Suas candidaturas foram marcadas pela luta contra a desigualdade econômica, sanções ao regime sul-africano de apartheid, fim ao bloqueio contra Cuba, negociações com a União Soviética e apoio ao estabelecimento do Estado da Palestina
Quando o reverendo Jesse Jackson concorreu a presidente dos Estados Unidos pela primeira vez em 1984 e até pela segunda vez em 1988, relata o então estudante de pós-graduação, agora respeitado economista, Dean Baker, “não havia um único governador negro nos Estados Unidos. Não havia governadores negros desde o fim da Reconstrução. Também não havia senadores negros.”
“Provavelmente é difícil para os mais jovens imaginarem, e até para veteranos como eu, lembrarem o quão grave era a discriminação no passado não muito distante”, ele pontua, ao se manifestar sobre o recém falecido líder da luta pelos direitos civis, isto é, contra o apartheid, e discípulo de Martin Luther King – e sobre seu papel para desmontar os espessos muros da segregação.
Na Universidade de Michigan, onde Baker estudava, só havia dois professores negros com estabilidade na universidade inteira – e era assim por todo lado, no país inteiro.
“Lembro de conversar com um repórter naquela noite, depois que a dimensão da vitória de Jackson ficou clara. Até aquele momento, havia inúmeras matérias na mídia perguntando: ‘O que Jesse Jackson realmente quer?’ como se a ideia de que uma pessoa negra quer ser presidente fosse absurda à primeira vista”, relata o economista. Na primeira tentativa, foram 3,3 milhões de votos; na segunda, mais do dobro. Estava aberto o caminho para as candidaturas negras.
POR JUSTIÇA ECONÔMICA
Era uma candidatura que, em tempos de furor reaganista, insânia armamentista e ascensão neoliberal, propugnava por justiça econômica – ou como ele gostava de dizer, “por uma economia coletiva” – e “contra a guerra”.
Jackson uniu “a luta contra a opressão racial em casa e contra as políticas imperialistas no exterior”, destacou a editora da revista The Nation, Katrina vanden Heuvel. “A guerra corroi a democracia”, ela se recorda dele dizendo.
Baker contrasta essa situação dura vivida pelos “perdedores” – isto é, a grande maioria – com o “revisionismo bizarro” de certos intelectuais que acreditam que as décadas de 1970 e 1980 nos EUA foram uma “Era de Ouro”.
“A taxa de desemprego foi média superior a 7% de 1974 a 1992. O salário mediano na verdade caiu de 1973 até meados da década de 1990”, enquanto se desencadeava uma redistribuição de renda, dos debaixo, para o alto da pirâmide. “Jackson falou com essas pessoas, os perdedores”.
“Numa época em que Ronald Reagan estava ocupado cortando impostos para os ricos e diminuindo programas sociais, e o comércio devastava grandes partes do Meio-Oeste industrial, Jackson defendia uma agenda populista focada em fortalecer os pobres e a classe trabalhadora. Sua mensagem ressoou com muitos trabalhadores brancos que se sentiam abandonados pela corrente principal do Partido Democrata, e até mesmo com muitos agricultores devastados pelo dólar supervalorizado no início e meados dos anos 1980”, registrou Baker. E foi assim que se formou sua Coalizão Arco Íris.
Também se posicionou contra a desindustrialização, uma espécie de efeito colateral da hiperfinanceirização do país e do mundo unipolar que estava sendo parido. No início de 1988, Jackson organizou uma assembléia na ex-fábrica de montagem da American Motors em Kenosha, Wisconsin, aproximadamente duas semanas depois que a nova proprietária, Chrysler, anunciou que a fecharia no fim do ano. Em seu discurso, Jackson manifestou-se contra a decisão da Chrysler, afirmando: “Precisamos enfocar Kenosha, Wisconsin, como o lugar, aqui e agora, onde marcamos uma posição para dar um basta à violência econômica!”.
UM PROGRAMA AVANÇADO
A campanha de Jackson propunha recriar a infra-estrutura dos Estados Unidos e proporcionar empregos a todos os americanos. Reverter a política econômica da era Regan em favor dos mais ricos, taxando suas fortunas em dez por cento e destinando o dinheiro ao financiamento de programas de bem-estar social
No combate às drogas, propunha deslocar a ênfase na punição aos usuários, de nítido viés racista, para a rigorosa punição dos banqueiros implicados na lavagem de dinheiro e na cúpula dos traficantes
Também propunha conceder indenizações aos descendentes de escravos negros e apoiar a agricultura familiar, restabelecendo muitos dos programas do New Deal da era Roosevelt.
Criava um sistema único de pagamento de planos de saúde, ao alcance de toda a população.
Chamava a aumentar as subvenções federais para a educação básica e proporcionar o ensino secundário gratuito para todos. Reforço da Lei dos Direitos de Voto e ratificação da Emenda de Igualdade de Direitos.
Cortar até quinze por cento do orçamento do Departamento de Defesa, ao longo de sua presidência. Instituir imediatamente o congelamento dos arsenais nucleares e dar início a negociações de desarmamento com a União Soviética. Declarar a África do Sul da era do apartheid uma nação indigna e apoiar a formação de um Estado palestino.
Com exceção da resolução para implementar sanções contra a África do Sul do apartheid, nenhuma dessas propostas foi incorporada à plataforma democrata, em 1984 ou 1988.
Jackson também sempre denunciou que a “guerra às drogas” de Nixon tornou-se, desde o início, “uma nova ofensiva de segregação racial contra pessoas de cor. Embora os brancos abusem de drogas em taxas mais altas do que os afro-americanos, os afro-americanos são encarcerados dez vezes mais do que os brancos por crimes relacionados a drogas.” Milhões foram “privados do direito ao voto após serem condenados por crimes não violentos” e são 2,3 milhões os que estão atualmente em situação de superlotação nos presídios dos EUA.
Para milhões de negros, que tiveram que percorrer nesses tempos a busca da autoestima, ainda ressoa o chamado de Jackson: “Eu sou Alguém, posso ser pobre, mas eu sou Alguém; Posso ser jovem; mas eu sou Alguém; Posso estar na assistência social, mas sou Alguém.”
CONTRA A GUERRA
Ao longo de sua vida, reuniu-se com diversos líderes no mundo inteiro, no esforço para avançar a causa da paz e para isolar o belicismo norte-americano. Esteve com Fidel e foi a Belgrado se reunir com Milosevic, quando era iminente o ataque à Iugoslávia. Sua voz não se calou diante da guerra suja patrocinada por Washington na América Central, nem perante o apartheid sul-africano apoiado por Reagan e Thatcher.
Quando a ameaça de guerra nuclear se estendeu sobre a Europa, com a crise dos mísseis de alcance intermediário, lá estava Jackson nos gigantescos protestos que tiveram lugar.
Na manifestação de 1 milhão de pessoas em Londres contra a guerra ao Iraque em 2003, a do “no blood for oil”, Jackson foi um dos oradores. Também na que reuniu 100 mil em Washington.

Em agosto de 2005 ele viajou à Venezuela para encontrar-se com o presidente Hugo Chávez, após declaração do tele-evangélico Pat Robertson sugerindo o assassinato do líder venezuelano, o que Jackson taxou de “imoral”. Após encontrar-se com Cháves e manifestar-se no parlamento em Caracas, Jackson declarou que não havia provas de que a Venezuela representasse uma ameaça aos Estados Unidos.
Ele também lutou pelo reconhecimento da Palestina e pela paz no Oriente Médio. Na Convenção Democrata de 1984 a indicação do nome de Jackson à presidência foi feita pelo palestino-americano James Zogby, cujos pais imigraram para os EUA sem documentos. “O filho de um imigrante indocumentado indicou o bisneto de escravos para presidente”, lembrou Zogby na homenagem. Jackson foi o primeiro candidato à presidência nos EUA a abordar a questão dos direitos palestinos.
HOMENAGENS
Atuação que explica as homenagens a Jackson que vêm do mundo inteiro. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, lembrou que “o reverendo Jackson emprestou sua poderosa voz à ONU para lutar contra o racismo, contra o apartheid e em prol dos direitos humanos, inclusive participando de diversos eventos” da organização, enfatizou seu porta-voz, Stéphane Dujarric.
Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba, exaltou o “ativista pelos direitos civis e pela justiça em seu país e defensor de causas justas em outras partes do mundo”; o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez, afirmou que Jackson será lembrado naquele país “por sua conduta respeitosa e amigável para com Cuba, por seus esforços na construção de pontes e por sua história de luta pela justiça”.

Sua voz era a “consciência da nação”, afirmou a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, destacando sua relação fraterna com o presidente Chávez, com quem manteve encontros e diálogos em defesa do entendimento entre os Estados Unidos e a Venezuela, apoiando iniciativas de solidariedade como o fornecimento de combustível para aquecimento a comunidades vulneráveis nos Estados Unidos por meio da subsidiária da Petróleos de Venezuela naquele país.
Um “amigo da Colômbia”, assinalou o presidente Gustavo Petro e o descrevendo como “um ser humano extraordinário que dedicou sua vida à luta pela igualdade e justiça”.
O presidente sul-africano Cyril Ramaphosa declarou estar “em dívida com a energia, a clareza de princípios e o risco pessoal com que ele apoiou nossa luta e fez campanha pela liberdade e igualdade em outras partes do mundo”, e destacou suas campanhas para acabar com o apartheid.











