“Que iranianos atacam ou incendeiam mesquitas?”, questionou o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, ao acusar os EUA e Israel pela violência que se abateu sobre o país, e revelando que foram “53” os templos queimados pelos mercenários a soldo da CIA e do Mossad. A cena de uma mesquita ardendo em Teerã foi exibida pelos mercenários nas redes sociais como um troféu.
O saldo de três dias de tentativa de “revolução colorida”, entre 8 e 10 de janeiro, com prédios públicos incinerados – inclusive clínicas médicas, 180 ambulâncias e dezenas de ônibus e viaturas de bombeiros -, centenas de lojas e agências bancárias destruídas, mais delegacias de polícia vandalizadas, inclui ainda uma centena de policiais mortos – vários degolados ou queimados vivos – e vítimas civis dos disparos dos mercenários.
“O que aconteceu nos últimos três dias, de 8 a 10 de janeiro, foi uma extensão da guerra de 12 dias e foi planejado fora do país”, afirmou Araghchi, que apontou como norte-americanos e israelenses publicamente se gabaram de seus crimes.
Nos dias anteriores, manifestações de descontentamento com a desvalorização da moeda iraniana diante do dólar e a inflação haviam transcorrido sem vandalismo nem repressão. Falando a jornalistas nesta quinta-feira (15), Araghchi enfatizou que as forças de segurança enfrentaram “células terroristas”, não manifestantes.
CIVIS ASSASSINADOS A TIROS POR MERCENÁRIOS
“Por que eles começaram a disparar nas pessoas?”, questionou o chanceler, explicando que o objetivo foi de “aumentar o número de mortos”. “Por quê? Porque o presidente Trump disse que, se houvesse mortos, ele interviria”, então os mercenários queriam exatamente isso.
São admissões públicas. O ex-diretor da CIA, Mike Pompeo, se congratulou nas redes sociais com “os manifestantes nas ruas e os agentes do Mossad ao seu lado”. O que também se repetiu de parte do Mossad, em uma conta na língua persa.
O próprio Trump, na véspera, havia postado chamando os “patriotas iranianos”, isto é, seus mercenários, a “continuarem os protestos”, a “ocuparem as instituições”. “A ajuda está a caminho”, alentou, tentando repetir no Irã o que fizeram contra o Iraque, a Síria e a Líbia, ainda hoje países em frangalhos e arruinados.
Araghchi também revelou que havia uma “tabela de pagamentos” aos mercenários, com um ataque a delegacia valendo quatro vezes mais que o incêndio de uma loja, por exemplo.
FANTOCHES ENSANDECIDOS
Até um filho do xá derrubado pela revolução em 1979, e que vive nos EUA e tem notórios laços com Israel, se apresentou como candidato a fantoche. Segundo analistas, além dos monarquistas, a conspiração incluiu degoladores de cabeça do Estado Islâmico, curdos pró-Mossad, separatistas baluchis na folha da CIA e outros marginais.
Após milhões tomarem as ruas das cidades iranianas na segunda-feira, ao lado do presidente Masoud Pezeshkian e de outros dirigentes, em defesa do Irã e contra o imperialismo e o sionismo, e da desarticulação dos grupos mercenários depois do bloqueio da internet e, portanto, das ordens vindas de fora, o governo iraniano pôde declarar a situação sob seu controle, e advertiu Trump contra repetir o erro de junho passado.
Segundo a revista norte-americana Forbes, 40 mil terminais de Starlink haviam sido contrabandeados para mercenários nos meses precedentes, mas foram também bloqueados graças à tecnologia russa ou chinesa.
Quanto às manifestações populares a favor do Irã soberano, foram descaradamente ocultadas pela mídia ocidental, que continuou mostrando vídeos de tumulto e incêndio.
Esses milhões de iranianos foram às ruas apesar das ameaças explícitas de Trump de bombardear o país e do seu incitamento à violência. Na quarta-feira, ocorreram os funerais de civis e militares mortos, enquanto a mídia ocidental declarava “iminente” um ataque dos EUA ao Irã, com os mais afoitos, até sugerindo raptar ou assassinar o líder Khamenei, citando a operação contra Maduro. Agências de notícias informaram ainda que Washington estava esvaziando a base aérea de Al Udeid, no Catar, como em junho.
MANUAL DA CIA DE MUDANÇA DE REGIME
Em entrevista ao jornalista Daniel Davis, o professor da Universidade de Chicago e respeitado cientista político, John Mearsheimer, denunciou que a atual operação em curso no Irã está de acordo o manual de mudança de regime de Washington.
Que começa com ações de desestabilização econômica até provocar protestos, manipula protestos para tentar criar condições para um governo fantoche, aciona grupos de mercenários para gerar o caos, que abre caminho para a intervenção militar norte-americana. Segundo ele, como as fases 1, 2 e 3 deram com os burros n’água, Trump pode vir a recuar da fase final e decisiva.
O assessor do governo iraniano nas negociações sobre o programa nuclear iraniano, que resultaram no acordo que Obama assinou e Trump rasgou, o professor universitário Seyed Mohammad Marandi, comparou os acontecimentos da semana passada no Irã à Praça Maidan em 2014, na Ucrânia, em que os neonazis, articuladaos com a CIA, dispararam contra a polícia e os próprios manifestantes, lançando a culpa sobre o governo de Viktor Yanukovych para provocar caos e dar pretexto à consecução do golpe.
Como Marandi afirmou em depoimento ao jornalista Glenn Diesen, “no Irã, a polícia não interveio nas manifestações pacíficas. Ela só começou a agir quando os agentes infiltrados começaram a criar tumultos e a assassinar manifestantes e policiais”.
“QUEIMADOS VIVOS NA MESQUITA”
“Os agentes estrangeiros prenderam pessoas numa mesquita e a incendiaram. Queimaram as pessoas dentro da mesquita”, denunciou Marandi, enquanto o ocidente seguia mentindo que o governo é que estava cometendo os assassinatos.
Desmascarando mentiras de organismos sob fachada “humanitária” ligados à CIA e ao Mossad, o chanceler iraniano desmentiu haver um “plano de enforcamentos” em massa. As mentiras decolaram quando a agência britânica Reuters, com tantos serviços prestados ao colonialismo inglês, fabricou que os mortos nos protestos seriam “2.000”, o que atribuiu a um “funcionário governamental sob anonimato”.
Cifra logo devidamente inflada, para estimular Trump, chegando a “12.000” e, até, a “28.000”.
Agachni afirmou que são “centenas”, não milhares o total de mortos, e que o número seria informado em breve.
QUEM REPETE O ERRO, COLHE O MESMO DESASTRE
Instado a enviar uma mensagem ao presidente norte-americano, Agnachi disse “não repita o mesmo erro que você fez em junho. Quem tenta uma experiência fracassada, colherá o mesmo resultado”.
O chanceler lembrou que “sempre foi os Estados Unidos – não o Irã – que cortaram a diplomacia e optaram pela guerra, enquanto seu país já provou, nos últimos 20 anos, em 2015 e em 2025, que está pronto para a negociação, para a diplomacia”.
A diplomacia – sublinhou – é “muito melhor que a guerra”, embora não tenhamos uma experiência positiva, mas a decisão “cabe a Trump”.
Ao final da quarta-feira Trump disse a repórteres ter sido informado que a “matança” de manifestantes teria “acabado” e de que “não haveria execuções”, dando a entender que o bombardeio poderia ser adiado. “Parece, à primeira vista, uma ‘forma de salvar a face’ para evitar intervenção militar, embora isso não descarte totalmente tal conflito”, analisou, para a al Jazeera o pesquisador do Center for International Policy, Sina Toossi.
RÚSSIA E CHINA SOLIDÁRIOS
As ameaças de Trump ao Irã foram repudiadas pela China e Rússia e, também, pela Arábia Saudita e Turquia, entre outros.
Trump chegou a ameaçar com uma sobretarifa de 25% aos países que comerciarem com o Irã, ao qual o ditador norte-americano tenta impedir que venda seu petróleo, que cobiça sem o menor disfarce, assim como tenta empalmar o petróleo venezuelano.
Outro aspecto que chama a atenção é a desfaçatez com que os EUA e Israel – corresponsáveis pelo genocídio em Gaza e apartheid na Cisjordânia ocupada – se pavoneiam “defensores da liberdade e dos direitos humanos” dos iranianos. E a demagogia do governo Trump, na mesma semana em que sua Gestapo da imigração matou uma mãe de três filhos, cidadã norte-americana, com tiros na cabeça.











