Revelações sobre pagamentos para conteúdos favoráveis a Daniel Vorcaro expõem uso de campanhas digitais para pressionar o Banco Central. A manipulação nas redes coloca em xeque a atuação criminosa de influenciadores políticos
Trata-se de defesa financiada nas redes para detratar adversários, como no “gabinete do ódio” bolsonarista. Assim, o influenciador digital teria recebido cerca de R$ 2 milhões para defender nas redes digitais o banqueiro fraudador Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, em meio às investigações, fiscalizações e medidas adotadas pelo Banco Central contra a instituição financeira.
A informação, revelada pelo jornal O Globo, provocou forte repercussão no meio político e financeiro e trouxe à tona os obscuros bastidores de estratégia organizada de comunicação digital em defesa de interesses privados.
De acordo com a reportagem, os valores teriam sido destinados à produção e impulsionamento de conteúdos nas redes sociais com 2 objetivos centrais: reforçar narrativa favorável a Vorcaro e ao Banco Master e, simultaneamente, descredibilizar a atuação do Banco Central, retratando o órgão como excessivamente rigoroso ou politicamente motivado.
VERSÃO DO INFLUENCIADOR
Após a divulgação da reportagem, um dos influenciadores citados decidiu se manifestar publicamente.
Tentando negar ter recebido valores milionários, ele admitiu o crime e disse que firmou contrato formal de 3 meses, com cachê inicial de R$ 7,8 mil por postagem, valor que, segundo ele, poderia variar conforme o alcance e o engajamento dos conteúdos.
“O que existe é um contrato regular, com valores compatíveis com o mercado. Não há pagamento de R$ 2 milhões”, afirmou. Segundo o influenciador, os recursos teriam sido declarados e o contrato não previa qualquer atuação clandestina ou irregular.
Ele também buscou disfarçar seu envolvimento na defesa direta do empresário. “Não fui contratado para defender pessoa física. O conteúdo tratava de críticas institucionais ao Banco Central, dentro da liberdade de opinião”, disse e acrescentou: “Não faço nada escondido. Tudo foi acordado de forma transparente”.
Claro, transparentemente e regiamente pago e serviço de um elemento que, segundo as investigações, fraudou títulos no valor de R$ 12,2 bilhões, vendidos a uma instituição pública, o Banco Regional de Brasília (BRB).
CRÍTICAS AO BANCO CENTRAL
Os conteúdos publicados nas redes tinham como alvo principal decisões recentes do Banco Central, sobretudo no campo da supervisão bancária e da governança financeira.
Em vídeos, postagens e comentários, os influenciadores passaram a classificar a atuação do órgão como “excessiva”, “desproporcional” e “nociva ao ambiente de negócios”.
Na avaliação de especialistas, o discurso coincidiu com o momento mais sensível enfrentado pelo Banco Master, quando a instituição passou a sofrer maior escrutínio regulatório. “Há um alinhamento claro entre o interesse do banco e a narrativa difundida por esses perfis”, observa o analista do setor financeiro.
LOBBY DIGITAL E ZONA CINZENTA
Para especialistas em comunicação política e direito regulatório, trata-se de zona cinzenta. Melhor seria dizer: zona de bandidagem.
“Quando um influenciador é remunerado para sustentar determinada narrativa sobre políticas públicas ou órgãos de Estado, a fronteira entre opinião pessoal, publicidade e pressão política se torna difusa”, avalia pesquisador.
REPERCUSSÃO INSTITUCIONAL
O caso também despertou atenção no meio político. Parlamentares e técnicos de órgãos de controle passaram a discutir se campanhas desse tipo deveriam ser enquadradas como publicidade patrocinada de interesse econômico ou mesmo como lobby não declarado, especialmente quando envolvem temas sensíveis do sistema financeiro nacional.
Embora, até o momento, não haja confirmação de ilegalidade, o episódio ocorre em contexto de ampliação do escrutínio sobre influenciadores, impulsionado por investigações sobre desinformação, financiamento de conteúdo político e uso de redes digitais para pressionar instituições públicas.
TRANSPARÊNCIA EM DEBATE
Para críticos, a divergência entre os valores divulgados — R$ 2 milhões, segundo o jornal, contra R$ 7,8 mil por postagem, segundo o influenciador — não elimina a questão central.
“Mesmo que os valores sejam menores, permanece o problema do uso de audiência digital para influenciar o debate público em favor de interesses privados, sem a devida identificação clara do patrocínio”, avalia especialista em ética pública.
O caso reacende o debate sobre a necessidade de regras mais rígidas de transparência, identificação explícita de conteúdo patrocinado e limites para a atuação de influenciadores em temas regulatórios, especialmente quando envolvem instituições do Estado como o Banco Central.
Na verdade, coloca na ordem do dia a regulação das redes sociais. Não se pode normalizar um crime.
M. V.











