o Juvenal chama de “fogo no rabo”. Minha cara estava um mosaico: um olho no tique nervoso da sobrancelha e o outro tentando decifrar por que diabos a Acadêmicos de Niterói tinha virado o estopim de uma guerra santa no WhatsApp.

O Doutor, impassível, parecia uma estátua de sal que nunca olhou para trás, enquanto o Juvenal servia as manjubinhas como se fossem hóstias fritas em óleo diesel.

— Desembucha, psicanalisado — disse Juvenal, limpando a mesa com um pano que já teve passado de glória, mas hoje só tinha muita graxa. — É a anistia para os golpistas ou o preço do chope?

— Juvenal, é o contrassenso! — Bufei. — Estão dizendo que satirizar a família tradicional em “latas de conserva” é ataque à fé. O Carnaval nasceu da festa pagã da Saturnália romana, onde o escravo virava rei e o senhor virava piada. É a festa da transgressão, da inversão! Agora querem que o desfile venha com bula papal e ala dos pastores? Estão interpretando a sátira como heresia e a alegoria como pecado capital. É o triunfo da desorientação mental sobre a poesia.

Olhei para o Doutor em busca de um norte, ou ao menos de um ansiolítico.

— O que aborreceu essa gente, paciente — ponderou Juvenal, dublê de psicanalista —, foi a escola lembrar que o Lula tem quilometragem para virar samba-enredo. De retirante a presidente. Aí, qualquer boneco de isopor vira motivo de crítica de “especialista” que confunde sátira com cruzada. Sobrou ataque até para o Iluminismo, como se a razão fosse uma ameaça e a universidade, um pecado.

— Pois é, Juvenal! — atalhei. — Quem não enxerga que o Estado laico é justamente o que garante a liberdade de rezar para quem quiser é o mesmo que acredita que a ciência virou profana e a Terra é um prato de manjubinhas.

O Doutor, que até então só havia emitido um leve pigarro clínico, fechou o caderninho com um estalo seco. O boteco “Fale Mais Sobre Isso” fez um minuto de silêncio em homenagem à expectativa. Ele inclinou-se para a frente, ignorou a gordura das manjubinhas e, com a precisão de um diretor de bateria, soltou a frase que encerrou a sessão:

— No Carnaval o Brasil se lembra que é livre, e nada assusta mais um conservador do que um povo que perde o medo de ser profano.

O Doutor levantou-se, deixou o dinheiro do chope, contado, como sempre e sem gorjeta para o pecado — e saiu antes que a primeira gargalhada do Juvenal ecoasse.

—Por hoje é só, pessoal — disse Juvenal, passando o pano na mesa e recolhendo os destroços da nossa sanidade.

Publicado originalmente em Divã no Boteco LXXIX. Enviado pelo autor.

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