Jesse Jackson deu voz à luta contra segregação nos EUA, apartheid na África do Sul e agressão ao Iraque

Jesse Jackson em recepção a Nelson Mandela nos Estados Unidos (David Turnley/Corbis)

Suas candidaturas foram marcadas pela luta contra a desigualdade econômica, sanções ao regime sul-africano de apartheid, fim ao bloqueio contra Cuba, negociações com a União Soviética e apoio ao estabelecimento do Estado da Palestina

Quando o reverendo Jesse Jackson concorreu a presidente dos Estados Unidos pela primeira vez em 1984 e até pela segunda vez em 1988, relata o então estudante de pós-graduação, agora respeitado economista, Dean Baker, “não havia um único governador negro nos Estados Unidos. Não havia governadores negros desde o fim da Reconstrução. Também não havia senadores negros.”

“Provavelmente é difícil para os mais jovens imaginarem, e até para veteranos como eu, lembrarem o quão grave era a discriminação no passado não muito distante”, ele pontua, ao se manifestar sobre o recém falecido líder da luta pelos direitos civis, isto é, contra o apartheid, e  discípulo de Martin Luther King – e sobre seu papel para desmontar os espessos muros da segregação.

Na Universidade de Michigan, onde Baker estudava, só havia dois professores negros com estabilidade na universidade inteira – e era assim por todo lado, no país inteiro.

“Lembro de conversar com um repórter naquela noite, depois que a dimensão da vitória de Jackson ficou clara. Até aquele momento, havia inúmeras matérias na mídia perguntando: ‘O que Jesse Jackson realmente quer?’ como se a ideia de que uma pessoa negra quer ser presidente fosse absurda à primeira vista”, relata o economista. Na primeira tentativa, foram 3,3 milhões de votos; na segunda, mais do dobro. Estava aberto o caminho para as candidaturas negras.

POR JUSTIÇA ECONÔMICA

Era uma candidatura que, em tempos de furor reaganista, insânia armamentista e ascensão neoliberal, propugnava por justiça econômica – ou como ele gostava de dizer, “por uma economia coletiva” – e “contra a guerra”.

Jackson uniu “a luta contra a opressão racial em casa e contra as políticas imperialistas no exterior”, destacou a editora da revista The Nation, Katrina vanden Heuvel. “A guerra corroi a democracia”, ela se recorda dele dizendo.

Baker contrasta essa situação dura vivida pelos “perdedores” – isto é, a grande maioria – com o “revisionismo bizarro” de certos intelectuais que acreditam que as décadas de 1970 e 1980 nos EUA foram uma “Era de Ouro”.

“A taxa de desemprego foi média superior a 7% de 1974 a 1992. O salário mediano na verdade caiu de 1973 até meados da década de 1990”, enquanto se desencadeava uma redistribuição de renda, dos debaixo, para o alto da pirâmide. “Jackson falou com essas pessoas, os perdedores”.

“Numa época em que Ronald Reagan estava ocupado cortando impostos para os ricos e diminuindo programas sociais, e o comércio devastava grandes partes do Meio-Oeste industrial, Jackson defendia uma agenda populista focada em fortalecer os pobres e a classe trabalhadora. Sua mensagem ressoou com muitos trabalhadores brancos que se sentiam abandonados pela corrente principal do Partido Democrata, e até mesmo com muitos agricultores devastados pelo dólar supervalorizado no início e meados dos anos 1980”, registrou Baker. E foi assim que se formou sua Coalizão Arco Íris.

Também se posicionou contra a desindustrialização, uma espécie de efeito colateral da hiperfinanceirização do país e do mundo unipolar que estava sendo parido. No início de 1988, Jackson organizou uma assembléia na ex-fábrica de montagem da American Motors em Kenosha, Wisconsin, aproximadamente duas semanas depois que a nova proprietária, Chrysler, anunciou que a fecharia no fim do ano.  Em seu discurso, Jackson manifestou-se contra a decisão da Chrysler, afirmando: “Precisamos enfocar Kenosha, Wisconsin, como o lugar, aqui e agora, onde marcamos uma posição para dar um basta à violência econômica!”. 

UM PROGRAMA AVANÇADO

A campanha de Jackson propunha recriar a infra-estrutura dos Estados Unidos e proporcionar empregos a todos os americanos. Reverter a política econômica da era Regan em favor dos mais ricos, taxando suas fortunas em dez por cento e destinando o dinheiro ao financiamento de programas de bem-estar social

No combate às drogas, propunha deslocar a ênfase na punição aos usuários, de nítido viés racista, para a rigorosa punição dos banqueiros implicados na lavagem de dinheiro e na cúpula dos traficantes

Também propunha conceder indenizações aos descendentes de escravos negros e apoiar a agricultura familiar, restabelecendo muitos dos programas do New Deal da era Roosevelt.

Criava um sistema único de pagamento de planos de saúde, ao alcance de toda a população.

Chamava a aumentar as subvenções federais para a educação básica e proporcionar o ensino secundário gratuito para todos. Reforço da Lei dos Direitos de Voto e ratificação da Emenda de Igualdade de Direitos.

Cortar até quinze por cento do orçamento do Departamento de Defesa, ao longo de sua presidência. Instituir imediatamente o congelamento dos arsenais nucleares e dar início a negociações de desarmamento com a União Soviética. Declarar a África do Sul da era do apartheid uma nação indigna e apoiar a formação de um Estado palestino.

Com exceção da resolução para implementar sanções contra a África do Sul do apartheid, nenhuma dessas propostas foi incorporada à plataforma democrata, em 1984 ou 1988.

Jackson também sempre denunciou que a “guerra às drogas” de Nixon tornou-se, desde o início, “uma nova ofensiva de segregação racial contra pessoas de cor. Embora os brancos abusem de drogas em taxas mais altas do que os afro-americanos, os afro-americanos são encarcerados dez vezes mais do que os brancos por crimes relacionados a drogas.” Milhões foram “privados do direito ao voto após serem condenados por crimes não violentos” e são 2,3 milhões os que estão atualmente em situação de superlotação nos presídios dos EUA.

Para milhões de negros, que tiveram que percorrer nesses tempos a busca da autoestima, ainda ressoa o chamado de Jackson: “Eu sou Alguém, posso ser pobre, mas eu sou Alguém; Posso ser jovem; mas eu sou Alguém; Posso estar na assistência social, mas sou Alguém.”

CONTRA A GUERRA

Ao longo de sua vida, reuniu-se com diversos líderes no mundo inteiro, no esforço para avançar a causa da paz e para isolar o belicismo norte-americano. Esteve com Fidel e foi a Belgrado se reunir com Milosevic, quando era iminente o ataque à Iugoslávia. Sua voz não se calou diante da guerra suja patrocinada por Washington na América Central, nem perante o apartheid sul-africano apoiado por Reagan e Thatcher.

Quando a ameaça de guerra nuclear se estendeu sobre a Europa, com a crise dos mísseis de alcance intermediário, lá estava Jackson nos gigantescos protestos que tiveram lugar.

Na manifestação de 1 milhão de pessoas em Londres contra a guerra ao Iraque em 2003, a do “no blood for oil”, Jackson foi um dos oradores. Também na que reuniu 100 mil em Washington.

Jesse Jackson em manifestação contra agressão ao Iraque (Redes Sociais)

Em agosto de 2005 ele viajou à Venezuela para encontrar-se com o presidente Hugo Chávez, após declaração do tele-evangélico Pat Robertson sugerindo o assassinato do líder venezuelano, o que Jackson taxou de “imoral”.  Após encontrar-se com Cháves e manifestar-se no parlamento em Caracas, Jackson declarou que não havia provas de que a Venezuela representasse uma ameaça aos Estados Unidos.

Ele também lutou pelo reconhecimento da Palestina e pela paz no Oriente Médio. Na Convenção Democrata de 1984 a indicação do nome de Jackson à presidência foi feita pelo palestino-americano James Zogby, cujos pais imigraram para os EUA sem documentos. “O filho de um imigrante indocumentado indicou o bisneto de escravos para presidente”, lembrou Zogby na homenagem. Jackson foi o primeiro candidato à presidência nos EUA a abordar a questão dos direitos palestinos.

HOMENAGENS

Atuação que explica as homenagens a Jackson que vêm do mundo inteiro. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, lembrou que “o reverendo Jackson emprestou sua poderosa voz à ONU para lutar contra o racismo, contra o apartheid e em prol dos direitos humanos, inclusive participando de diversos eventos” da organização, enfatizou seu porta-voz, Stéphane Dujarric.

Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba, exaltou o “ativista pelos direitos civis e pela justiça em seu país e defensor de causas justas em outras partes do mundo”; o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez, afirmou que Jackson será lembrado naquele país “por sua conduta respeitosa e amigável para com Cuba, por seus esforços na construção de pontes e por sua história de luta pela justiça”.

Jesse Jackson em visita a Fidel em Cuba (Redes Sociais)

Sua voz era a “consciência da nação”, afirmou a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, destacando sua relação fraterna com o presidente Chávez, com quem manteve encontros e diálogos em defesa do entendimento entre os Estados Unidos e a Venezuela, apoiando iniciativas de solidariedade como o fornecimento de combustível para aquecimento a comunidades vulneráveis nos Estados Unidos por meio da subsidiária da Petróleos de Venezuela naquele país.

Um “amigo da Colômbia”, assinalou o presidente Gustavo Petro e o descrevendo como “um ser humano extraordinário que dedicou sua vida à luta pela igualdade e justiça”.

O presidente sul-africano Cyril Ramaphosa declarou estar “em dívida com a energia, a clareza de princípios e o risco pessoal com que ele apoiou nossa luta e fez campanha pela liberdade e igualdade em outras partes do mundo”, e destacou suas campanhas para acabar com o apartheid.

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