
Com o assassinato dos jornalistas Mohammad Mansur (da TV Palestine Today, de 24 anos) e Hosam Shabat (Al Jazeera, 23 anos), o número de jornalistas mortos pelas tropas de Israel chega a 208
Em dois ataques separados, forças da ocupação israelense assassinaram dois jornalistas, o correspondente da Al Jazeera, Hossam Shabat (23 anos) e o repórter da TV Palestine Today, Mohammad Mansur (24 anos), no início desta semana.
As recentes mortes, nesta segunda-feira, 24, trouxeram o número de jornalistas assassinados, desde outubro de 2023, a 208.
Mansur foi morto por um míssil atirado contra sua casa ao norte de Khan Yunis, na Faixa de Gaza, e Shabat foi assassinado quando circulava pela rua Salah al-Din no norte da região.
O Comitê de Proteção aos Jornalistas (CIJ, com sede em Londres) denunciou que esse número de mortos faz do morticínio de trabalhadores de imprensa em Gaza o maior nos 30 anos nos quais a entidade vem coletando dados sobre morte de jornalistas em conflitos e guerras.
Ao exigir uma investigação sobre as mortes dos dois jovens jornalistas, o CIJ denunciou que “o ataque deliberado, para matar, de um jornalista, um trabalhador civil, é um crime de guerra”.
“Jornalistas e civis nunca podem ser alvo de armas em meio a conflitos”, acrescentou Jodie Ginsberg, diretora executiva do CIJ.
No mesmo dia, os militares israelenses admitiram o ataque que matou o correspondente da Al Jazeera, sob a falsa informação de haviam “eliminado um terrorista”.
Esse tipo de acusação contra ele e mais cinco de seus colegas levara Shabat a fazer uma denúncia pública dessa deslavada mentira já em outubro de 2024.
“A flagrante e beligerante tentativa de nos transformar, as últimas testemunhas no norte de Gaza, naquilo que não somos e em alvos para matar, está associada a outra tentativa, a de justificar, por antecipação, nosso assassinato”, escreveu o funcionário da Al Jazeera.
CONCLAMAÇÃO DOS JORNALISTAS PALESTINOS ÀS ORGANIZAÇÕES DE DIREITOS HUMANOS
Em sua página na internet, o Sindicato dos Jornalistas Palestinos condenou com veemência “o odioso crime cometido pela ocupação israelense, que levou ao martírio de nossos colegas, jornalista Mohammad Mansour, correspondente da TV Palestine Today, e Hossam Shabat, correspondente da Al Jazeera, atingidos diretamente na Faixa de Gaza.
“Este crime horripilante visa apagar a verdade e aterrorizar a todos que levam a mensagem em sua fala pela liberdade de expressão.”
“Este crime não é um incidente isolado ou uma exceção, é parte de política sistemática adotada pela ocupação para eliminar os jornalistas palestinos, que se tornaram alvo direto da máquina de morte israelense simplesmente porque estão cumprindo seu dever de reportar a verdade.”
“Desde o começo da agressão, 208 jornalistas, profissionais da imprensa, e trabalhadores da mídia têm sido assassinados por balas e mísseis naquilo que se constitui o maior massacre de jornalistas da história moderna – isto, em meio a um alarmante silêncio internacional e desgraçada cumplicidade com os crimes da ocupação.”
“O Sindicato dos Jornalistas Palestinos declara a ocupação israelense completamente responsável pelos crimes e afirma que tornar jornalistas alvos é um aberto crime de guerra que exige imediata ação da comunidade internacional para pôr um fim a estas violações, que se constitui em um flagrante assalto contra a liberdade de imprensa e os direitos humanos.”
“O Sindicato conclama a ONU, a Corte Penal Internacional e todas as organizações de direitos humanos e de imprensa em todo o mundo a se moverem além da mera condenação e a tomar medidas sérias e imediatas para fazer com que Israel seja responsabilizado por seus crimes e urge a imposição de sanções dissuasórias para pôr fim à cultura de impunidade que encoraja Israel a prosseguir com suas violações.”
“Além disso, o Sindicato reafirma seu compromisso em documentar estes crimes e ir atrás dos líderes israelenses em todos os foros legais e internacionais para expor estas ações criminosas ao mundo. Enfatizamos que as tentativas de silenciar o jornalismo palestino fracassarão e que a voz da verdade se levantará sempre acima dos sons da morte e da opressão.”
“Glória e eternidade aos mártires do jornalismo palestino. Liberdade para o mundo que não será quebrado apesar da brutalidade da ocupação”.
Sindicato dos Jornalistas Palestinos em 24 de março de 2025
“MEU FILHO VOAVA COMO UM PÁSSARO E AGORA É UM HERÓI“
Ver o seu filho correr estes riscos era muito difícil para sua mãe, Amal. “Sempre que alguém o chamava, sempre que alguém dizia que algo acontecia em algum lugar, ele voaria. Ele era como um pássaro”.
“Sempre que houvesse destruição, onde quer que houvesse morte, ele para lá se dirigiria. Eu tinha medo, eu lhe dizia para voltar, para ficar longe do perigo”, contou a mãe.
“Mas ele respondia: ‘Mãe, já está escrito, ainda que eu ficasse, a partir de agora, em casa, se eu me escondesse sob seus braços, eles me matariam'”.
“Ele me disse, antes de seu martírio: ‘Apenas pense em mim como aquele que saiu para empreender uma jornada'”.

TESTAMENTO-DENÚNCIA DE HOSSAM SHABAT
Com a morte de Shabat, seus colegas publicaram uma carta conforme ele havia lhes solicitado em caso de seu assassinato, na qual fez uma conclamação. “Peço a vocês agora: não parem de falar sobre Gaza. Não deixem que o mundo pare de olhar. Continuem lutando, continuem contando nossas histórias – até que a Palestina seja livre”.
Veja a íntegra do testamento de Shabat:
“Se vocês estiverem lendo isto, significa que fui assassinado – mais provavelmente alvejado – pelas forças da ocupação. Quando tudo isso começou, eu tinha apenas 21 anos – um estudante de faculdade com sonhos como todo mundo.
Nos últimos 18 meses, dediquei cada momento de minha vida ao meu povo. Eu documentei os horrores no norte de Gaza, minuto a minuto, determinado a mostrar ao mundo a verdade que os ocupantes tentavam enterrar.
Eu dormi debaixo de marquises e vãos de escadas, em escolas, em tendas – em qualquer lugar que pudesse. Cada dia era uma batalha pela sobrevivência, eu padeci com fome por meses, mas nunca deixei de estar ao lado do meu povo.
Diante de Deus eu digo que cumpri a minha obrigação como jornalista.
Arrisquei tudo para reportar a verdade e agora, finalmente descanso – coisa que não conheci nos últimos 18 meses.
Fiz tudo isso porque acredito na Causa Palestina. Acredito que esta terra é nossa e foi a maior honra de minha vida defendê-la e servir a seu povo.
Peço a vocês agora: não parem de falar sobre Gaza. Não deixem que o mundo deixe de olhar. Continuem lutando, continuem contando nossas histórias – até que a Palestina seja livre”.
— Pela última vez, Hossam Shabat, do norte de Gaza.