A ganância dos oligopólios de defesa e a corrupção generalizada no Pentágono levam a armas malfeitas e de péssimo desempenho
EUGENE WEBB *
O ditador Trump volta e meia se vangloria do fato de que os Estados Unidos têm o maior e melhor exército do mundo, capaz de destruir qualquer inimigo pelo ar, terra, e mar. O comunicado de imprensa da Casa Branca que anuncia o início da agressão ao Irã se intitula “Operação Fúria Épica: O Poder Sem Par, A Força sem Trégua dos Guerreiros da América.” Em seguida, o comunicado afirma que “Sob o comando agressivo do Presidente Donald J. Trump, os militares dos Estados Unidos estão lançando uma força avassaladora na Operação Fúria Épica — provando mais uma vez porque os Estados Unidos possuem a força mais poderosa, letal, e avançada que o mundo jamais viu.”
A guerra no Irã revela que a defesa antiaérea de Israel, conhecida como “Domo de Ferro”, antes considerada como eficiente na defesa contra mísseis balísticos, não tem dado conta de neutralizar os ataques de mísseis balísticos do Irã, que usou inicialmente a tática de lançar uma chuva de mísseis antigos para esgotar o estoque de sistemas de defesa antimísseis THAAD e Patriot disponíveis em Israel, mas produzidos nos Estados Unidos.
Considerando que Israel tem usado um mínimo de 2 até 8 interceptadores para cada míssil iraniano, Larry Johnson, ex-analista de inteligência da CIA, afirmou em 15 de março “que o suprimento de mísseis THAAD já acabou ou está próximo de acabar.” Além do eventual colapso do estoque, do ponto de vista financeiro é preciso enfatizar que o custo de cada interceptador do sistema THAAD (Defesa Terminal de Área de Alta Altitude) é de 12.7 milhões de dólares, enquanto o de cada sistema atinge entre 1 e 1.8 bilhões, incluindo 6 lançadores, 48 interceptadores, um radar AN/TPY-2 e sistemas de controle de incêndio. Por outro lado, o custo de um míssil não sofisticado do Irã é de cerca de 100,00 dólares e o de um drone, cerca de 10 a 20.000 dólares.

Johnson também avaliou que o estoque de mísseis do complexo de defesa Patriot se esgotaria em fins de março se Israel se defendesse com pelo menos 2 interceptadores para cada míssil iraniano. Do ponto de vista financeiro, o custo de cada interceptador PAC-3 MSE (Capacidade Avançada Patriot-3 Segmento do Míssil Aumentada) do sistema de defesa antimíssil Patriot é 7 milhões de dólares, enquanto o de cada bateria completa, incluindo um radar AN/MPQ-65, uma estação de controle de engajamento, 4 a 8 lançadores, e uma carga de mísseis de 24 PAC-3 MSE e 8 GEM-T (míssil de orientação expandida- mísseis balístico táticos) varia de 560 milhões de dólares para o hardware e os mísseis até mais de bilhão de dólares para a configuração completa, que inclui treinamento, reposição de equipamentos e integração.

Os custos dos complexos de defesa antimíssil produzidos pela Lockeed Martin, Raytheon, ou Norhtrop Grumman são muito mais altos que os de similares na Rússia, China e Irã porque a indústria de defesa (ou melhor, de guerra) dos Estados Unidos é cartelizada e financiada por um orçamento militar inchado, através do qual o Pentágono, capturado pelos oligopólios, paga fortunas via contratos cost plus, onde o super lucro é garantido e pré-determinado. E os produtos fornecidos por esta indústria oligopólica, na opinião de vários experts da indústria de defesa, na prática nem são de tão boa qualidade nem tem tido performance aceitável no campo de batalha. O jato F-35 é um bom exemplo por ter problemas sérios no software e hardware, cuja falha causa superaquecimento no jato e reduz a vida útil do motor. A Força Aérea dos Estados Unidos está frustrada com os atrasos na produção do avião e resolveu cortar pela metade os planos para aquisição desses jatos.
Os Estados Unidos também não têm mais capacidade para produzir quantidade suficiente dos caríssimos mísseis, radares, lançadores de mísseis, entre outros, devido a grande desindustrialização ocorrida desde os anos 80; portanto, já não pode mais patrocinar e bancar duas guerras simultâneas contra adversários bem preparados, com tecnologias bélicas sofisticadas, e complexos militares industriais modernos. O sucessor do império inglês tornou-se um império militarmente também decadente e desesperado para manter a sua hegemonia depois dos quase 70 anos da Pax Americana.

Segundo Andrei Martyanov, bielorusso, analista militar das forças armadas russas, radicado nos Estados Unidos, o retrospecto das últimas invasões, mal denominadas de guerras, dos Estados Unidos no Iraque e Afeganistão revela que as forças armadas dos EUA foram derrotadas no Afeganistão depois de 20 anos de ocupação e só conseguiram êxito no bombardeio do Iraque porque as forças armadas iraquianas tinham defesas antiaéreas débeis e eram muito inferiores ao poderio bélico dos EUA.
Martyanov escreveu alguns livros importantes sobre defesa e publica muitos artigos analisando as forças armadas americanas, desde questões tecnológicas até estratégia militar e treinamento de oficiais e soldados. No livro “A Guerra Final da América,” Martyanov crava que “a muito propagandeada supremacia militar dos EUA não é mais que um blefe,” referindo-se à guerra da Ucrânia.
Os armamentos produzidos pelas corporações dos EUA e dos países do chamado Ocidente Coletivo, como os Javelins anti-tanques, os APC Bradleys, ou os complexos de defesa aérea como o Patriota PAC-3 ou o míssil NASAMS, tiveram performance sofrível e se mostraram não estar prontos para o que se tornou o maior conflito militar na Europa desde a Segunda Guerra.

A guerra do Irã deixou ainda mais claro que as forças armadas dos Estados Unidos não estão preparadas para empregar as táticas, operações e estratégias necessárias para derrotar o Irã, que se preparou por décadas para uma guerra do século 21, enquanto os Estados Unidos continuam adotando as que lhes conferiram suposta superioridade em conflitos anteriores, isto é, supremacia aérea, bombardeio de alvos civis, e defesa antimísseis baseadas no complexo Patriota.
O Irã aprendeu com a guerra do Iraque ao planejar a estratégia de comando e controle denominada mosaico (via descentralização e independência de cada núcleo), e construiu enormes túneis subterrâneos em profundas montanhas de rochas onde armazena milhares de mísseis subsônicos e hipersônicos, embarcações velozes apelidadas de mosquitos, e drones.
As tecnologias de inteligência, vigilância e reconhecimento desenvolvidas pela Rússia e China foram de alguma maneira incorporadas pelas forças armadas do Irã e têm se mostrado muito eficazes tanto para a defesa quanto para os ataques do Irã a Israel e as monarquias ditatoriais do Golfo Pérsico.
O ditador Trump imagina (ou talvez delira) que suas forças armadas podem bombardear tanto o Irã que este país retornaria à idade da pedra; porém nada indica que os EUA consigam êxito neste crime de guerra genocida. Ao contrário, qualquer análise realista do conflito só pode levar a conclusão de que o Irã já venceu a guerra e daqui para a frente terá cada vez mais força para ditar as regras do pós-guerra, com o estreito de Ormuz sob seu controle e o ‘petroyuan’ substituindo o ‘petrodólar’.
* Professor, analista político e colaborador do HP nos EUA











