Infraestrutura precária e falta de banheiros geraram críticas no Carnaval de Rua de São Paulo

Com 40 mil participantes, Charanga do França contou com apenas 4 banheiros quimícos fornecidos pela Prefeitura - Foto: Reprodução/Redes Sociais

A apresentação de megablocos no circuito do Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, foi marcada por filas extensas e condições precárias nos banheiros químicos, agravadas pela chuva que atingiu a região na tarde de terça-feira (17). A falta de infraestrutura adequada fez com que a área dos sanitários ficasse alagada e lamacenta, dificultando o acesso dos foliões.

Relatos de participantes apontam a insatisfação com a infraestrutura. “Precisava ter mais banheiros limpos, esses aqui estão podres, sujos e com fila enorme, não tem suficiente para atender todo mundo”, criticou Jordana Nascimento, que participava do Carnaval na capital pela primeira vez. 

Outra foliã, Camila Gonçalves, relatou que a fila levou cerca de dez minutos, mas destacou a falta de pontos de banheiro ao longo do percurso: “Desde lá de trás nós só passamos por um ponto desses, agora que estamos perto da saída”.

A situação levou parte do público a urinar nos tapumes que delimitavam o circuito, próximo aos sanitários. Alguns foliões foram impedidos por policiais militares, mas a prática foi observada por equipes de imprensa e moradores da região.

Dados apurados pela imprensa indicam que a quantidade de banheiros químicos disponibilizados em 2026 foi reduzida em relação a edições anteriores. Neste ano, foram contratadas cerca de 15,3 mil diárias de sanitários para oito dias de programação, com média inferior a 2 mil equipamentos por dia. Em 2025, foram utilizadas aproximadamente 24 mil diárias, e em 2020, 21 mil, enquanto o planejamento inicial da Gestão Ricardo Nunes previa ao menos 33 mil.

A redução ocorreu apesar da expansão do Carnaval de rua, que deve reunir mais de 600 desfiles e uma estimativa de 16,5 milhões de pessoas na cidade. O contrato firmado entre a Prefeitura e a SPTuris para os banheiros químicos soma cerca de R$ 4,1 milhões.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou que a infraestrutura do evento “foi projetada considerando a magnitude da festa e o padrão adotado em edições anteriores, bem-sucedidas”. A Gestão municipal acrescentou que “a quantidade de banheiros foi definida após avaliações, bloco a bloco, por parte da SPTuris, com previsão inicial de 16 mil diárias, que poderá ser ampliada de acordo com a demanda”.

O vereador Nabil Bonduki (PT), urbanista e professor, criticou a organização do Carnaval e a falta de planejamento da prefeitura. “Tem amigos que viajaram e deixaram suas ruas, que viraram banheiro público. Isso afeta a vida das pessoas”.  E ressaltou: “A prefeitura precisa aprender a lição”. O parlamentar também enfatizou que “o Carnaval não pode ser apenas uma vitrine de marcas”. Para Nabil, o evento “precisa ser uma festa da cidadania cultural, que respeite os blocos comunitários, a segurança e o direito de quem brinca e de quem não brinca”.

As críticas ocorrem em meio a investigações do Ministério Público sobre a superlotação de megablocos na Avenida Consolação e a sobreposição de cortejos em horários e locais próximos, apontadas como fatores para tumultos, brigas e atendimentos médicos.

O Carnaval de rua de São Paulo é financiado majoritariamente por patrocínio privado, com repasses municipais intermediados pela SPTuris. Em 2026, o repasse foi de cerca de R$ 29 milhões, coberto principalmente por uma grande cervejaria, que obteve exclusividade na venda de bebidas e na exposição de marcas durante a festa. Apesar do discurso oficial de custeio privado, há gastos públicos adicionais com saúde, limpeza urbana, fiscalização de ambulantes e infraestrutura, além da mobilização do Estado para proteger interesses comerciais, impedindo a venda de produtos concorrentes.

A insuficiência de banheiros no circuito do Ibirapuera, somada à superlotação e a outras falhas de infraestrutura, evidencia problemas de planejamento do evento. A redução de equipamentos básicos em meio ao crescimento do público aponta um descompasso entre a expansão da festa e o investimento em serviços essenciais.

Parlamentares e especialistas afirmam que o modelo fortemente baseado em patrocínio tende a priorizar a exploração comercial do espaço público, enquanto infraestrutura e segurança ficam em segundo plano, levantando questionamentos sobre transparência e sobre o papel do poder público na organização do Carnaval.

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