Irã: vencendo perseguições aos 47 anos de sua Revolução

Vista de Teerã, capital do Irã (foto de Mohammad Amirahmadi na Unsplash)


BETO ALMEIDA

Os olhos do mundo estão voltados hoje para a nação iraniana, ameaçada de bombardeio, outra vez, pelo governo de Donald Trump, como se tivesse um mandato supremo para demonstrar sua superioridade militar e, com ela, ameaçar qualquer outro país pelo simples fato de que cometa o “crime” de escolher seu próprio modelo de economia e de política, com base em sua tradição histórica e cultural, bem como de desenvolvimento científico e tecnológico, que lhe permitiu significativos saltos de progresso, mundialmente reconhecidos.

Essas novas ameaças surgem quando, neste 11 de fevereiro, a nação persa comemora os 47 anos da Revolução Islâmica, que enterrou no lixo da história uma monarquia decrépita, que praticava assassinatos e torturas em massa com sua selvagem polícia política, a Savak, lá organizada pelo imperialismo inglês, de quem o regime do xá Reza Pahlev era vassalo, a ele entregando todo o seu abundante petróleo.

Nesses 47 anos de revolução, o Irã experimentou uma robusta transformação de natureza política, a começar pela instalação de eleições pelo voto direto para todos os cargos, o que se registra regularmente desde então, apesar de todos os ataques que o país sofreu dos EUA e de outros países da Otan, do Iraque por oito anos, sob manipulação do Pentágono, e, especialmente, de Israel, possuidor ilegal de armas nucleares fornecidas pelos EUA, que já assumiu ter assassinado mais de 30 cientistas nucleares iranianos.

O que a humanidade constata é que o governo dos EUA busca impedir, ilegalmente, que um país tantas vezes atacado nestes 47 anos de revolução, com tantas vidas perdidas para levar à frente suas transformações, sempre chanceladas pela eleição de seus governantes pelo voto direto, tenha o legítimo direito de defesa.

A hipocrisia dos EUA e dos países otanistas, bem como da mídia oligopolizada internacional, torna-se evidente, já que todos esses atores admitem e apoiam que Israel, ao arrepio da legislação internacional, possua centenas de ogivas nucleares, enquanto ao Irã é vedado, de modo discricionário, o direito elementar de possuir um programa nuclear para fins pacíficos, como outros países possuem. Trata-se de evidente e intolerável perseguição contra a nação persa.

Recentemente, o Irã foi alvo de manifestações organizadas a partir de ações de governos estrangeiros, como admitiu o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Besson, por meio de sabotagem monetária que afetou a economia popular e os preços de produtos básicos de grande consumo, do que se aproveitaram organismos como o Mossad, de larga tradição em operações terroristas, para provocar atos de violência que causaram inúmeras mortes.

Cinicamente, a imprensa sempre hostil ao Irã, como o decadente jornal inglês The Guardian, estampou números inacreditáveis de vítimas, bem ao estilo do nazista Goebbels, para conduzir a uma condenação mundial ao regime iraniano, em sincronia com as manobras militares dos EUA nas águas territoriais iranianas. Mas, quando milhões de cidadãos persas foram às ruas para defender seu governo, essa mesma mídia ocidental se calou, vergonhosamente.

As ameaças ao Irã, essencialmente às suas conquistas nestes 47 anos de revolução, explicam-se pela intolerância do imperialismo norte-americano, bem como de seus comparsas da falsa democracia europeia, tão decadentes quanto rigorosamente intolerantes contra países que ousam construir novos modelos e colaborar para uma nova arquitetura internacional multilateral – o Irã é integrante do Brics – e devem servir de alerta e reflexão ao Brasil, especialmente porque nosso país, apesar das imensas potencialidades, optou por obedecer, de modo vassalo, a ordens dos EUA para abdicar de seu programa nuclear, praticamente paralisado há décadas, além de ter registrado na Constituição a proibição da produção de armas nucleares em território nacional, ainda que isso signifique, obviamente, uma renúncia unilateral que deixa um país tão rico e tão cobiçado pateticamente desarmado.

Algumas comparações são pouco confortáveis para o Brasil. Enquanto o Programa Nuclear Brasileiro está paralisado, com todo um volume de investimentos inutilizados, incompatível com a existência de capacidade humana e riqueza mineral próprias, indicando um comportamento de país colonizado desde as medidas adotadas no governo FHC, seguidas fielmente pelos governos posteriores, o Irã é um país com significativos avanços na tecnologia nuclear aplicada para fins pacíficos, especialmente em seus avanços energéticos e medicinais, muito embora também tenha direito ao exercício de sua legítima defesa, como reza a legislação internacional.

Também praticamente paralisado está o programa espacial brasileiro, enquanto o programa espacial iraniano, iniciado após a Revolução Islâmica de 1979, já registra avanços notáveis, entre os quais o lançamento de naves tripuladas, pilotadas por cosmonautas mulheres, o que indicaria um tremendo desconforto para os críticos mundiais que tentam negar os progressos alcançados no período revolucionário, entre outros a nacionalização da indústria petroleira, a existência de uma indústria de defesa moderna e dotada de tecnologia totalmente nacional.

No campo cultural, o cinema iraniano já registra amplo reconhecimento internacional, especialmente por sua talentosa temática humanista. Além disso, enquanto a Revolução Iraniana revela-se como o país mais solidário à causa palestina hoje, solidariedade traduzida em atitudes concretas, pelo que tem sido criminosamente agredido por Israel e pelos EUA, responsáveis pelo genocídio palestino, a participação brasileira nesse contexto é tímida e modesta: sequer suspendeu o envio de petróleo e carne para o regime sionista, apesar das declarações de Lula.

Enquanto, na mídia brasileira, sempre conivente com as ilegalidades e práticas de terror sionistas, surgem artigos, como na Folha de S.Paulo, intitulado “A hipocrisia do silêncio”, de Claudio Lottenberg e Marcos Knobel, pedindo ao Brasil a imprópria condenação do Irã, que não é agressor, mas sim vítima, o que sugerimos é que o governo brasileiro e as forças progressistas ampliem e reforcem sua solidariedade ao povo persa, seja por sua solidariedade à causa palestina, mas também por sua presença no cenário político internacional, exemplo para um mundo aterrorizado com o genocídio palestino.

Além disso, sugerimos também que se promova uma ampla reflexão no movimento progressista brasileiro sobre similaridades e particularidades entre Irã e Brasil, países que podem desempenhar um protagonismo cada vez mais elevado na cena internacional, desde que consigam adotar os passos indispensáveis para alcançar independência tecnológica e econômica.

No caso iraniano, que há 47 anos enfrenta guerras, sabotagens, bombardeios e sanções organizadas pelo Ocidente–Otan, que seja respeitada a soberania sobre seu modelo de desenvolvimento, responsável por ter transformado o país em uma das grandes potências regionais, retirando-se todas as ameaças e perseguições que nunca foram detidas, em desrespeito ao direito internacional.

Já no caso brasileiro, que, em cooperação voluntária com a República Persa, possa, em benefício de seus respectivos povos, avançar em medidas de independência tecnológica, como no Programa Nuclear Brasileiro e no Programa Espacial Brasileiro, sempre visando impulsionar uma comunidade de países que tenham capacidades suficientes para não serem barrados e contidos pelos EUA e seus sócios, e para que alcancem a superação de todas as suas vulnerabilidades externas e internas e, especialmente para o Brasil, livrando-se das torpes desigualdades sociais, injustificáveis em uma nação de riquezas tão abundantes.

Beto Almeida é jornalista, conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

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