Principal líder da oposição condena pacote do retrocesso e repudia o importacionismo que provocou o recente fechamento da fábrica nacional de pneus FATE após mais de 80 anos
Os argentinos foram massivamente às ruas nesta quinta-feira (19) em defesa de conquistas históricas dos trabalhadores, se confrontando a canhões d’água, balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo, gás de pimenta e cacetetes. Alinhados na praça do Congresso Nacional, em Buenos Aires, os “instrumentos de persuasão” de Javier Milei foram posicionados para resguardar a votação da imoral “Lei de Modernização do Trabalho”, enquanto a imprensa era orientada por “precaução” a se manter “bem longe” dos acontecimentos, com inúmeros manifestantes presos e feridos.
Foi desta forma, e com um festival de dinheiro sujo, que o fascista – enfrentando a quarta greve geral de seu governo – arrancou a fórceps da Câmara, por 135 votos favoráveis a 115 contra, o número necessário para se curvar aos ditames do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Condenados como “escravocratas” pelas centrais sindicais, os principais retrocessos do pacote neoliberal se encontram na possibilidade do pagamento do salário em qualquer moeda – ou até mesmo em “espécie, habitação ou alimentos”; amplia a jornada de trabalho de oito para até 12 horas diárias; cria o “banco de horas” – substituindo o pagamento de horas extras por compensações futuras; fragmenta o período de férias; reduz as indenizações por demissão, que passam a ser calculadas apenas sobre o salário básico, excluindo itens como 13º, férias e adicionais; acaba com o direito à greve para a maioria dos servidores públicos e amplia de três para oito meses o período de experiência – e de direitos mínimos – da maior parte dos trabalhadores – chegando a até um ano.
MOVIMENTO DIREITO AO FUTURO
O governador da província (Estado) de Buenos Aires, Axel Kicillof, que esteve à frente da marcha rumo ao Congresso comandando uma coluna do seu Movimento Direito ao Futuro (MDF), condenou a insanidade da medida de força, que ocorre em um momento de agravamento da crise, com mais de 21.000 empresas fechadas nos últimos dois anos e a perda de cerca de 300.000 postos de trabalho. O plano “não é inocente”, disse, pois visa submeter o país a “trabalhar para o setor financeiro, beneficiando pequenos grupos e excluindo a grande maioria dos argentinos”.
De acordo com Kicillof, “o governo nacional está doente” ao persistir na contramão dos interesses de trabalhadores e empresários, seguindo a cartilha do capital financeiro e estrangeiro, os grandes beneficiados pelas medidas. “É um lixo quando se comemora demissões”, frisou.
Entre os casos mais gritantes, denunciou o governador, está o da Fate, principal fábrica de pneus da Argentina, que anunciou nesta quarta-feira (18) o fechamento de sua planta industrial em Buenos Aires e a dispensa de 920 funcionários, por perda de competitividade devido à abertura indiscriminada das importações. Com mais de 80 anos de história, a Fate tinha capacidade para produzir cinco milhões de pneus por ano, algo que se perdeu por falta de apoio do Estado.
Para Kicillof, “eles estão executando perfeitamente o plano de exterminar a indústria, enquanto comemoram porque dizem que estamos nos reinventando”. “O que o governo está fazendo é nos deixando um país sem inclusão, sem produção e sem soberania”, esclareceu.
“POLÍTICA ECONÔMICA: DEMISSÕES E CORTES SALARIAIS”
“Os promotores dessa lei nos dizem que o problema em nosso país é que demitir trabalhadores é muito caro. Eles deveriam explicar isso às 296 mil pessoas que perderam seus empregos nos últimos dois anos por causa das ações de Javier Milei. Demissões, suspensões, perdas de emprego e cortes salariais não estão ligados às leis trabalhistas, mas sim à política econômica”, explicou Kicillof.
Conforme o governador, que esteve na quarta-feira no distrito de Lobos para inaugurar as obras de remodelação e melhoria da Casa Natal, Museu e Biblioteca “Juan Domingo Perón”, Kicillof relatou que “todos os setores – industrial, turístico, da construção civil e de serviços – estão passando por uma calamidade por causa de um governo nacional que implementou uma política antiprodutiva e, além disso, culpa os trabalhadores e empresários pela situação que atravessam”. “Aqui o único culpado é Javier Milei e seu programa econômico”, sublinhou.
Na oportunidade Kicillof ponderou que a armadilha que seria votada nada mais era do que “um projeto terrível, exatamente como aquele que a ditadura queria impor”. No fundo, esclareceu, “são uns vigaristas”, uma vez que buscam acabar com a capacidade de negociação dos sindicatos, “impondo uma relação assimétrica onde quem vai decidir é o empregador, que é o quem tem mais força”. “Isso vai desordenar a vida de muitas famílias: os pais terão que trabalhar enquanto os filhos estiverem de férias”, concluiu.
Fazendo ouvidos moucos aos protestos contra medidas completamente “regressivas” e “inconstitucionais”, Milei viajou aos Estados Unidos para a sua décima quarta visita ao país do seu guia Donald Trump.











