Missão 14: nova direita, com filtro juvenil

A bandeira do grupo (Foto: Reprodução - X)

Em nome da renovação, o Partido Missão tenta normalizar agenda extremista, disciplinada como tropa digital e polida para circular sem resistência no debate público.

MARCOS VERLAINE (*)

Novidade que não renova. É o mais do mesmo, em particular, no plano econômico. Estamos falando do partido Missão — originário do MBL (Movimento Brasil Livre) —, que chega às eleições de 2026 vendendo a promessa da ruptura com a chamada “velha política”. Já ouvimos e conhecemos esse discurso em 2018.

Jovem, conectado, eficiente nas redes, diz-se independente das oligarquias e do fisiologismo do Centrão. Nega também o bolsonarismo e o lulismo. Tenta apresentar-se como algo novo e moderno.

Mas essa embalagem pretensamente moderna não deve enganar: por trás do verniz juvenil, o projeto repete o repertório clássico da extrema-direita, com agravante: a tentativa de torná-lo palatável, “limpo” e aceitável ao grande público.

A legenda nasce como braço institucional de movimento digital que há anos atua no conflito permanente, no ataque às organizações populares e na criminalização do dissenso. Ao migrar para o terreno partidário, o que muda não é a substância, mas a estratégia.

NEOLIBERAL E AUTORITÁRIO

No plano econômico, o Missão se ancora no receituário neoliberal mais conhecido: Estado mínimo, reformas administrativas punitivas ao funcionalismo, redução de direitos sociais e subordinação do interesse público à lógica do mercado.

Não há novidade aí. O discurso de eficiência esconde o velho projeto de desmonte do Estado social e de aprofundamento das desigualdades.

No campo social e penal, o partido abandona qualquer pretensão liberal. Defende o endurecimento extremo das leis, flerta com soluções penais de exceção e aposta no medo como motor político.


A retórica do combate ao crime organizado serve, na prática, para legitimar o autoritarismo, ampliar o encarceramento e normalizar a suspensão de garantias constitucionais.

Trata-se, pois, de combinação conhecida: liberalismo para o capital e repressão para os de baixo.

CONSERVADORISMO QUE NÃO DIZ O NOME

Embora se autodefina como conservador, o Missão evita assumir publicamente o rótulo de extrema-direita. Prefere se apresentar como “terceira via”, distante do bolsonarismo, mas sem romper com essa base cultural: o moralismo seletivo, desconfiança da política institucional, ataque às universidades, sindicatos e movimentos sociais.

A diferença está menos no conteúdo e mais no método. Onde o bolsonarismo apostou no caos, na grosseria e no confronto direto, o Missão investe na estética limpa, na linguagem jovem e na comunicação calculada.

É o radicalismo sem gritos, mas não menos perigoso por isso.

PARTIDO OU ESQUADRÃO?

A organização interna e o comportamento público dos militantes do Missão revelam traço preocupante: a atuação em bloco, quase militarizada, especialmente em ações de confronto.

Episódios recentes, como a invasão de entidade sindical histórica, expõem prática política que trata o adversário não como interlocutor, mas como inimigo a ser intimidado.

Essa lógica de “esquadrão” — reforçada pelas redes digitais, pela cultura do engajamento agressivo e pela mobilização instantânea — empobrece o debate democrático e tensiona perigosamente o espaço público.

Não se trata de pluralismo, mas de ocupação hostil.

REDES COMO TRINCHEIRA

O Missão entende como poucos a dinâmica digital. Sua força está na comunicação direta, na viralização de narrativas simplificadas e na construção de identidades políticas baseadas em pertencimento e combate.

Com isso, a política vira performance, e o algoritmo substitui o programa.

Nesse ambiente, o contraditório não é debatido, é cancelado. A complexidade vira “velha política”. A mediação institucional, obstáculo. É assim que se constrói militância disciplinada, reativa e pouco afeita à democracia como valor.

RISCO DA NORMALIZAÇÃO

Talvez o maior perigo representado pelo Partido Missão não esteja em sua força eleitoral imediata, que ainda não pode ser mensurada, mas no que tenta normalizar: a ideia de que autoritarismo pode vir com cara de modernidade juvenil; que políticas de exceção podem ser vendidas como racionalidade; que a democracia é aceitável apenas enquanto não atrapalha o projeto de poder.

A história recente mostra que movimentos assim não surgem para ampliar direitos ou fortalecer instituições. Surgem para tensioná-las até o limite.

A democracia brasileira já conhece esse roteiro. Ignorar os sinais, mais uma vez, pode custar caro. Por isso, não convém subestimar.

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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