Imagens de satélite apontam que a maioria das demolições ocorreu em áreas sob controle israelense após o acordo firmado com os palestinos. Conforme o Unicef, ao menos uma criança perde a vida a cada dia, frisando que “o número real de crianças mortas é provavelmente maior”
Israel continua colocando abaixo prédios residenciais e demolindo completamente a infraestrutura da Faixa de Gaza, espalhando a morte e o caos, apesar de ter assinado um pretenso “acordo de cessar-fogo” há mais de dois meses com as autoridades locais, informou o New York Times nesta segunda-feira (12).
Pelo menos 2.500 prédios viraram ruína apontou o NYT, embora grande parte da destruição tenha ocorrido na parte do território ocupada ostensivamente controlada pelas tropas de Netanyahu, segundo as imagens de satélite obtidas pela Planet Labs. Com o apoio ostensivo de Donald Trump, a prática israelense de bombardeios massivos viola abertamente os compromissos assinados, incluído o de pôr fim à política de terrorismo de Estado na região.
Um relatório da ONU do ano passado constatou que até 80% dos edifícios de Gaza foram danificados ou destruídos durante os ataques de quase dois anos que devastaram grande parte do enclave, deslocando mais de um milhão e meio de habitantes, tirando a vida de 71.424 palestinos e ferindo cerca de 172 mil.
“CENTENAS DE CRIANÇAS FICARAM FERIDAS”
“Mais de 100 crianças foram mortas em Gaza desde o cessar-fogo do início de outubro. Isso equivale a aproximadamente uma menina ou um menino morto por dia”, alerta o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). “Desde o cessar-fogo registramos relatos de pelo menos 60 meninos e 40 meninas mortos na Faixa de Gaza. O número de 100 reflete apenas os incidentes em que havia detalhes suficientes para serem registrados, portanto, o número real de crianças palestinas mortas provavelmente é maior. Centenas de crianças ficaram feridas”, enfatizou o comunicado.
Como relatou o analista político Mohammed Al-Asta ao jornal estadunidense: “Os militares israelenses estão destruindo tudo em seu caminho – casas, escolas, fábricas e ruas”. Não há justificativa de segurança para o que estão fazendo. “Israel está apagando áreas inteiras do mapa”, sintetizou Al-Asta, descrevendo o que viu em Gaza.
Um ex-oficial militar israelense classificou a atividade como “destruição absoluta”. Indo além, Shaul Arieli, ex-comandante que serviu em Gaza na década de 1990, frisou: “Não se trata de destruição seletiva, é tudo”.
De acordo com um representante do Hamas, as ações de Israel violam completamente os termos do cessar-fogo. “O acordo não é vago, é claro. Destruir casas e propriedades não é permitido. São ações hostis”, concluiu.
Segundo o acordo de paz que Israel insiste em descumprir, as tropas sionistas recuaram para além de uma linha previamente definida, o que deu a Netanyahu o controle de cerca de metade do enclave palestino. As imagens de satélite analisadas pelo NYT apontam que a maior parte das demolições ocorreu no bairro de Shejaiya, sob domínio israelense.
“GENOCÍDIO É CONTROLADO PELA FOME”
O diretor-geral do Ministério da Saúde em Gaza, Muneer al-Boursh, descreveu a imposição de “engenharia da morte lenta”. “Quando o genocídio é controlado por meio da fome, o genocídio em Gaza deixa de ser perpetrado apenas com bombas”, protestou.
Conforme apontam as organizações humanitárias internacionais e as Nações Unidas grande parte da ajuda à região consiste em itens alimentares não nutritivos, enquanto medicamentos, vitaminas, alimentos saudáveis e fórmulas infantis têm sua entrada, em sua maioria, negada.
Além disso, o porta-voz da Defesa Civil de Gaza, Mahmoud Basal, acusou Israel de restringir a entrada de abrigos necessários, caravanas e materiais de construção em Gaza, tornando ainda mais grave o desastre sofrido pelo território. “Uma nova tempestade polar está se aproximando de Gaza, e o que está por vir será catastrófico”, alertou Basal, acrescentando que os próximos dias trarão “mortes evitáveis”.
“ESTÃO MORRENDO LENTAMENTE”
Em comunicado divulgado nesta terça-feira (13) o governo de Gaza esclareceu que “estão morrendo lentamente”, lembrando que mais de 7.000 tendas foram levadas pela correnteza nos últimos dois dias devido aos fortes ventos e à chuva intensa.
“Isto é especialmente preocupante, dada a quase total falta de aquecimento, a ausência de abrigo seguro e a grave escassez de cobertores e roupas de inverno, juntamente com as contínuas restrições à entrega de ajuda humanitária suficiente”, disse.
“Surpreendentemente, conseguimos realizar reparos urgentes e vitais em encanamentos de água, estações de bombeamento e redes de esgoto, tudo graças à engenhosidade palestina, e não à entrada de peças de reposição permitidas”, confirmou o Unicef.
“SITUAÇÃO TRÁGICA E DESOLADORA”
Diretor do Complexo Médico al-Shifa em Gaza, Muhammad Abu Salmiya anunciou a disseminação de vírus respiratórios que “provavelmente são cepas mutantes da gripe ou do coronavírus”. Salmiya relatou a continuidade da morte de crianças e idosos que sucumbiram a problemas respiratórios.
Para o especialista em saúde pública, a situação em Gaza é “trágica e desoladora” devido aos efeitos combinados da guerra genocida de Israel e da propagação de epidemias entre os deslocados, que sofrem com a falta de imunidade, enquanto a fome e a desnutrição se agravam.











