
Apontado como o autor da execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, o miliciano, Ronnie Lessa, revelou o mandante do crime em um acordo de colaboração premiada enviado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Segundo fontes de diferentes veículos de imprensa relataram nesta terça-feira (23) que a delação de Lessa aponta que o mandante seria um político do Rio de Janeiro com foro privilegiado e que, em virtude disso, o acordo foi enviado para o STJ. Faltando menos de dois meses para o crime completar seis anos, no dia 14 de março, a delação de Lessa pode fazer com que o caso, enfim, seja concluído.
O acordo foi costurado quando a Polícia Federal assumiu as investigações, fevereiro do ano passado e, desde então, os termos para que Lessa aceitasse revelar o mandante do crime já estavam em andamento.
A Polícia Federal já havia obtido a delação de outro miliciano, o ex-PM Élcio de Queiroz, que admitiu ter dirigido o carro utilizado na emboscada à vereadora. Em seu acordo, Élcio chegou a citar o nome do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Domingos Brazão, como tendo envolvimento na morte de Marielle. A delação está na mesa do ministro Raul Araújo, do STJ.
Fontes citadas pelo portal ‘Intercept Brasil’ apontam o conselheiro do TCE-RJ Domingos Brazão como o mandante da execução. A principal hipótese é a de vingança contra Marcelo Freixo, ex-deputado estadual e atual presidente da Embratur.
Além de amigo de Marielle, Marcelo Freixo apoiou a candidatura de sua assessora à Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.
Brazão já havia sido investigado, antes da delação, pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), pelo Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio e pela própria Polícia Federal, mas até então, o envolvimento do conselheiro do TCE com a morte da vereadora não havia sido comprovado.
Ele está no TCE desde 2015, quando foi indicado para o cargo de conselheiro. Em 2017, ele foi preso na Operação ‘Quinto do Ouro’, um desdobramento da Lava Jato no Rio de Janeiro, sob acusação de receber propina de empresários e ficou quatro anos afastado do cargo.

CPI DAS MILÍCIAS
Defensor das milícias enquanto deputado estadual, Brazão foi um dos únicos a criticar a abertura da CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ele e Flávio Bolsonaro (PL), atualmente senador pelo PL, se manifestaram contra a criação do colegiado
Na ocasião, Brazão afirmou que milicianos seriam “melhores do que traficantes” e que não existe comparação entre os dois tipos de grupos criminosos. Flávio, por sua vez, votou a favor da criação da CPI, mas disse que a comissão seria “demagógica” e não resolveria as principais causas do problema: “os baixos salários dos policiais e a falta de política habitacional”, segundo ele.
O requerimento para instalação da CPI foi criado e apresentado por Freixo em 2006. O colegiado só foi instalado na Alerj dois anos depois, em 2008, com o objetivo de impedir a expansão das milícias no Rio de Janeiro.
Domingos Brazão foi citado no relatório final da CPI como um dos políticos liberados para fazer campanha em Rio das Pedras, região fortemente controlada pela milícia.
Os trabalhos da comissão acabaram no mesmo ano, com o pedido de indiciamento de 226 envolvidos com grupos criminosos. No ano seguinte, em 2009, 246 milicianos foram presos, segundo a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro.
VINGANÇA
Em maio de 2020, quando foi debatida a federalização do caso Marielle, a ministra Laurita Vaz, do Superior Tribunal de Justiça, informou que a Polícia Civil do Rio e o Ministério Público chegaram a trabalhar com a possibilidade de Domingos Brazão ter agido por vingança.
“Cogita-se a possibilidade de Brazão ter agido por vingança, considerando a intervenção do então deputado Marcelo Freixo nas ações movidas pelo Ministério Público Federal, que culminaram com seu afastamento do cargo de Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro”, diz o relatório da ministra.
“Informações de inteligência aportaram no sentido de que se acreditou que a vereadora Marielle Franco estivesse engajada neste movimento contrário ao MDB, dada sua estreita proximidade com Marcelo Freixo”, escreveu Vaz.
Em 2019, Brazão chegou a ser acusado formalmente pela Procuradoria-Geral da República (PGR), de obstruir as investigações do caso Marielle.

RIO DAS PEDRAS: CURRAL ELEITORAL DE BRAZÃO
A família Brazão é um influente grupo político do Rio de Janeiro. Além do líder, Domingos, o clã é composto pelo deputado estadual Manoel Inácio Brazão, mais conhecido como Pedro Brazão, e Chiquinho, colega de Marielle na Câmara na época do assassinato. Os dois são filiados, atualmente ao União Brasil.
Um levantamento do portal A Pública realizado em 2019 mostrou que, desde 2010, políticos da família Brazão são os mais votados em Rio das Pedras, chegando a atingir 30% dos mais de 35 mil votos na região:
- 2010: deputado estadual – Domingos Brazão (MDB), 29,6%
- 2012: vereador – Chiquinho Brazão (MDB), 14,8%
- 2014: deputado estadual – Domingos Brazão (MDB), 30,2%
- 2016: vereador – Chiquinho Brazão (MDB), 16,7%
- 2018: deputado estadual – Pedro Brazão (PR), 6,1%]
Desde janeiro, o MPRJ analisa documentos e anexos do inquérito policial sobre a atuação da milícia em Rio das Pedras. O grupo é suspeito de ter ligação com a família Brazão e também com o ‘Escritório do Crime’, milicianos especializados em execuções que eram liderados por Ronnie Lessa e Adriano da Nóbrega, miliciano que possuía ligações com o clã Bolsonaro e que foi assassinado pela PM da Bahia em fevereiro de 2020.
Em 2018, Flávio Bolsonaro foi o senador mais votado em Rio das Pedras, com 8.729 votos, o equivalente a 17% do total.
Enquanto deputado estadual (2003-2014) ele empregou em seu gabinete a mãe e a esposa do miliciano Adriano da Nóbrega. O senador Flávio também concedeu a Medalha Tiradentes, mais alta honraria da casa, a Adriano e a outro miliciano denunciado pelo MPRJ.