Liquidação da Reag pelo BC pode expor proprietários ocultos de fundos suspeitos que alimentaram créditos sem pagamento
Trata-se de fraudes em série que produziram empréstimos que nunca existiram de verdade. Esta é a fundamentação da investigação da PF (Polícia Federal) com apoio do Banco Central do Brasil, que aponta que o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, concedeu empréstimos cujas parcelas sequer foram pagas.
Ou sequer estavam estruturadas para pagamento real, e serviam apenas para inflar receitas no papel. Técnicos apontam que os prazos foram sucessivamente prorrogados às vésperas do vencimento e que, na prática, “não houve efetivo pagamento de juros nem amortizações”.
Documentos oficiais e análises de fluxo de recursos sugerem que os valores supostamente emprestados eram imediatamente canalizados para fundos de investimento administrados pela gestora Reag Trust — atual CBSF —, que os aplicava em ativos de baixo valor e baixa liquidez.
Esses eram frequentemente reavaliados de forma indevida para gerar ganhos fictícios nos balanços, a fim de criar “ganhos imaginários”.
PONTO DE VIRADA NA INVESTIGAÇÃO
Nesta quinta-feira (15), o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag/CBSF, por “violação grave das normas que regem instituições do sistema financeiro nacional”, como parte das consequências do colapso do Master.
A decisão deve permitir rastrear e revelar os verdadeiros donos e beneficiários dos fundos utilizados no esquema de créditos fictícios.
Autoridades dizem que a liquidação da Reag pode ser o momento decisivo para identificar quem, de fato, estava por trás das estruturas financeiras que circularam bilhões em operações sem lastro.
São, desde fundos com nomes como Bravo 95 e D Mais, até outros que desapareceram do radar público.
PANO DE FUNDO QUE NÃO PODE SER IGNORADO
A gestora Reag já havia sido alvo de Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 pela PF e Ministério Público, que investiga lavagem de dinheiro e ligação de fundos com integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital), especialmente no setor de combustíveis.
Embora a instrução formal ainda esteja sob sigilo, relatos investigativos indicam que fundos administrados pela Reag envolvidos no esquema do Master aparecem nesse contexto, o que amplia os questionamentos sobre a real origem e destino dos recursos que circulavam entre banco, fundos e aplicativos financeiros.
DEFESA DE VORCARO E CRÍTICAS À CONDUÇÃO DO CASO
A defesa de Vorcaro, que já chegou a propor que o STF (Supremo Tribunal Federal) reunisse Banco Central, TCU e potenciais compradores para discutir os termos da liquidação do Master, também tem argumentado que medidas mais duras contra o banqueiro foram desproporcionais diante da própria liquidação da instituição.
O ministro Dias Toffoli, relator do caso na Corte Suprema, determinou recentemente que todo o material apreendido na investigação fosse encaminhado à PGR (Procuradoria-Geral da República) para análise, atendendo a pedido do próprio órgão de controle.
BLINDAGEM OU TRANSPARÊNCIA
Juristas e especialistas de mercado afirmam que certas decisões do STF — como o sigilo imposto em fases sensíveis do inquérito e o manejo das diligências — dificultam a transparência do processo e podem favorecer estratégias defensivas, como as postas pela defesa de Vorcaro, em detrimento do avanço das apurações.
Articulista da área financeira resumiu: “O caso Master já não é mais só sobre fraude contábil — é sobre como a ordem regulatória foi usada para encobrir a origem e o destino dos recursos, e quem se beneficiou disso.”
O QUE VEM PELA FRENTE
A liquidação extrajudicial da Reag/CBSF inaugura nova fase da investigação ao retirar da gestora o controle sobre seus próprios arquivos, bases de dados e estruturas societárias.
Com a nomeação do liquidante pelo BC, passam a ser compulsoriamente acessados contratos, atas, registros de cotistas, beneficiários finais, operações cruzadas com o Master e fluxos financeiros até aqui protegidos por camadas de sigilo privado.
Fontes que acompanham o caso afirmam que esse movimento pode ser decisivo para identificar os verdadeiros donos dos fundos usados como destino dos empréstimos fictícios, muitos deles estruturados por meio de veículos opacos, holdings intermediárias e investidores formais que não correspondem aos reais beneficiários econômicos.
POR DENTRO DA FRAUDE
A expectativa é que relatórios técnicos revelem se houve interposição fraudulenta de pessoas, uso de “laranjas” e circulação de recursos com origem ilícita.
No campo criminal, a liquidação fortalece a atuação da PF e do Ministério Público ao reduzir a dependência de cooperação voluntária da gestora e permitir o cruzamento direto entre dados contábeis, registros bancários e movimentações suspeitas.
Esse material tende a ser incorporado aos autos que já tramitam no STF e pode ampliar o alcance das apurações, inclusive com novos pedidos de quebras de sigilo e responsabilização de terceiros até agora fora do foco principal.
MARCO PARA O SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL
Especialistas em regulação financeira avaliam que o desfecho do caso pode se tornar marco para o sistema financeiro nacional, ao expor os limites da autorregulação, o uso abusivo de fundos de investimento como instrumentos de engenharia contábil e as fragilidades na fiscalização de estruturas que operam na fronteira entre o mercado formal e esquemas de ocultação patrimonial.
Em síntese, a queda da Reag não encerra o episódio. Abre a caixa-preta.
E o que dessa emergir poderá redefinir não apenas o destino judicial de Daniel Vorcaro e dos envolvidos, mas também o debate público sobre transparência, captura regulatória e a responsabilidade de gestores, auditores e autoridades diante de fraudes bilionárias travestidas de operações financeiras legítimas.
M. V.











