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O assim-chamado Departamento de Eficiência Governamental (Doge), encabeçado não se sabe bem como pelo homem mais rico do mundo e maior doador da campanha presidencial, Elon Musk, desencadeou contra os servidores públicos norte-americanos uma campanha de aterrorização, voltada a arrancar demissões em massa, ao mesmo tempo em que enxovalha o serviço público e comete absurdos tais como demitir, do nada, os 350 funcionários federais responsáveis por cuidar das ogivas nucleares norte-americanas, que, obviamente, tiveram de ser recontratados às pressas.
E Mr. ‘Heil Siegl’ Musk se considera um gênio da engenhosidade e do bom senso e segue posando de primeiro-presidente, embora ninguém o haja eleito. Aliás, como crescentemente denunciam protestos que se espalham pelo país inteiro.
A última estultícia dele: enviar e-mail para os mais de 2 milhões de servidores federais concursados determinando que respondessem cinco coisas que haviam feito na semana anterior, sob risco de demissão.
Antes que explodisse algum escândalo, em meio a tanta gente sendo forçada a registrar qualquer coisa para não ser demitida, até dirigentes nomeados pelo próprio Trump, caso do novo e estranho chefe do FBI, Kash Patel, que orientou seus funcionários a “pausarem” a “orientação” de Musk, alegando a “natureza” de suas atividades e existência de “controles internos”.
O maior sindicato de funcionários federais dos EUA prometeu contestar qualquer demissão ilegal. “É cruel e depreciativo para centenas de milhares de veteranos que usam seu segundo uniforme no serviço público serem forçados a justificar suas funções para este bilionário privilegiado”, disse Everett Kelley, presidente da Federação Americana de Funcionários do Governo (AFGE).
“Os funcionários federais se reportam às suas respectivas agências por meio de suas cadeias de comando estabelecidas; eles não se reportam ao OPM”, escreveu Kelley ao interino do órgão, Charles Ezell. “Os funcionários federais têm o dever de garantir que informações, dados e registros confidenciais sejam usados e divulgados apenas para fins autorizados. O e-mail nada mais era do que uma tentativa irresponsável e imatura de criar confusão e intimidar os funcionários federais que trabalham duro e servem ao nosso país”.
Desde a posse, vêm se multiplicando os protestos de servidores públicos contra as ameaças sofridas de um governo cujo ‘PIB’, de acordo com as informações mais recentes da revista Forbes sobre a riqueza dos nomeados, equivale a US$ 453 bi.
Na verdade, a “Eficiência” da governança dos monopólios e bancos pôde ser aquilatada na última devastação que promoveram, a crise financeira de 2008. Para os magnatas, “eficiência” é destruir o Medicare, o Medicaid e a Previdência e desregulamentar, para liberar mais dinheiro público para o cassino dos derivativos e criptomoedas e as privatizações.
FURDUNÇO
Foi uma segunda-feira de caos, último prazo dado aos servidores federais, até às 23h59. No sábado, o furdunço começou com um e-mail em massa do Gabinete de Gestão de Pessoal (OPM na sigla em inglês) chegando às caixas de entrada de funcionários federais em todo o país.
À tarde, falando do Salão Oval, o presidente Trump jogou mais gasolina na fervura, considerando a ordem do e-mail de Musk “engenhosa” e acrescentando que “temos que descobrir onde essas pessoas estão. Quem são elas?”. “Se você não responder, presumimos que você não está por perto e também não está mais sendo pago.”
O próprio Gabinete de Gestão de Pessoal (OPM), horas depois, notificou formalmente as agências de que a resposta era voluntária e deixar de responder “não equivaleria a uma renúncia”.
“Nosso chefe disse que era obrigatório, mas o OPM disse que se tornou voluntário. Então acho que Trump apenas nos falou que era obrigatório novamente”, exclamou um funcionário de carreira do Department of Veterans Affairs, citado pela CNN. “Ninguém sabe quem está no comando e quem ouvir.”
Na segunda-feira à noite, Musk voltou à carga, postando no X, de que é dono: “Sujeito à discrição do presidente, eles terão outra chance. Não responder uma segunda vez resultará em demissão.”
Mas nem todos se impressionaram. “Tenho muito trabalho a fazer, não vou negligenciar o atendimento real aos pacientes por causa desse drama”, disse um médico do Departamento de Assuntos de Veteranos que recebeu o e-mail.
Por sua vez, NBC News informou que Musk está planejando usar inteligência artificial para analisar respostas. Efetivamente transferindo para programas de computador decisões que afetarão o sustento de centenas de milhares de funcionários federais e dezenas de milhões que dependem de programas ameaçados.
DEMISSÕES A RODO
Agraciado com uma motosserra pelo doublé de presidente e escroque Milei, o biliardário Musk tem mirado particularmente os funcionários ainda na fase probatória, que são 200 mil e, portanto, mais fáceis de cortar, mas tem apontado sua metralhadora demissionária para todo lado.
Com “Eficiência” significando destruir programas como Medicare, Medicaid e Previdência Social, eliminar quaisquer regulamentações existentes das corporações e privatizar. Em flagrante violação dos contratos e proteções do serviço público, centenas de milhares de trabalhadores em órgãos federais estão ameaçados de rescisão imediata pelo exibicionista que perpetrou uma saudação nazista em plena festa de posse de Trump e cujo legado de berço, além da riqueza, incluía o apartheid sul-africano. Quaisquer agências federais que forneçam serviços sociais, regulem monopólios estão sendo esvaziadas ou arrasadas. Uma análise da Bloomberg de mais de 30.000 cortes descobriu que as agências com o maior número afetado incluíam Usaid (9.710), IRS (6.700) e os departamentos de Agricultura (3.400), Saúde e Serviços Humanos (2.300) e Interior (2.300).
A Fox News informou ontem uma grande “redução de força” em andamento na Administração de Serviços Gerais, uma agência com 12.000 trabalhadores, que fornece serviços críticos para a função de outras agências federais.
DEMITE PRIMEIRO E PERGUNTA DEPOIS
Sob as ordens dos aprendizes de feiticeiro do Doge, a força de trabalho na fábrica da Pantex, perto de Amarillo, Texas, envolvida na remontagem de ogivas nucleares, foi cortada em 30% sem aviso prévio.
A diretora interina da agência de Energia, Teresa Robbin, precisou enviar uma declaração revogando a ordem de demissão com efeito imediato, mas 28 funcionários ainda não foram reintegrados. Ou seja, as demissões foram ordenadas pelo pessoal de Musk sem sequer analisar antes o escopo de seu trabalho: demite primeiro e pergunta depois.
“O pessoal do Doge está chegando sem a mínima ideia de quais são as responsabilidades desses departamentos. Eles parecem não perceber que, na verdade, é mais sobre o departamento de armas nucleares do que sobre o Departamento de Energia”, disse Daryl Kimball, diretor executivo da Arms Control Association.
Um alto funcionário da NNSA, Rob Plonski, também alertou via LinkedIn : “Cortar a força de trabalho federal responsável por essas funções pode ser visto como imprudente na melhor das hipóteses e adversamente oportunista na pior”.
CAMPANHA FAKE CONTRA A PREVIDÊNCIA
Entre as canalhices cometidas pelo magnata, talvez poucas superem o ataque à previdência fabricado por Musk, usando o Doge como fachada e, portanto, pintando um alvo nela para facilitar seu desmanche e privatização, como sonham, faz tempo, os banqueiros.
Em 11 fevereiro, em uma entrevista coletiva com Trump, o bilionário asseverou ter, com a inspeção na Previdência Social, detectado “pessoas com 150 anos de idade lá […]” na folha de pagamento de benefícios.
Ele também publicou uma tabela que supostamente mostraria os “milhões” de fraudadores da Previdência. “Achados” que um fã de Musk sintetizou nas redes sociais: “milhões de ‘vampiros’ de até 370 anos ‘sugam’ o dinheiro dos benefícios sociais nos EUA”.
“De acordo com dados compartilhados pelo magnata na rede social X no domingo, milhões de americanos com mais de 100 anos ainda estão recebendo pagamentos. Há até registros de mais de 12 milhões de cidadãos vivos entre 120 e 159 anos”, entusiasmou-se o Musk-boy.
O fã citou a declaração de Musk, segundo o qual “talvez ‘Crepúsculo’ seja real e haja muitos vampiros recebendo Previdência Social”. Acusação endossada por Trump uma semana depois: “Nós temos milhões e milhões de pessoas acima de 100 anos de idade [como beneficiários da Previdência Social]”.
Em 17 de fevereiro de 2025, Musk publicou no X uma tabela com a quantidade de beneficiários do serviço, atribuindo os números à base de dados da Social Security Administration (SSA), a Previdência Social dos Estados Unidos.
A tabela de Musk lista que há mais de 394 milhões de beneficiários no país, sendo 26 milhões com idade igual ou superior a 100 anos. Nessa faixa, 1039 cadastros seriam referentes a pessoas nascidas entre 220 e 229 anos atrás; um referente a uma pessoa nascida entre 240 e 249 anos atrás; e outro, a uma nascida entre 360 e 369 anos atrás.
O post não diz como esses números foram contabilizados, e veículos de imprensa americanos relataram não ter conseguido encontrá-los no site da SSA.
O problema é que o número apresentado por Musk (394 milhões) – como salientou o G1 – “é cinco vezes maior que o total de pessoas que receberam o benefício previdenciário em 2024 (69,4 milhões) nos EUA”, conforme o site da SSA. Além, também segundo o órgão pagador, “desde setembro de 2015 os pagamentos a pessoas com 115 anos ou mais é automaticamente encerrado pelo sistema”.
Em resumo, uma fake news que tem como alvo simplesmente a previdência social que atende milhões. Especialistas ouvidos pela revista americana “Wired” explicaram que o sistema usado pela SSA é baseado em Cobol, uma linguagem de programação de 1959 que não tem um modo padronizado de armazenar datas, ao contrário das linguagens de programação modernas.
Em razão disso, as datas no Cobol precisam ser codificadas de acordo com uma referência – e a mais comum, pelo padrão internacional, é 20 de maio de 1875. “Isso significa que se alguém solicitar a Previdência Social sem uma data de nascimento, poderá ser registrado como tendo 150 anos no banco de dados”, diz o texto.
Ainda segundo a “Wired”, […] quando o governo federal começou a emitir pagamentos mensais regulares da Previdência Social “em janeiro de 1940”, os beneficiários precisavam ter “pelo menos 65 anos para se qualificar, o que significa que precisavam ter nascido em 1875 ou antes”.
“Aqueles [programadores] que criaram o banco de dados da Previdência Social podem, portanto, ter definido 1875 como o ano de nascimento padrão para qualquer pessoa que não tivesse essa informação na época.”
Se Musk não fosse exatamente um personagem da área da alta tecnologia, a confusão poderia ser vista como ignorância. Em se tratando de quem é, cheira mais a má fé.
Um debate em um programa de TV nos EUA, sobre a trumpnomics, em que participaram os economistas Mariana Mazzucato, Paul Krugman e Oren Cass, se debruçou sobre outra faceta de Musk.
O apresentador Kara Swisher lembrou declaração de Mazzucato em que ela disse que pessoas como Musk “agem como parasitas porque querem destruir os investimentos públicos que os ajudaram a construir suas empresas”. Só em 2015 a Tesla foi agraciada com quase US $ 5 bilhões de dinheiro público. Ele também se referiu aos “padrões duplos”, com Musk sendo “o maior agricultor de subsídios” do país, nas palavras de Cass, enquanto se dedica a uma “cruzada contra o desperdício do governo” à frente do Doge.