Na trilha do Master, maracutaia do banco de Edir Macedo tem rombo de R$ 8,5 bi

Banco Digimais pertence ao bispo Edir Macedo, da Universal do Reino de Deus (Fotos: Reprodução - Google Maps - Facebook - Via Agência Pública)

A Justiça de São Paulo investiga a venda de carteiras de créditos falsos do Digimais ao fundo EXP 1, informa a revista Piauí

Após o escândalo envolvendo o Banco Master, uma nova crise de proporções bilionárias está para estourar no setor financeiro.

O Banco Digimais, do bispo Edir Macedo, enfrenta um cenário de grave crise financeira, com estimativas de patrimônio líquido negativo em cerca de R$ 8,5 bilhões.

Segundo reportagem da revista Piauí, a nova fraude aponta para a atuação fraudulenta do Banco Digimais, instituição do bispo da Igreja Universal, Edir Macedo, proprietário da TV Record e apoiador Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022.

A Justiça de SP investiga a venda das carteiras de créditos falsos do Digimais ao fundo EXP 1, a exemplo do Banco Master, de Daniel Vorcaro.

O modus operandi do Digimais se assemelha ao do já liquidado Banco Master: aumento artificial de ativos em seus fundos com o fim de melhorar (diga-se, mascarar) o balanço do banco, para que possa emitir mais Certificados de Depósito Bancário (CDBs), com oferta de rendimentos muito acima aos ofertados por instituições tradicionais, chegando a atingir 125% do CDI.

Também há proteção oferecida pelo Fundo Garantidor de Crédito (para depósitos de até R$ 250 mil) e uso de plataformas de investimento de grande porte, como XP e BTG, para disseminação desses títulos no mercado.

A relação do bispo Edir Macedo com o setor bancário começou em 2009, quando ele adquiriu 40% do banco gaúcho Renner, que pertencia à varejista Renner. A participação acionista do Bispo aumentou para 49% em 2013, até que, em 2020, ele assumiu o controle total da instituição. Com a compra definitiva, o banco foi rebatizado como Digimais e sua sede transferida de Porto Alegre para São Paulo.

FRAUDE

A Justiça apura se o Digimais também vendeu carteiras de crédito fraudulentas para outras instituições, assim como fez o Master, do banqueiro, Daniel Vorcaro, preso preventivamente desde 4 de março de 2026, no âmbito da Operação Compliance Zero.

No processo que tramita na 13ª Vara de São Paulo, o fundo EXP1 alega ter sido lesado pelo Digimais ao lhe vender carteiras de crédito falsas. O negócio foi concretizado em 28 de fevereiro do ano passado. Na ocasião, o fundo EXP1 efetuou o pagamento de R$ 650 milhões referente à compra de carteiras de crédito consignado do Digimais.

O fundo EXP1, como de costume no setor financeiro, aguardou a entrega dos documentos que comprovam os créditos em carteira. No entanto, o Digimais adiou ao máximo a entrega dos comprovantes, só apresentando-os em maio, três meses após a venda ter ocorrido.

Segundo a Piauí, um relatório de auditoria apresentado em agosto do ano passado pela consultoria internacional UHY International Bendoraytes, contratada pelo fundo EXP1, revelou que dos 55 mil contratos das carteiras de crédito, no valor de 650 milhões de reais, adquiridos pelo EXP1, 22 mil não tinham lastro, ou seja, eram falsos.

Dos R$ 650 milhões totais, os contratos sem lastro somam R$ 500 milhões. “Pior. As carteiras sem lastro, como o fundo veio a descobrir, eram compostas por créditos do Master e da Reag (a gestora e administradora dos fundos do Master também liquidada pelo BC)”, diz a reportagem da revista Piauí.

Questionado pelo EXP1, o Banco Digimais confirmou que os créditos não existiam e ofereceu novas carteiras. O EXP1 declinou, porque os originadores das carteiras eram os mesmos, ou seja, a Reag e o Master. O fundo pediu a devolução do dinheiro investido, mais os juros do período.

O Digimais tentou uma negociação e pediu um prazo para ajustar o pagamento. O EXP1 entrou na Justiça e comunicou a fraude ao Banco Central (BC). Um mês depois veio à tona o escândalo do Master, com a venda de carteiras de crédito fraudadas para o BRB, no valor de 12,2 bilhões de reais.

A Digimais possui muitas conexões com o Master, não só por ter a mesma classe de ativos, mas por contar com gestores que passaram pelo banco de Daniel Vorcaro. A corretora que gere os fundos do Digimais, a ID, por exemplo, conta entre seus sócios e administradores Rodrigo Balassiano, que foi executivo da corretora do Banco Master antes de assumir a liderança da ID corretora.

ID E REAG: SEMELHANTES

Em meio à crise do Banco Master, a ID Corretora registrou um salto expressivo em seu patrimônio, que atingiu a marca de R$ 5,2 bilhões. O crescimento atípico levantou suspeitas no mercado financeiro, de que a instituição estaria absorvendo as carteiras da Reag Investimentos.

A Reag foi alvo da Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal em agosto de 2025 para desarticular um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal vinculado à organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). O BC decretou a liquidação da Reag em janeiro deste ano.

A Reag controlava mais de 600 fundos vinculados ao grupo Master e está sob a suspeita de usar fundos para ocultar valores de combustível adulterado e de movimentar cerca de 30 bilhões de reais.

O sócio fundador da ID, José Roberto Giancoli Filho, o Beto, como é conhecido os financistas, foi investigado pela CVM por várias irregularidades em administração de carteiras e por operações fraudulentas, entre 2008 e 2011. Além disso, a ID responde a 204 processos judiciais.

Parte do mercado financeiro já aponta críticas a Roberto Campos Neto, ex-presidente do BC, por facilitar a entrada de novas instituições financeiras sem o rigor necessário. Campos Neto presidiu o BC entre 2019 e 2024, por indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em 2022, o Digimais já apresentava sérios problemas de caixa, registrando um prejuízo de mais de 740 milhões de reais.

Ante aos problemas do Digimais, leniente, Campos Neto teria apenas exigido a troca do presidente da instituição e de seus diretores.

Quem administrava o banco na época era o bispo João Urbaneja, que não tinha qualificação técnica e havia nomeado para a diretoria apenas pessoas ligadas à Igreja Universal.

Segundo a Piauí, ainda, Urbaneja deixou o cargo, mas nomeou para o seu lugar o seu filho, Thiago Urbaneja, de 41 anos de idade e também neófito nessa teia do mercado financeiro, o que contribuiu para o aprofundamento da crise.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *