Documentos comprovam que a autoridade monetária alertou pelo menos 20 vezes sobre os riscos do negócio que provocou um prejuízo bilionário ao BRB
A data, 27 de junho de 2025, quando Banco Central do Brasil (BC), através de sua equipe técnica, enviou comunicado ao Banco Master e ao Banco de Brasília (BRB) da possibilidade de aprovar o negócio que estava em andamento entre as partes.
Naquele dia, técnicos do Departamento de Organização do Sistema Financeiro do BC elencaram 40 pontos que demandavam explicações, demonstrações, detalhamentos e também o envio de documentos como demonstrativos contábeis, relatórios de diligências, atualização das projeções econômico-financeiras e a delimitação definitiva do perímetro da transação.
Portanto, já naquele dia, o então governador Ibaneis Rocha, hoje licenciado para disputar as eleições deste ano, fora avisado de que inexistia condição de prosperar a aquisição do Master pelo BRB.
É crível que o BRB, pela sua área técnica e o seu então presidente, afastado no ato de liquidação do banco, insistisse nas negociatas com os papéis podres do Master, que geraram prejuízos bilionários ao banco, sem que houvesse uma interferência de natureza política? Somente o governo do Distrito Federal, acionista majoritário do BRB, pelo seu responsável maior, no caso, o então governador Ibaneis Rocha, teria poder para insistir na continuidade da patranha.
O fato é que Ibaneis, aliado de Bolsonaro na política local, via com grande entusiasmo a compra do Master, batizada pelo Banco de Brasília de “Projeto Vórtice”, medida para impulsionar a expansão nacional da instituição financeira, o que levaria o BRB a figurar “entre os dez maiores do país em volume de crédito”, segundo a divulgação da época.
O BRB queria ficar com 58,04% do Master, fatia que incluiria 49% das ações com direito a voto e 100% das preferenciais.
Em 2025, pouco mais de dois meses depois de a transferência de controle do Master para o BRB ser barrada pelo Banco Central, o banco de Daniel Vorcaro teve decretada sua liquidação.
O ex-banqueiro foi preso, conseguiu cumprir a determinação em casa e, em 4 de março deste ano, voltou para o regime fechado depois que a Polícia Federal encontrou em seu celular mensagens que citavam intenção de forjar um assalto contra o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, como forma de intimidação.
Segundo as investigações, o ex-banqueiro mantinha uma milícia privada chamada “A Turma” com o objetivo de coagir e ameaçar seus desafetos.
Atualmente, ele está na superientedência da PF de Brasília, onde negocia um acordo de colaboração premiada.
UM NEGÓCIO INCONSISTENTE DESDE O INÍCIO
A inconsistência do negócio já era perceptível desde o início, tanto é que a definição de quais partes do Master seriam transferidas para o controle do BRB mudou várias vezes entre o dia 28 de março, quando foi feito o pedido ao BC, e a data da decisão final, no início de setembro.
A publicar a reportagem, a Folha procurou a defesa do Master, que preferiu o silêncio, assim como o BRB, até o momento, não se pronunciou sobre o assunto.
Ao solicitar o complemento de informações, o BC citou um relatório de diligência da consultoria PwC que apontava “falta de informações suporte de forma completa, incluindo a ausência da reconciliação de certos saldos relevantes de ativos, como aplicações compromissadas, operações de crédito e depósitos à vista.”
Ainda segundo esse relatório, parte das informações era controlada de forma manual. “Esses fatores aumentam o risco relacionado com a confiabilidade das informações e destacam a necessidade de aprimoramento do ambiente de controles internos das instituições”, escreveu a consultoria.
O BC solicitou, ainda, que o Master explicasse a composição do Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) RSG e também a rentabilidade reportada. Segundo o ofício do Banco Central, o banco reportou rentabilidade de 4.245,81% em 42 dias, no relatório sobre o fundo.
Uma nova cobrança ao Master e ao BRB aconteceu pouco menos de um mês depois, das 20 que foram feitas.
Em novo ofício, de 23 de julho, o BC novamente avisou que o pedido de autorização não tinha condições de ser aprovado devido a inconsistências e indefinições no perímetro da transação e a falhas nas projeções econômico-financeiras da negociação.
Essas falhas, disseram os técnicos que assinaram o ofício, “comprometem o requisito de viabilidade da operação”. Esse documento foi enviado às instituições financeiras 42 dias antes da decisão de barrar, definitivamente, a aquisição do Master pelo BRB.
Consta, ainda, nos documentos encaminhados pelo BC ao Tribunal de Contas da União (TCU), o ofício de 23 de julho: foi a terceira tentativa do órgão de receber informações detalhadas sobre o negócio pretendido pelos dois bancos. Uma última tentativa ainda seria feita alguns dias depois, em 31 de julho.
Registrou-se nos ofícios que BRB e Master, seguidamente, foram omissos no delineamento do perímetro da transação e que, isso, “ainda que sujeito a ajustes posteriores, impossibilita a esta autarquia examinar e decidir o estudo de viabilidade econômico-financeira”.
O TCU recebeu os documentos internos do BC, tendo mais de um processo aberto para apurar a conduta da autoridade monetária na liquidação do Master e na análise da proposta do BRB para comprar o banco de Vorcaro.
A corte de contas, através de sua área técnica, concluiu que o BC foi diligente e tomou decisões com base em critérios técnicos. Para a unidade especializada em bancos do TCU, a AudBancos, há indícios de que o BRB tenha agido de maneira temerária e cometido erros primários ao insistir na compra do Master, mesmo após o BC identificar suspeitas de fraudes na cessão de carteiras de crédito entre as duas instituições.
Apesar de todos esses fatos, Ibaneis, tentando, desesperadamente, se safar da responsabilidade pelo rombo provocado no BRB, insiste em atribuir a culpa ao ex-presidente e à área técnica do banco, fato que vem sendo desmentido a cada dia que passa, diante de novas revelações clareadas pela investigação em curso, o que certamente ganhará fôlego com as delações que estão sendo anunciadas.
Isso tudo, mesmo depois de seu escritório de advocacia ter firmado um contrato de R$ 38,1 milhões de venda de honorários de precatórios a um fundo ligado à Reag – investigada pela Polícia Federal (PF) por participação no esquema de desvio de recursos do Master.
Mas, para o ex-governador bolsonarista, tudo não passou de uma grande coincidência.











