Pelo menos 46 perfis de redes publicaram mensagens sincronizadas que questionam a liquidação do Banco Master e criticam atuação de autoridades, em movimento que investigadores avaliam como campanha organizada
Pelo menos 46 perfis em redes digitais vêm promovendo ataques simultâneos ao BC (Banco Central do Brasil) e a investigadores ligados ao caso do Banco Master, em meio à escalada de disputas jurídicas no STF (Supremo Tribunal Federal) e no TCU (Tribunal de Contas da União) sobre a liquidação extrajudicial da instituição financeira.
A ofensiva digital — que ganhou intensidade entre o final de dezembro e o início de janeiro — é marcada por postagens sincronizadas com conteúdo repetitivo e informações enviesadas, criticando a atuação do BC na decisão que culminou na liquidação do Master e na rejeição da proposta de compra pelo BRB (Banco de Brasília).
OFENSIVA ALÉM DAS FRONTEIRAS FINANCEIRAS
Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, boa parte dos perfis envolvidos não é especializada em economia ou assuntos financeiros, mas pertencem a páginas de entretenimento e “fofoca” com grande alcance — algumas com dezenas de milhões de seguidores — que publicaram mensagens alinhadas em poucos dias.
Em muitas das postagens, o foco é questionar a credibilidade da autoridade monetária e minimizar o papel técnico que embasou a liquidação do Master.
Algumas contas chegaram a sugerir falsamente que decisões do regulador teriam criado instabilidade no mercado e insegurança jurídica, embora esses perfis sejam historicamente ligados a temas distantes da regulação financeira.
Um dos principais alvos das publicações nas redes tem sido Renato Gomes, ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, cuja área recomendou o veto à compra do Master pelo BRB.
Gomes, que deixou o cargo em 31 de dezembro, foi mencionado em diversas postagens com críticas às decisões dele.
Uma das páginas que participam da orquestração é a Futrikei, que tem mais de 25 milhões de seguidores. “A tão aguardada acareação no caso do Banco Master terminou sem o impacto que muitos esperavam. O confronto entre o banqueiro Daniel Vorcaro e testemunhas durou cerca de 40 minutos e não apresentou provas contundentes nem revelou novos fatos decisivos”, diz o texto.
O jornal O Globo revelou que influenciadores tinham sido procurados para postar conteúdo a favor do Banco Master e rejeitaram a proposta. Nos dois casos apontados pelo jornal, o conteúdo a ser postado faria parte de um projeto chamado DV, as iniciais do dono do banco Master, Daniel Vorcaro.
REAÇÕES DE INSTITUIÇÕES E AUTORIDADES
A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) identificou volume atípico de publicações no final de dezembro relacionadas ao caso e afirmou estar analisando se o movimento pode caracterizar ataque coordenado contra instituições como o Banco Central e a própria Febraban.
Fontes ouvidas por veículos de imprensa também apontam que o BC planeja solicitar à PF (Polícia Federal) a abertura de investigação sobre possíveis ataques coordenados nas redes, e avalia se há disseminação de desinformação ou outras práticas ilegais que visem desestabilizar a autoridade monetária.
Além disso, entidades financeiras divulgaram notas de apoio à atuação do Banco Central.
NARRATIVAS E ESTRATÉGIA DIGITAL
Uma das características do fenômeno é o uso de narrativas que misturam elementos jurídicos, econômicos e políticos, que potencializam a visibilidade de conteúdos que, segundo especialistas ouvidos pela imprensa, contêm vieses interpretativos e simplificações excessivas de decisões técnicas.
Em alguns casos, contas influentes reproduziram textos de portais que imitam sites jornalísticos, afirmando, por exemplo, que a acareação de depoimentos no caso Master “terminou sem impacto decisivo”, ou que órgãos reguladores agiram de forma precipitada — relatos que não constam de conclusões oficiais da investigação.
TENSÕES NA ESFERA PÚBLICA E PRIVADA
O episódio expõe como a disputa institucional entre reguladores, tribunais e partes envolvidas no caso Master vem sendo travada também na arena digital, com campanhas que vão além do debate técnico e tensionam a opinião pública sobre temas complexos de regulação financeira.
Especialistas alertam que a proliferação de conteúdos coordenados pode contribuir para polarização e desinformação, o que dificulta a compreensão pública de processos que envolvem a liquidação de um banco e seus efeitos para o sistema e investidores.
“Quando decisões são mal explicadas, o efeito se espalha por todo o sistema, atingindo grandes instituições e também o crédito na ponta”, afirmam publicações alinhadas às críticas — embora a interpretação técnica do BC seja, segundo fontes, muito mais complexa que o que aparece nas redes.
O Banco Master e seu presidente, Daniel Vorcaro, não se manifestaram oficialmente sobre a ofensiva digital. Enquanto isso, a disputa institucional segue desenrolada entre o BC, TCU, STF e demais atores envolvidos no caso.
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