“Tudo pelo qual o mundo briga nós temos aqui”: Múcio defende mais investimento em defesa

Ministro da Defesa, José Múcio (Foto: Valter Campanato - Agência Brasil)

Após ataques à Venezuela e ameaças de Trump contra Groenlândia, Canadá, Colômbia, ministro da Defesa alerta para riscos e urgência de reforçar a proteção nacional e diz que “seria ingênuo demais” não investir

Trata-se de alerta estratégico do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, que afirmou em entrevista à Míriam Leitão, do jornal O Globo, que “seria ingênuo demais” o Brasil não reforçar seus investimentos em defesa, especialmente num cenário de ameaças de guerra de Donald Trump contra o mundo e disputa por recursos naturais.

“Tudo pelo qual o mundo briga nós temos aqui”, ressaltou o ministro, e destacou a riqueza brasileira em petróleo, gás, minerais, terras raras e água doce; ativos cobiçados por potências e atores internacionais.

Segundo Múcio, essa combinação de vastos recursos, fronteiras extensas — quase 17 mil km de fronteira seca e 8.500 km de zona marítima e baixo investimento histórico coloca o País numa posição vulnerável se não houver esforço estruturado para fortalecer a capacidade de defesa do Brasil.

INVESTIMENTOS, LIMITAÇÕES E ESCOLHAS ORÇAMENTÁRIAS

O ministro defendeu especial atenção à área da defesa para ampliação de gastos com equipamentos e modernização militar.

“O que eu defendo muito é que a defesa não faça parte do Orçamento (…). Porque se nós formos comparar prioridade, nós temos outras prioridades para investir, fome, educação e outras coisas”, disse Múcio.

Apesar dessas limitações, o governo reservou R$ 30 bilhões fora do Orçamento nos próximos 6 anos para sistemas estratégicos, não para aumento de efetivo, mas para aquisição e modernização de equipamentos essenciais.

Segundo ele, os recursos devem impulsionar capacidades que garantam respeito à soberania brasileira sem, contudo, tentar igualar o gasto militar dos Estados Unidos ou da China, que investem centenas de bilhões anualmente.

Múcio explicou os motivos da sua preocupação diante das ações agressivas dos EUA. “É uma mudança de paradigma. Nós achávamos que se nós estivéssemos dentro dos nossos direitos, estávamos protegidos. Os Estados Unidos, com o que fez na Venezuela, mostrou que “você está nos seus direitos, se eu quiser, eu entro, eu tenho mais força que você”. Então, dizer a você que não podemos nos preocupar talvez seja ingênuo demais, porque nós temos tudo”.

“O que é que eu tenho aqui que interessa a ele? Evidentemente que o Brasil é um país riquíssimo. Tudo pelo qual o mundo briga temos demais aqui. Temos petróleo, temos gás, temos todos os minerais, temos as terras raras, temos água doce, temos tudo”, completou.

“Agora, nós não cuidamos da defesa no Brasil por conta da sua pergunta inicial, dos assuntos passados, nós relegamos a defesa. E hoje, a nossa luta é para que isso seja um tema principal de qualquer plataforma, de qualquer presidente”, assinalou.

Questionado sobre a existência de um plano nacional de defesa, o ministro confirmou: “Nós temos um plano nacional de defesa. O que nos falta são recursos”.

“Eu luto muito para que esse investimento em defesa saia do Orçamento. Nós precisamos, vamos dizer assim, de 40 aviões. Um avião custa US$ 100 milhões. Um submarino custa 800 milhões de euros. Os números são gigantescos. Na hora que precisa comprar 40 aviões, 50 aviões de US$ 100 milhões, e tem gente que está precisando de comida, que você está precisando investir em saúde. Não pode fazer com que a defesa tenha uma referência, um comparativo, senão não investe nunca”.

“Eu quero que a defesa seja uma prioridade absoluta, igual esses R$ 30 bilhões, para que a gente possa recuperar tudo o que aconteceu” de perdas.

CONTEXTO GEOPOLÍTICO E PREOCUPAÇÕES PÚBLICAS

A fala de Múcio ocorre num momento em que parte da população se mostra preocupada com a segurança nacional. Pesquisa recente indicou que 58% dos brasileiros temem que o País possa enfrentar situações semelhantes ao da Venezuela, com possível intervenção dos EUA.

Trata-se de reflexo das mudanças no cenário internacional e da percepção da necessidade de fortalecer o Estado brasileiro.

O ministro reconheceu que o mundo contemporâneo exige um mínimo de capacidade dissuasiva: “Nós precisamos defender as nossas fronteiras, defender o que é nosso, a gente não pode se entregar”, afirmou.

MODERNIZAÇÃO E INDÚSTRIA DE DEFESA EM DEBATE

Especialistas apontam que a discussão sobre defesa nacional também envolve reforçar a indústria bélica e tecnológica brasileira. Relatórios internacionais mostram que o orçamento de defesa do Brasil deve crescer em 2026 para cerca de US$ 26,2 bilhões, superando, isoladamente, o gasto combinado de outras potências sul-americanas.

Mas, ao mesmo tempo, ainda limitado frente às demandas estratégicas e desafios regionais.

Além disso, iniciativas como o Prosub (Programa de Desenvolvimento de Submarinos) reforçam a ambição de dotar a Marinha de capacidades avançadas, incluindo o desenvolvimento de submarino nuclear de ataque, considerado vital para a projeção de poder e proteção da chamada Amazônia Azul. Vasto espaço marítimo rico em petróleo, gás e biodiversidade.

RELAÇÃO CIVIL-MILITAR E DEBATES LEGISLATIVOS

Múcio também entende que a Defesa seja tratada como prioridade de Estado, além de governos específicos, superando assim tradição de subfinanciamento e desinteresse político histórico.

Ele criticou a relação conturbada entre civis e militares após a ditadura de 1964 como um dos fatores que empurrou o tema para segundo plano no debate público.

Em debates legislativos, o ministro insistiu na necessidade de autonomia e neutralidade das Forças Armadas, e afirmou que essas “não podem agir para agradar partidos” e devem se concentrar na proteção do patrimônio e da sociedade brasileira, independentemente de alinhamentos políticos partidários.

PROTEÇÃO, SOBERANIA E PRIORIDADES NACIONAIS

O alerta de José Múcio coloca em evidência dilema central na política pública brasileira em relação à defesa: equilibrar demandas sociais urgentes com a necessidade de aparato de defesa capaz de proteger territórios, recursos e soberania em um mundo imprevisível.

Se a mensagem do ministro reverberar no Congresso e na sociedade, poderá desencadear debate mais amplo sobre o papel estratégico das Forças Armadas e as escolhas de longo prazo que moldarão a segurança do Brasil nas próximas décadas.

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