Ibaneis quer tapar rombo BRB/Master com alienação dos recursos hídricos do DF

Área que Ibaneis quer torrar para cobrir o rombo do BRB, que ele provocou (Foto: Valmor Pazos - Agência Brasília)

Um dos imóveis oferecidos pelo bolsonarista para viabilizar o empréstimo bilionário é Área de Proteção Ambiental, o que pode comprometer o abastecimento de água na região

Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal, desesperado para tentar se livrar da arapuca em que se meteu após as negociatas com o Banco Master, não satisfeito por comprometer as contas do Banco Regional de Brasília (BRB), um patrimônio da população da capital do país, agora ameaça áreas ambientais que são consideradas fundamentais para o funcionamento do ecossistema da região.

Para tapar o rombo que provocou na compra dos papeis podres do Master, Ibaneis ofereceu como garantia do empréstimo bilionário de quase R$ 9 bilhões uma área essencial para a qualidade dos mananciais hídricos que abastecem a capital.

O deputado distrital Gabriel Magno (PT) entrou com uma representação junto ao Procurador-Geral do Ministério Público, Georges Seigneur, e às promotorias de Meio Ambiente, Urbanização e Patrimônio, argumentando que a Serrinha, parte de um dos 9 terrenos escolhidos por Ibaneis, é uma Área de Proteção Ambiental de onde saem cerca de 40% a água potável que abastece o Lago Paranoá, local onde a Caesb, Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal, recolhe a água que distribui para seis regiões do DF: Paranoá, Itapuã, Lago Norte, Plano Piloto, Noroeste e Sudoeste.

A Assembleia Geral do BRB marcou para o dia 18 de março a reunião que analisará a proposta de Ibaneis, aprovada pelos deputados distritais por uma margem mínima de votos. Se ela for referendada, ainda vai precisar do sinal verde do Banco Central.

“O cerrado é uma esponja. Quando chove, ele suga a água e ela desce. Os rios do cerrado são subterrâneos e esses mananciais irrigam o lençol freático e as nascentes vão brotando”, disse Magno.

Não foi um passeio a aprovação da proposta na Câmara Legislativa e teve um custo político para o governador, pois três deputados da base governista votaram contra e já sofreram retaliação. Ibaneis exonerou todos os funcionários indicados por eles a cargos no governo do DF. Agora, deputados distritais discutem a abertura de uma CPI do Master proposta que a oposição já apresentou, mas não teve adesão dos governistas. Esses parlamentares do PL se dizem traídos e pode ser que a CPI seja instalada.

Mesmo diante de críticas de ambientalistas, Ibaneis Rocha (MDB) insiste em hipotecar uma área de 716 hectares da Serrinha do Paranoá da lista de imóveis públicos oferecidos como garantia a possíveis empréstimos do BRB. Parte da região, considerada estratégica para a recarga hídrica do DF, integra o conjunto de nove terrenos incluídos no Projeto de Lei nº 2.175/2026, aprovado pelos distritais para tentar capitalizar a instituição financeira diante do rombo provocado com as tenebrosas transações com o Master, cujo dono, Daniel Vorcaro, encontra-se preso na Papuda.

Em nota, a Terracap informou que a área identificada no PL como Gleba “A” não possui recursos hídricos, como rios, nascentes ou mananciais, nem está inserida em Área de Proteção Permanente (APP). “Destaca-se que a área é classificada como urbana, conforme estabelecido na Lei Complementar que revisa o Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT), sancionada em fevereiro de 2026, seguindo as mesmas diretrizes do PDOT anterior (2012)”, afirmou.

A Terracap informou, ainda, que as ocupações em processo de regularização na Arine Taquari II são apenas confrontantes, sem qualquer interferência ou sobreposição com a área da Gleba A. Segundo a companhia, os condomínios que possuem termos de compromisso firmados para fins de regularização não serão impactados, permanecendo o processo nos mesmos moldes atualmente adotados.

No entanto, o engenheiro ambiental e gestor de recursos hídricos Rodrigo Werneck explicou que, de fato, não há nascentes na área, mas que o local funciona como zona de recarga hídrica. “A cidade não pode ficar perdendo áreas de recarga. A fisionomia de campo do Cerrado que predomina ali é onde a água cai e se infiltra. É uma área de recarga que a gente tem que proteger. A luta é difícil, mas a gente quer proteger”, destacou Werneck, que recentemente participou de um estudo da Secretaria de Agricultura, responsável por mapear 119 nascentes na região.

A presidente da Rede de Preservação e Desenvolvimento Sustentável da Serrinha do Paranoá (Preserva Serrinha), Lúcia Mendes, reforçou que a decisão desconsidera a sensibilidade ambiental da região e disse esperar que o governo reavalie a medida. “Lamentamos que o governador não esteja aberto a reconsiderar essa decisão. Mas ainda esperamos poder convencê-lo”, afirmou.

Segundo ela, há a percepção de que informações incompletas sobre a região podem ter sido repassadas ao chefe do Executivo. “Temos a impressão de que a Terracap não repassou informações completas e consistentes sobre a sensibilidade ambiental dessa região da Serrinha ao governador”, declarou.

A ambientalista argumenta que a área já foi identificada como sensível em estudos oficiais. De acordo com ela, o Zoneamento Ecológico-Econômico do Distrito Federal (ZEE) classifica a região como área que exige proteção devido a riscos ambientais, como perda de Cerrado nativo, erosões, contaminação do solo e comprometimento da recarga de aquíferos. “Basta olhar para os mapas do ZEE e identificar os riscos existentes em cada área”, disse.

Mesmo em locais onde não há nascentes aparentes, como no caso da Gleba A, a vegetação do Cerrado desempenha papel fundamental no equilíbrio hídrico, explica a presidente da entidade. “Nos interflúvios, temos a vegetação que protege o solo e auxilia na infiltração da água para abastecer o lençol freático. Toda intervenção que interfere na permeabilidade do solo provoca impactos na disponibilidade de água”, assinalou.

Ela citou como exemplo os efeitos da urbanização em áreas próximas. Segundo Lúcia Mendes, a implantação do bairro Taquari I teria provocado redução de cerca de 30% na vazão de córregos da região. “Muitas nascentes do córrego Olho d’Água hoje estão secas ou se tornaram intermitentes, com água aflorando no solo apenas na época das chuvas”, relatou.

Para ela, a eventual ocupação da área pode comprometer a infiltração de água no solo e afetar nascentes e córregos que deságuam no Lago Paranoá. “Oferecer a área da Serrinha para provável construção de qualquer empreendimento provocará uma impermeabilização que comprometerá a infiltração e a permanência das nascentes e, por consequência, dos córregos”, afirmou.

Para a ambientalista, decisões sobre o futuro da área precisam considerar os impactos ambientais de longo prazo. “Dispor da Serrinha sem considerar os prejuízos que impactarão a produção e disponibilidade de água para Brasília é comprometer o futuro da cidade. Sem água, não haverá vida”, concluiu

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