Líderes do Brasil e da Índia reafirmam parceria bilateral, defendem reformas multilaterais e alinham agendas antes de visita de Estado
Em conversa por telefone realizada nesta quinta-feira (22), o presidente Lula (PT) e o primeiro-ministro indiano Narendra Modi reforçaram o compromisso de ampliar a parceria estratégica Brasil-Índia e sublinharam a importância de reformas nas Nações Unidas e no Conselho de Segurança para tornar o sistema multilateral mais eficaz diante dos desafios do século 21.
A interlocução de cerca de 45 minutos — confirmada por comunicados oficiais de Brasília e Nova Délhi — serviu também para coordenar a agenda da visita de Estado de Lula à Índia, prevista para 19 a 21 de fevereiro, quando serão aprofundados projetos de cooperação econômica, tecnológica e política entre ambos os países.
“Revisamos o forte impulso da Parceria Estratégica Índia-Brasil, que está pronta para alcançar novos patamares no ano à frente”, escreveu Modi no X, e destacou que “nossa estreita cooperação é vital para promover os interesses comuns do Sul Global”.
Lula, por sua vez, destacou que o diálogo abrangeu “temas relativos à cooperação nas áreas de defesa, comércio, saúde, ciência e tecnologia, energia, biocombustíveis, minerais críticos e terras raras”, segundo nota do Planalto.
Ele ressaltou a convergência de visões entre Brasil e Índia quanto à necessidade de fortalecer o multilateralismo e a democracia, assim como a defesa da paz em diferentes frentes.
PLATAFORMA GLOBAL E INTERESSES DO SUL
A conversa entre líderes ocorre em contexto de recuperação das relações multilaterais pós-pandemia e de maior atuação conjunta dentro de fóruns como o BRICS — bloco que a Índia preside em 2026 e que tem ampliado debates sobre governança global, que inclui reformas no sistema das Nações Unidas para dar mais voz a países em desenvolvimento.
Segundo analistas, esse estreitamento não apenas reforça laços bilaterais em áreas como comércio e tecnologia, mas também sinaliza postura compartilhada em defesa de ordem internacional mais representativa e cooperativa, que alinha as posições de Brasília e Nova Délhi em temas estratégicos globais e regionais.
“Os dois líderes coincidiram em priorizar temas relativos à cooperação… reafirmando sua percepção de que é necessária uma reforma ‘abrangente’ da Organização das Nações Unidas e do Conselho de Segurança”, informou a Presidência brasileira. “Reiteraram, nesse sentido, seu compromisso com a paz em Gaza e, de modo geral, com a defesa da paz no mundo, do multilateralismo e da democracia”.
A agenda prevista para o encontro presencial em fevereiro inclui, além de reuniões políticas de alto nível, o Fórum Empresarial Brasil-Índia e a inauguração do escritório da Apex-Brasil em Nova Délhi, com o objetivo de expandir relações comerciais e investimentos entre essas 2 grandes democracias.
CONTEXTO
A cooperação entre Brasil e Índia tem se consolidado nos últimos anos, com foco em parcerias estratégicas nas áreas econômica, tecnológica e em fóruns multilaterais, como BRICS IBSA (Fórum de Diálogo entre Índia, Brasil e África do Sul) e G20, que reforça a importância de política externa alinhada e pragmática.
Além da dimensão diplomática, essa aproximação tem produzido resultados concretos na economia real, com a ampliação do intercâmbio comercial, o aumento de investimentos cruzados e a construção de agendas comuns em setores estratégicos como energia limpa, biocombustíveis, tecnologia da informação, indústria farmacêutica, defesa e inovação.
Índia e Brasil, 2 das maiores economias emergentes do mundo, passaram a atuar de forma coordenada na busca por cadeias produtivas mais autônomas, redução de dependências externas e fortalecimento de capacidades industriais próprias, em especial em áreas sensíveis como saúde, semicondutores e transição energética.
PLANO GEOPOLÍTICO
No plano geopolítico, a parceria também se traduz em atuação conjunta por reformas na governança global, sobretudo no sistema das Nações Unidas e no Conselho de Segurança da ONU.
Brasil e Índia defendem ordem internacional mais representativa, capaz de refletir o peso demográfico, econômico e político do Sul Global, e buscam ampliar a participação de países em desenvolvimento nos centros de decisão.
Essa convergência estratégica transforma a relação bilateral em eixo político de médio e longo prazos, que vai além da diplomacia tradicional e se projeta como parte de redesenho mais amplo das estruturas de poder no sistema internacional.
“CONSELHO” DE TRUMP
A inclusão de Lula e Modi no chamado “Conselho” proposto por Donald Trump gerou reações críticas nos meios diplomáticos e políticos.
A iniciativa, apresentada como fórum internacional para mediação de conflitos, nasce sob forte contestação, sobretudo pelo caráter personalista do projeto, que prevê Trump como presidente do órgão e, de forma inédita, membro vitalício da instância, o que contradiz princípios básicos de alternância, colegialidade e legitimidade institucional em organismos multilaterais.
ESTRUTURA SIMBÓLICA DE PODER
Para críticos, a proposta se distancia do conceito clássico de diplomacia multilateral e se aproxima de estrutura simbólica de poder, mais orientada à projeção política pessoal do que à construção de mecanismos efetivos de paz.
A ausência de critérios claros de governança, representatividade regional equilibrada e participação institucional de organismos internacionais consolidados — como a ONU — reforça a percepção de que esse conselho não teria base jurídica nem legitimidade internacional, funcionando mais como plataforma política do que como instrumento real de resolução de conflitos.
Nesse contexto, o convite a Lula e Modi é visto por analistas como tentativa de emprestar credibilidade global a uma iniciativa de natureza controversa, utilizando o peso político de lideranças do Sul Global para legitimar projeto de perfil ditatorial, centralizador e personalista.
A contradição é evidente: enquanto Brasil e Índia defendem reformas democráticas na governança internacional, com mais representatividade e multilateralismo, o “Conselho” trumpista caminha no sentido oposto, ao concentrar poder, eliminar rotatividade e subordinar a diplomacia internacional à liderança individual permanente norte-americana.
Leia a nota da Presidência na íntegra:
Presidente Lula conversa por telefone com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi
Na manhã desta quinta-feira, 22 de janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. A ligação durou cerca de 45 minutos.
Na ocasião, conversaram sobre os preparativos para a visita de Estado do presidente Lula à Nova Délhi, que será realizada entre 19 e 21 de fevereiro próximo. O presidente Lula indicou que pretende participar da Cúpula sobre Inteligência Artificial. Na agenda bilateral, os dois líderes coincidiram em priorizar temas relativos à cooperação nas áreas de defesa, comércio, saúde, ciência e tecnologia, energia, biocombustíveis, minerais críticos e terras raras.
Ambos os líderes destacaram a importância do Fórum Empresarial Brasil – Índia, no dia 21, e saudaram o engajamento do setor privado dos dois países na visita. O presidente Lula aludiu à inauguração do Escritório da APEX em Nova Délhi, no contexto da visita de Estado.
O presidente Lula e o primeiro-ministro Modi também trocaram impressões sobre a situação global. Reafirmaram sua convicção a respeito da necessidade de uma reforma abrangente das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança. Reiteraram, nesse sentido, seu compromisso com a paz em Gaza e, de modo geral, com a defesa da paz no mundo, do multilateralismo e da democracia.











