“O que Trump espera de um punhado de fragatas europeias que a poderosa Marinha dos EUA não possa fazer?”, ironiza o ministro da Defesa alemão sobre o desastre pós-agressão ao Irã na hidrovia essencial para o petróleo e gás globalmente
“O que Trump espera de um punhado de fragatas europeias que a poderosa Marinha dos EUA não possa fazer? Esta não é a nossa guerra, nós não a começamos”, disse o ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, em resposta à exigência do presidente Donald Trump de que os europeus e outros vassalos norte-americanos enviem navios de guerra para socorrê-lo no Estreito de Ormuz, para onde evoluiu sua agressão não provocada contra o Irã, o que tornou ainda mais grave a crise do petróleo e gás que passam pela hidrovia. Uma “recusa quase universal” entre os europeus, segundo o France 24.
Pelo Estreito, transitam 20% do petróleo, gás e fertilizantes comercializados no planeta e, sob a guerra de agressão, o preço do barril já ultrapassa os três dígitos e a produção em vários campos de petróleo e gás parou. Como registrou a agência de notícias norte-americana Associated Press, “até agora ninguém se interessou pelo apelo de Trump por uma coalizão para garantir Ormuz”.
Com os caixões já chegando de volta aos EUA, três F-15, dois KC-135 derrubados e 80% dos radares – a maior perda em combate desde a “1ª Guerra do Golfo” – e a gasolina disparando nas bombas dos postos de gasolina domésticos a oito meses das eleições intermediárias, na sexta-feira, treze dias após o fracasso de sua tentativa de decapitação do governo iraniano, Trump promoveu um bombardeio à Ilha de Kharg no ponto mais estreito da hidrovia, agravando ao limite a situação em Ormuz e nos mercados de energia.
Assim, depois de inúmeras proclamações de “vitória” e de que o Irã estava “destruído”, Trump passou a exigir uma coalizão para ocupar o Estreito de Ormuz. Mas está difícil de encaixar.
“O Estreito de Ormuz está aberto a todos, exceto a navios dos EUA e inimigos seus aliados”, afirmou o chanceler iraniano, Abbas Araqhchi. Foram os EUA e Israel que iniciaram a guerra e o Irã está se defendendo, visando apenas bases e interesses norte-americanos na região, esclareceu. Não é culpa do Irã – acrescentou – que os donos das frotas petroleiras temam por seus ativos, sob combate, e mandem ancorar nas imediações.
“NÃO À ARMADA TRUMP”
Ao ser questionado sobre a proposta de Trump de enviar uma armada para Ormuz, o ministro das Relações Exteriores alemão, Johann Wadephul afirmou que “Não. O Governo Federal tem uma posição muito clara a respeito disso […], não vamos fazer parte desse conflito”.
Ele acrescentou que a segurança, tanto para o Estreito de Ormuz quanto para o Mar Vermelho, só será alcançada “se houver uma solução negociada”.
Também a Itália tirou o corpo fora da aventura de Trump, com o ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, considerando improvável que as operações europeias no Mar Vermelho “possam ser ampliadas para incluir o Estreito de Ormuz, especialmente porque se trata de missões de combate à pirataria e de defesa”.
De acordo com a AFP, o Japão se mostrou reticente. O ministro da Defesa do Japão, Shinjiro Koizumi, afirmou ao Parlamento que o país não considera ordenar uma missão desse tipo “na atual situação do Irã”.
A primeira-ministra, Sanae Takaichi, declarou não ter recebido um pedido formal de Trump e ressaltou que o envio de forças ao exterior é politicamente sensível e juridicamente complexo em um país cuja Constituição renuncia à guerra. Ela irá à Casa Branca na próxima quinta-feira.
“Não temos a intenção de enviar navios de guerra para o Estreito de Ormuz”, afirmou a ministra de Infraestrutura e Transportes da Austrália, Catherine King. Ela disse que seu país está “bem preparado” para lidar com a crise econômica decorrente da situação no Oriente Médio.
Notório nas artes da encenação, o presidente francês Emmanuel Macron anunciou que, quando “as circunstâncias permitirem” poderá participar com parceiros na Europa e na Ásia em uma possível missão internacional de escolta de navios. Na semana passada, sua ministra da Defesa, Catherine Vautrin, dissera que “neste momento, o envio de navios para o Estreito de Ormuz não está sendo considerado “.
“SOLUÇÃO PASSA PELO FIM DA GUERRA”, DIZ ESPANHA
O ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, descartou novamente nesta segunda-feira a participação da Espanha na armada de Trump no Estreito de Ormuz.
“A solução para o aumento dos preços dos combustíveis passa pelo fim desta guerra, pela cessação desta guerra, e pela predominância da negociação e do diálogo. Acreditamos que a Operação Áspides [no Mar Vermelho] e o mandato atual são os corretos e, portanto, não é necessário introduzir quaisquer alterações”, declarou Albares, opondo-se aos que tentam usá-la como fachada para adesão a Trump.
A alteração do mandato da Operação Áspides – a contenção dos revolucionários iemenitas no Mar Vermelho, tarefa na qual o USS Abraham Lincoln fracassou fragorosamente – é a principal manobra dos serviçais de Trump no bloco europeu, que está reunido para discutir a questão. Na avaliação do portal euronews, “é pouco provável que qualquer alteração ao mandato da missão Aspides da UE obtenha o apoio unânime dos países europeus”.
Quanto à cobrança de Trump à Otan, a resposta veio também pelo porta-voz alemão Kornelius: a guerra EUA-Israel contra o Irã não está relacionada à Otan. Deixando de lado o que perpetraram no Afeganistão e outras localidades, ele disse que a Otan “é uma aliança para a defesa do território” de seus membros e, na situação atual, “não existe mandato para mobilizar a OTAN”.
Por sua vez o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, asseverou que o Reino Unido “não se envolverá em um conflito maior”. O jornal The Times, citando fontes, noticiou que o governo britânico está considerando o envio de drones de desminagem para ajudar a limpar o estreito, mas considera que enviar agora navios de guerra para a área “poderia aumentar as tensões”.
CHINA E RÚSSIA PELA DESESCALADA
Porta-voz da embaixada da China em Washington enfatizou que “como amigo sincero e parceiro estratégico dos países do Oriente Médio, a China continuará a fortalecer a comunicação com as partes relevantes, incluindo as partes em conflito, e a desempenhar um papel construtivo na desescalada e na restauração da paz”. Ele acrescentou que “todas as partes têm a responsabilidade de garantir um fornecimento de energia estável e ininterrupto”.
Nesta segunda-feira (16), o Ministério das Relações Exteriores da Rússia classificou o ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã como “traiçoeiro” e “não provocado”, ressaltando que a agressão iniciou de “um ciclo sem precedentes de violência” no Oriente Médio, cujo fim “não se vislumbra”.
Segundo Moscou, a agressão americana e israelense deixou “centenas e milhares” de vítimas, causou danos irreparáveis à infraestrutura civil e paralisou a navegação pelo estreito de Ormuz, uma rota estratégica para a economia mundial.
A Rússia advertiu que o Golfo Pérsico, antes “estável e próspero”, “está mergulhando rapidamente no caos e na incerteza” e que as consequências econômicas da “aventura” iniciada por Washington e Tel Aviv são sentidas “em escala global”.
Sobre tais argumentações e contra-argumentações, o ex-comandante da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), Mohsen Rezai, salientou que “a presença das forças norte-americanas no Golfo Pérsico tem sido a principal fonte de insegurança nos últimos 50 anos. É impossível garantir a segurança na região a menos que os Estados Unidos se retirem e os países da região, particularmente o Irã e Omã, assumam o controle do Estreito de Ormuz”.











