“Nossas corajosas Forças Armadas estão preparadas e com o dedo no gatilho”, afirmou o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi
Diante das ameaças do ditador Donald Trump de repetir contra o Irã a agressão desencadeada contra a Venezuela, usando sua “linda armada” (sic), o governo iraniano advertiu que “está com o dedo no gatilho” e, entre outras ações, no dia da chegada do porta-aviões nuclear Abraham Lincoln ao Oriente Médio, inaugurou, na praça central de Teerã, um outdoor gigante, com a cena do porta-aviões sendo destruído por mísseis hipersônicos, sob a legenda “quem planta ventos colhe tempestades”.
“Nossas corajosas Forças Armadas estão preparadas – com os dedos no gatilho – para responder imediatamente e com força a QUALQUER agressão contra nossa amada terra, ar e mar. As valiosas lições aprendidas com a Guerra dos 12 Dias nos permitiram responder de forma ainda mais forte, rápida e profunda”, afirmou o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi.
O Irã também anunciou mais “1000 drones estratégicos” prontos para revidar a qualquer agressão, enquanto é amplamente sabido que os arsenais de mísseis do Irã estão recarregados e prontos para o que der e vier. O país reiterou que, se necessário, fechará o Estreito de Ormuz, por onde passa 37% do tráfego global de petróleo e gás.
Teerã advertiu ainda que os 40 mil soldados norte-americanos em nove bases no Oriente Médio serão alvo desde o primeiro momento e conclamou os vizinhos muçulmanos a não cederem às pressões de Trump.
Em depoimento ao Senado, o secretário de Estado Marco Rubio admitiu que todas as forças americanas destacadas no Oriente Médio estão ao alcance de mísseis e drones iranianos. “Temos entre 30.000 e 40.000 soldados americanos estacionados em oito ou nove instalações naquela região. Todos eles estão ao alcance de milhares de veículos aéreos não tripulados ( VANTs ) iranianos e mísseis balísticos de curto alcance que ameaçam nossa presença militar ” .
Em sua agressiva postagem, Trump escreveu que “assim como no caso da Venezuela”, a frota “está pronta, disposta e capacitada para cumprir sua missão, com rapidez e violência, se necessário”. Relatos da mídia ocidental assinalaram, entre os prováveis alvos de Trump, líderes iranianos e instalações das forças de elite.
Além do fim do enriquecimento de urânio, direito sob o TNP, o regime Trump quer obrigar Teerã a se desarmar dos mísseis balísticos que defendem o país da fúria sionista e fim do apoio que presta aos grupos que combatem o colonialismo de assentamento, apartheid e genocídio israelenses.
CHEGA DE ULTIMATOS
À ameaça, o chanceler iraniano Araghchi respondeu que, se Trump quer negociações, então deve parar com os ultimatos. No Conselho de Segurança da ONU, o representante iraniano, Amir Saeid Iravani, advertiu que o Irã “se defenderá e responderá como nunca antes” e que continua disposto a negociar com base no respeito, interesses mútuos e na Carta da ONU.
Ele destacou, ainda, como acabaram sendo as duas últimas guerras em que os EUA se enfiaram, jurando que seriam recebidos pela população “com flores”: US$ 7 trilhões, sete mil vidas de norte-americanos perdidas. Um atoleiro que perdurou por duas décadas, acelerando o declínio dos EUA que, de tão evidente, se tornou o mote para a própria campanha eleitoral de Trump, o MAGA, Make America Great Again.
Egito, Turquia, Arábia Saudita, Catar, Paquistão e Oman se pronunciaram contra o ataque e por negociações. A China, na ONU, rechaçou o “aventureirismo dos EUA” e exigiu o respeito à Carta da ONU. A Rússia instou a manter a diplomacia funcionando, alertando sobre o caos na região. Em uma videoconferência, os ministros da Defesa da Rússia e da China concordaram em intensificar a cooperação bilateral, diante dos novos acontecimentos nas relações internacionais, notadamente Venezuela e Irã.
Como de praxe, Trump usou sua rede Truth Social para exigir a rendição do Irã, dizendo que “o tempo está se esgotando” e ameaçando com um ataque “muito pior” do que os ataques traiçoeiros de 12 de junho passado, em meio à encenação de negociação. Sem entrar nos detalhes de que quem pediu penico então foi Netanyahu, diante da devastação sobre Israel da resposta iraniana.
FOLHA DE PARREIRA
As “armas nucleares” do Irã que não existem – se existissem, não estariam ameaçando bombardear, como demonstrou a Coreia do Norte – é só um pretexto para a investida de Trump, que se preocupa mesmo é com o petróleo, que é o substrato do petrodolar – e as enormes reservas iranianas.
Foi por causa do petróleo que a CIA e o MI6 realizaram a Operação Ájax, de derrubada do primeiro-ministro eleito Mossadegh em 1953, cujo “crime” era ter nacionalizado o petróleo, cuja “devolução” Washington e Londres exigiam. Para isso instalaram a ditadura do Xá Reza Pahlavi, que “devolveu” o petróleo à BP e à Standard Oil. E foi, afinal, deposto em 1979, por uma revolução popular e islâmica.
Como a motivação é o controle do petróleo, se não houvesse o pretexto das “armas nucleares” fabricariam outro. Como fizeram com as “armas de destruição em massa” do Iraque e, agora, “os cartéis de droga” na Venezuela.
A propósito, é o cúmulo do cinismo que Trump exija do Irã que “negocie um acordo justo e equilibrado” – quando foi ele mesmo, no seu primeiro mandato, que rasgou o acordo assinado por seu antecessor, Obama.
Acordo que, embora duro, trocava os controles mais rígidos de programa nuclear pacífico já aplicados pelo fim das sanções contra o país asiático e normalização das relações econômicas, co-assinado pelos outros quatro membros permanentes do CS da ONU e ainda pela Alemanha. Acordo que o Irã vinha cumprindo integralmente. E depois de rasgar o acordo, Trump não parou de agredir o Irã e inviabilizar qualquer negociação.
DECLÍNIO E ESCALADA
A ameaça de Trump também não se dá no vazio, mas em plena escalada do fascismo nos EUA, com declarações pela anexação do Canal do Panamá, Groenlândia e Canadá, provocações nas redes sociais com mapas com países anexados, guerra tarifária geral contra o mundo inteiro, execuções extrajudiciais realizadas por militares norte-americanos no Caribe e no Pacífico, sequestro do presidente legítimo da Venezuela, Nicolás Maduro, e ainda a assintosa proposta de uma “ONU fake”.
Além de, internamente, estar em curso deportações em massa de imigrantes pelo método mais racista e traumático possível, que resultaram inclusive no assassinato, à luz do dia, de dois cidadãos norte-americanos. E onde crianças de dois anos são seqüestradas e enviadas para as prisões de Trump.
REVOLUÇÃO COLORIDA FRACASSA
Em paralelo à agressão armada em violação explícita da Carta da ONU ameaçada por Trump, o Irã também se viu sob uma “revolução colorida”, em que protestos inicialmente em reação a súbita desvalorização da moeda, o rial, foram sequestrados por mercenários que buscaram jogar o país no abismo, a ponto de incendiarem mesquitas, delegacias policiais, prédios governamentais e hospitais. E que haviam sido orientados por seus mentores a disparar contra a população e contra os policiais, para impor o caos.
Depravação que acabou barrada pelas forças de segurança iranianas, após bloquearem as redes sociais e a rede Starlink, o que desmontou a coordenação entre os terroristas a partir de fora, levando ao fracasso.
Curiosamente, o ataque especulativo contra o rial que desencadeou os protestos ocorreu no mesmo dia em que Trump recebia em Washington o primeiro-genocida Benjamin Netanyahu.
HIPOCRISIA EUROPEIA
Na quarta-feira, reunião dos chanceleres da União Europeia aprovou designar a força de elite militar do Irã, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), como “organização terrorista”, supostamente pelo papel que teve na derrota da intentona mercenária do início de janeiro.
Araghchi acusou a Europa de “avivar as chamas” do conflito e lembrou que, após impulsionar o mecanismo de ‘snapback’ a pedido dos Estados Unidos [restaurando ilegalmente as sanções em outubro], a União Europeia volta agora a se alinhar a Washington em sua política em relação a Teerã.
O ministro iraniano também criticou a “hipocrisia” europeia, afirmando que o bloco não tomou “nenhuma medida” diante do genocídio cometido por Israel na Faixa de Gaza, mas se apressa em “defender os direitos humanos” no Irã.
Araghchi advertiu ainda que, no caso de uma guerra total na região, o continente europeu seria “massivamente afetado”, inclusive pelo impacto significativo nos preços da energia. Ele concluiu que a atual posição da UE “prejudica profundamente seus próprios interesses” e afirmou que “os europeus merecem algo melhor do que aquilo que seus governos têm a oferecer”.
O Estado-Maior das Forças Armadas do Irã classificou a decisão do bloco europeu como “ilógica, irresponsável e carregada de rancor”, segundo informou a agência oficial iraniana. Inclusive pelo papel do CGRI na derrota do Estado Islâmico. Em comunicado divulgado nesta quinta-feira, o órgão militar afirmou que a medida se insere “sem dúvida” em uma obediência “incondicional” às políticas “hegemonistas e desumanas” dos Estados Unidos e de Israel.
ORMUZ
Teerã revelou uma rede de “túneis subaquáticos de mísseis” e alertou que o Estreito de Ormuz “não será seguro” se a República Islâmica for atacada pelos EUA, informou a televisão estatal iraniana.
Imagens exibidas na televisão estatal iraniana mostraram o comandante da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) do Irã, Alireza Tangsiri, dentro das instalações de mísseis submarinos, exibindo fileiras de mísseis de cruzeiro supostamente capazes de atingir alvos a mais de 1.000 quilômetros (621 milhas) de distância com sistemas inteligentes de orientação.
“Nossas capacidades estão em constante desenvolvimento”, disse Tangsiri, acrescentando que as forças iranianas estão prontas para lidar com qualquer ameaça “em qualquer nível e em qualquer geografia.”
O Irã recebe informações em tempo real “do céu, da superfície e debaixo das águas do Estreito”, acrescentou.
A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã realizará exercícios militares com munição real no Estreito de Ormuz na próxima semana, anunciou a Press TV nesta quinta-feira (29).
Sem o Estreito fechar, só pelas provocações de Trump ao Irã, já são indisfarçáveis as repercussões nos preços do petróleo e do ouro, segundo a Reuters. O WTI aumentou 5,1%, para US$ 64,43 por barril, enquanto o Brent subia 5%, para US$ 71,84 por barril, após ultrapassar a marca de US$ 70 pela primeira vez desde setembro. O preço do ouro disparou e atingiu um novo recorde, com cotação próxima de US$ 5.600 (mais de R$ 29 mil) por onça (31,1 gramas).











