Em 27 de janeiro de 1945, as tropas do Exército Vermelho chegaram às cercas de arame farpado do maior campo de extermínio nazista pondo fim à matança diária de 6.000 pessoas sob ordens de Hitler
As forças soviéticas que chegaram a Auschwitz no avanço contra as tropas nazistas através da Polônia atravessaram as cercas de arame farpado atrás das quais durante mais de quatro anos foram martirizados mais de um milhão de pessoas, principalmente judeus, mas também opositores ao regime nazifascista poloneses e russos.
O nome do campo, Auschwitz, onde o assassinato em massa era de uma crueldade metódica, passou a simbolizar o horror da perseguição e limpeza étnica nazistas.
Foi ali que milhares encontraram a morte despidos e expostos ao gás Ziklon-B, cujo fabrico carreou fortunas ao monopólio químico IG-Farben-Bayer, que despejado em câmeras seladas tirava a vida das vítimas em 20 minutos.
As tropas soviéticas eram do 60º Exército dirigidas pelo general Pavel Kurochkin, que por este e outros feitos na Guerra Pátria contra a ofensiva nazista recebeu a comanda de Herói da União Soviética.
Logo em seguida, chegaram as tropas do 100º Exército. Um dos seus comandantes, o tenente-coronel Martynushkin, relatou que “à medida que nos aproximávamos, começamos a ver que havia pessoas, por trás dos arames farpados e diante das torres de vigia e prédios”.
Ele as descreveu como “muito magras, cansadas, com a pele enegrecida”.
“No início, houve cautela, tanto da nossa parte quanto da deles”, lembrou. “Mas então eles aparentemente descobriram quem éramos e começaram a nos receber, a sinalizar que sabiam quem éramos e que não deveríamos ter medo deles – que não havia mais guardas ou alemães atrás do arame farpado. Só prisioneiros.”
Martynushkin e seus homens tinham acabado de libertar o campo de Birkenau. Os sobreviventes estavam extremamente magros e exaustos. Poucos conseguiam ficar de pé, muitos estavam deitados no chão, apáticos.
Cerca de 231 soldados soviéticos perderam a vida nos combates dentro e ao redor da cidade de Oswiecim que ocorreram à vésperas da libertação de Auschwitz. Seus corpos estão enterrados no cemitério municipal de Oswiecim, uma lembrança permanente do sacrifício feito na libertação dos 7.500 sobreviventes dos campos de extermínio de Auschwitz.
FÁBRICA DA MORTE
A “Fábrica da Morte” chegou a aniquilar seis mil seres humanos por dia. Os soldados soviéticos se depararam com os poucos que sobreviveram às câmaras de gás e aos fornos crematórios, ao trabalho escravo, ao arbítrio sádico, à fome, ao frio, às doenças e às experiências macabras nas quais seres humanos eram usados como cobaias, sob o hediondo comando de experimentos fatais de Joseph Mengele.
Assim que os trens chegavam, os cativos eram separados entre os aptos para o trabalho e os que iriam direto para o extermínio. O segundo grupo era obrigado a tirar a roupa e se aglomeravam sob chuveiros de onde, em vez de água, eram expelidas nuvens de gás mortal.
As paredes, apesar de espessas, não eram capazes de abafar os gritos daqueles que sufocavam ali dentro.
Grandes monopólios alemães, como a IG-Farben-Bayer e a Krupp, operavam no complexo de unidades fabris com mão de obra escrava.
Tudo isso por trás do cínico e horrendo dístico “Arbeit Macht Frei” [O Trabalho Liberta].
1,2 MILHÃO DE PEÇAS DE ROUPA E 7,7 TONELADAS DE CABELO HUMANO
Então os soviéticos começaram a se dar conta de onde tinha chegado. “Dentro dos campos os soviéticos encontraram 1,2 milhão de peças de roupa, 7,7 toneladas de cabelo humano e outros itens pessoais despojados de prisioneiros assassinados, entre eles montanhas de sapatinhos de crianças.
Eva Mozes Kor, de dez anos, sobrevivente dos experimentos médicos dementes do nazista Joseph Mengele, lembrou da gentileza dos soviéticos com as crianças do campo. “Eles nos deram abraços, biscoitos e chocolate”, disse ela.
“Ao estar tão sozinho, um abraço significava mais do que qualquer um poderia imaginar, porque isso substituiu o valor humano pelo qual estávamos famintos. Não estávamos apenas famintos por comida, mas também por bondade humana. E o Exército soviético forneceu um pouco disso”. Havia 500 crianças entre os sobreviventes do morticínio.
OCULTAÇÃO ORDENADA POR HITLER
Diante do avanço imparável do Exército Vermelho nos últimos meses de 1944, Hitler dera ordem para ocultar as provas dos crimes hediondos cometidos e mandou destruir as câmaras de gás e os fornos crematórios de Auschwitz-Birkenau.
Em 17 de janeiro de 1945, foi dada ordem de evacuação dos três campos de Auschwitz e coligados. Mais de 60 mil prisioneiros foram obrigados a marchar dia e noite: milhares morreram de exaustão pelo caminho ou foram executados nas monstruosas Marchas da Morte.
Como registrou o Ministério de Defesa da Rússia, “graças à ação rápida do Exército Soviético, os nazistas não tiveram tempo de apagar completamente os traços de sua desumanidade”.
NUNCA MAIS É PARA TODOS
Em 1948, a aprovação da Convenção contra o Genocídio das Nações Unidas criou um marco para que tal barbárie nunca mais se repita. Em 2005, a Assembleia Geral da ONU aprovou o dia 27 de janeiro – dia em que o Exército Vermelho entrou em Auschwitz – como Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Em 2002, a Unesco tornou o Memorial de Auschwitz um patrimônio da Humanidade.
Na tentativa de caráter fascista de apagar da história um dos feitos mais heróicos da Humanidade, em 2022, a Rússia foi excluída das comemorações anuais pela libertação de Auschwitz, sob pretexto de seu socorro às populações de fala russa do Donbass, elas que agora foram ameaçadas de limpeza étnica pelo regime instalado pelo golpe de Maidan em Kiev em 2014.
O atual regime ucraniano se autodefine como herdeiro dos colaboracionistas que estiveram ao lado das SS na ocupação da Ucrânia, contra as forças libertadoras soviéticas, e que mataram dezenas de milhares de poloneses e judeus em pogroms que cometeram. Hoje, tropas ucranianas a serviço do regime de agressão aos russófonos portam símbolos similares aos de tropas das SS.
No entanto, também sinal dos tempos, às vésperas da comemoração da libertação de Auschwitz do ano passado, a Corte Internacional de Justiça da ONU decidiu prosseguir com o processo contra Israel impetrado pela África do Sul, a nação que venceu o apartheid e o racismo, por “genocídio contra o povo palestino” em Gaza e deliberou liminarmente que Israel deve “prevenir e punir a incitação ao genocídio”.
Decisão considerada uma “vitória” para a entidade norte-americana Jewish Voice for Peace, segundo a qual o extermínio de palestinos é realizado “não em nosso nome” e que proclama “nunca mais é para todos”.
“NOVO MAL”
Excluir a Rússia da comemoração do 80º aniversário da libertação de Auschwitz transformou a cerimônia em uma reunião de descendentes de perpetradores do Holocausto e seus colaboradores, advertiu o ex-vice-primeiro-ministro sérvio Aleksandar Vulin.
Falando no Dia Internacional em Memória do Holocausto – 27 de janeiro de 2025, exaltando as tropas soviéticas que tomaram o campo de extermínio em 1945, estabelecido pela Alemanha nazista na Polônia ocupada – Vulin criticou duramente a decisão de Varsóvia de não convidar uma delegação russa para a cerimônia a pretexto do conflito na Ucrânia.
“Os crimes impensáveis do povo e do Estado alemães foram ‘recompensados’ pela unificação da Alemanha. Oitenta anos depois, a libertação de Auschwitz é celebrada com a participação de países que organizaram o Holocausto em Auschwitz, como a Alemanha e seus aliados, ou países que forneceram guardas, como Polônia ou Croácia”, afirmou Vulin.
Todo novo mal começa com o esquecimento de um velho mal. A exclusão da Rússia da cerimônia é outro movimento revisionista e uma tentativa de reescrever a história dos Estados-membros da UE, disse Vulin. “Se ainda há prisioneiros vivos de Auschwitz entre nós, pergunte a eles a quem eles devem suas vidas – aos netos dos soldados do Exército Vermelho ou aos netos dos soldados da SS e da Wehrmacht.”
A porta-voz da diplomacia russa, Maria Zakharova, criticou a ausência de menções aos soldados soviéticos na cerimônia em Auchwitz. “Vale lembrar aos organizadores e a todos os europeus presentes: suas vidas e o futuro de seus filhos foram pagos com o sangue dos soldados soviéticos. Vocês estão em dívida com eles”, disse em coletiva.
COMANDANTE DA LIMPEZA ÉTNICA NA PALESTINA É CONVIDADO
“Não importa o quanto os europeus tentem reescrever a história, a memória dos horrores do nazismo e dos heróis-libertadores soviéticos não pode ser apagada”. Ela ressaltou que o Holocausto é “uma tragédia que a Rússia jamais esquecerá”.
Para cúmulo da revisão da história, em especial de um dos seus principais chamados de “nunca mais é para todos”, o perpetrador dos maiores crimes contra os palestinos e com detenção pendente por eles, Benjamin Netanyahu, está na lista dos convidados à farsa.











