Presidente tratou do assunto com integrantes do próprio governo, do Banco Central e do Poder Judiciário
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em encontro com membros da equipe econômica, integrantes do Judiciário e do Banco Central (BC), propôs uma ação estratégica conjunta e unificada no combate ao crime organizado, especialmente àquele instalado no andar de cima da sociedade.
A proposta surge em meio à crise que atinge o Banco Master, liquidado pelo BC, após uma várias denúncias de fraude, que provocaram, inclusive, a prisão e a posterior adoção de medidas cautelares de seu dono, o banqueiro Daniel Vorcaro.
A iniciativa busca aplainar o terreno diante dos conflitos recentes que expuseram posições distintas de órgãos como a Polícia Federal, a Receita Federal e integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF).
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o diretor-geral da PF (Polícia Federal), Andrei Rodrigues, e o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal) estiveram presentes no encontro com Lula, no Palácio do Planalto.
Após o encontro, o novo ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, deu o tom da reunião, enfatizando que o combate ao crime organizado “foi elevado a uma ação de Estado”. “A relevância que o crime organizado assumiu impõe a necessidade de atuação comum. Cada um dos órgãos de Estado atuará em conjunto entre os Poderes”.
Segundo o ministro, a intenção do presidente é “ajustar a sintonia” entre órgãos. “Vocês imaginam que os órgãos de perseguição, como a Polícia Federal, a Receita Federal, elas por si só não podem viabilizar sozinhas resultados concretos de medidas que precisam passar pelo Ministério Público, chegar ao Judiciário, para que tenham a efetividade necessária para combater o crime”, explicou.
O fato é que o escândalo do Master está dando pano prá manga, principalmente depois da revelação de alguns liames de ministros do STF ou pessoas próximas a eles ao banco liquidado pelo BC.
A jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, por exemplo, revelou detalhes do contrato da mulher do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, para a defesa dos interesses do Banco Master e de Daniel Vorcaro no Banco Central, na Receita Federal e no Congresso Nacional. De acordo com o contrato, assinado em janeiro de 2024, o escritório de Viviane receberia R$ 3,6 milhões por mês ao longo de três anos.
Na sequência, Moraes abriu de ofício um inquérito para investigar se a Receita Federal e o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeira) quebraram de forma irregular o sigilo fiscal de ministros do STF e familiares.
Por sua vez, o ministro Dias Toffoli, depois de uma viagem internacional no mesmo jatinho para um jogo de futebol com o advogado do Master, negou que a Polícia Federal colocasse Vorcaro entre os alvos da operação, recuando diante de indícios de “novos ilícitos” apresentados pelos investigadores.
E mais: o ministro determinou sigilo sobre as investigações, bem como exigiu da PF que enviasse ao STF todo seu conteúdo.
Mas, diante da evolução dessas investigações, o próprio Toffoli, em novo recuo, autorizou buscas e apreensão contra Vorcaro e seus familiares
Uma nova reunião sobre o palpitoso assunto está previsto para a tarde hoje (15), após a posse formal de Lima e Silva, que acrescentou: “Eu acho que há uma constatação de que o tamanho do problema justifica e merece uma conjugação de esforços dessa escala”, afirmou o novo ministro.
A conversa, que não estava prevista na agenda, durou quase duas horas. Participaram ainda o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o ministro da Secom (Secretaria da Comunição), Sidônio Palmeira, e os secretários Robison Barreirinhas, da Receita Federal, e Dario Durigan, número 2 da Fazenda.
APREENSÃO BILIONÁRIA
Na nova ação da PF, bens e dinheiro vivo foram apreendidos. Ao todo, foram recolhidos 23 carros avaliados em R$ 16 milhões e R$ 645 mil em espécie na nova etapa da Operação Compliance Zero, que investiga crimes envolvendo o Banco Master e fundos da Faria Lima.
A ação policial cumpriu 42 mandados de busca e apreensão. Com o dono do Master, Daniel Vorcaro, seu pai, Henrique Vorcaro, e o empresário Nelson Tanure como alvos, a PF fez o sequestro e bloqueio de bens e valores que superam R$ 5,7 bilhões.
Outro foco da operação foi o empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Preso ontem (14) enquanto tentava embarcar em um jatinho para Dubai, e depois solto, Zettel disse em culto que Deus combate a cegueira dos que estão “cegos pela ambição”.
Zettel foi o principal doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro à Presidência da República e de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo, em 2022. Nenhum dos dois, até o momento, se manifestou sobre a ação contra o apoiador.











