Merendeira Beatriz da Silva Rosa questiona a conclusão de “legítima defesa” e critica ausência de apoio do Estado
“Se eu tivesse matado um policial, já estaria presa. Não seria legítima defesa, a gente teria que pagar por isso”. A afirmação, carregada de dor e revolta, é de Beatriz da Silva Rosa, 31 anos, merendeira escolar e mãe de Ryan da Silva Andrade Santos, morto aos 4 anos por um tiro durante uma operação da Polícia Militar no Morro São Bento, em Santos, no dia 5 de novembro de 2024. Nove meses antes, o pai da criança também foi morto em uma ação policial.
Na última semana, Beatriz recebeu a notícia que a deixou “bastante abalada”: o relatório final da Polícia Civil concluiu que os policiais militares envolvidos na morte de Ryan agiram em “legítima defesa”. O documento, encaminhado à Justiça, sustenta que os agentes reagiram a disparos de suspeitos durante um confronto e que a bala que atingiu o menino, que brincava a cerca de 70 metros do local, teria ricocheteado, sendo um resultado “imprevisível”.
Para a mãe, a conclusão é um reflexo da criminalização de quem mora na periferia. “A gente já é criminalizado por morar em morro, por ser preto. Sei que seria diferente se meu filho tivesse morrido em outro endereço”, desabafa Beatriz, em entrevista. A dor da perda se transformou em uma crise de ansiedade constante. “Estou sem comer direito e com o choro constante. Mas para mim ainda não é o fim”.
Mãe de outros dois filhos, de 8 e 11 anos, Beatriz conta que não consegue trabalhar e enfrenta dificuldades financeiras severas. “Destruíram a nossa família e nem nos deram o básico, um auxílio de saúde mental ou financeiro”, lamenta. O impacto psicológico se estende às crianças. “Meus filhos desaprenderam tudo na escola. O mais velho está super revoltado. Eu vou tentando conversar com ele da melhor forma, digo que não está acabado, que mamãe acredita que o Ministério Público vai olhar para a gente com carinho. Ele é uma criança e não quero que ele cresça com esse sentimento”.
O relatório da Polícia Civil detalha que a operação começou após denúncia de tráfico e evoluiu para um confronto em que um adolescente de 17 anos também morreu baleado. Perícias indicam que o projétil que matou Ryan partiu de uma espingarda de calibre 12, usada por um dos policiais, e que apresentava marcas de possível ricochete. Testemunhas ligadas à família e um adolescente apreendido, no entanto, negam que tenha havido troca de tiros, afirmando que apenas os policiais atiraram.
LUTA POR JUSTIÇA
Apesar do desfecho do inquérito policial, Beatriz mantém a esperança de que o caso seja reavaliado pelo Ministério Público. Ela representa a face humana de uma tragédia que vai além dos laudos e relatórios: uma mãe que perdeu o filho de quatro anos, o marido nove meses antes, e que agora luta para reconstruir a vida dos filhos que ficaram, enquanto cobra por justiça e acolhimento.
“Mas para mim ainda não é o fim”, repete, com a resiliência de quem sabe que a batalha por respostas e por mudanças vai além das páginas de um processo. A história de Ryan, o menino que brincava na rua, e de Beatriz, a mãe que chora sua ausência, tornou-se um símbolo doloroso dos custos humanos de operações policiais em comunidades e do longo caminho para que a periferia tenha seu luto reconhecido e sua dor, reparada.











