
Para o geólogo Guilherme Estrella, “recuperar nossas empresas estatais é fundamental para reindustrializar o país e distribuir a renda”
Na última terça-feira (25), o Clube de Engenharia (RJ) recebeu o lançamento do livro “Produção versus Rentismo – Trabalhadores e empresários pela reindustrialização do Brasil”, que contou com a presença de lideranças políticas e sindicais. Dentre as importantes participações, o geólogo Guilherme Estrella, considerado como o “pai do Pré-Sal”, que defendeu, em vídeo enviado ao encontro, que o Brasil precisa se reindustrializar como caminho fundamental para sua soberania e redistribuição da renda nacional.
O livro é organizado pelo jornalista Carlos Pereira, redator especial do Hora do Povo e membro da direção nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).
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Guilherme Estrella considerou o livro como importante para a retomada de uma discussão sobre um projeto político de desenvolvimento nacional, diante das transformações geopolíticas mundiais.
Estrella afirmou que o debate travado por Carlos Pereira em “Produção versus Rentismo – Trabalhadores e empresários pela reindustrialização do Brasil” é fundamental nesse momento em que a indústria tem se tornado ainda mais importante para a soberania e melhoria das condições de vida do povo. “Vamos partir para uma nova fase, porque se não revertermos isso que estamos vendo, vamos nos inserir nessa nova realidade global também secundariamente. O Brasil precisa se reindustrializar como caminho fundamental para a redistribuição da renda nacional”, completou.
“O pólo homogêneo norte-americano e europeu do capitalismo financeiro internacional está colapsando, surge outro pólo com os BRICS, comandados pela China, que se contrapõe a esse modelo mundial. O Brasil, um dos países mais ricos e importantes do mundo, não é um país industrializado. Nós não temos soberania fornecida pela indústria para que seja possível participar com mais tranquilidade de participar dessa reorganização geopolítica mundial”, disse o geólogo.
“Nós estamos numa encruzilhada. Não podemos nos inserir nesse novo pólo de uma maneira secundária, de uma maneira subordinada, de uma forma não soberana”, disse. “É necessário para a economia nacional que recuperemos as empresas estatais, que são grandes produtoras de recursos para a gestão governamental, para que reintroduzamos nessas políticas a política de conteúdo nacional. É fundamental que nós venhamos a financiar empresas brasileiras que operam no Brasil, principalmente na área de engenharia”, ressaltou.
“É preciso que o Brasil retome o projeto Nacional-desenvolvimentista autônomo e soberano para que nossas riquezas sejam transformadas em recursos para retomada do desenvolvimento industrial brasileiro. Não é possível continuar como estamos com quase metade dos recursos governamentais gastos em pagamentos e encargos da dívida pública. Isso tem que acabar!”, destacou Guilherme Estrella.
O geólogo apontou que, diante dessa necessidade, a política econômica implementada pelo Banco Central com uma das maiores taxas de juros (Selic) do mundo hoje em 14,25%, como forma de atender aos interesses da oligarquia financeira estrangeira é uma das grandes barreiras a ser superada.
“Nós estamos sofrendo com uma política do Banco Central que é absolutamente contrária aos interesses nacionais, contrária à soberania nacional. Seremos obrigados a depender do capital estrangeiro enquanto somos um dos países mais ricos e, ao mesmo tempo, dentre os mais injustos do mundo. A industrialização significa, antes de mais nada, a justiça social.”
Em 2024, mais do que o dobro do orçamento da Saúde, Educação e do Bolsa Família somados foram pagos de juros. Enquanto isso, os bancos se locupletam com mais de 100 bilhões de lucro no último ano. “É necessário que nós revertamos esse quadro político-ideológico que está sendo conduzido pelo Banco Central a mando do capitalismo financeiro transnacional. Esse é nosso grande desafio”, continuou.
PRODUÇÃO VERSUS RENTISMO
A obra é fruto do Seminário Nacional pela Reindustrialização do Brasil, realizado na sede da CTB, em 11 de junho de 2024. De acordo com Pereira, o livro é uma coletânea de entrevistas e artigos com lideranças empresariais, trabalhistas e da academia sobre a urgência de um projeto de desenvolvimento nacional, com bases, principalmente, em empresas nacionais, no mercado interno e no Estado, inspirado no pensamento de Barbosa Lima Sobrinho: “capital se faz em casa”.
Com mais de trinta anos de hegemonia do pensamento neoliberal na economia brasileira, a obra busca promover na sociedade a ideia de um pacto nacional pela reindustrialização do Brasil, e de “reacender as raízes do pensamento desenvolvimentista, destoante da mesmice do chamado neoliberalismo”, como classificou o organizador durante sua intervenção.
Além de Guilherme Estrella, o evento contou, ainda, com a presença de grandes nomes da economia, política e sindicalismo, como vice-presidente do Clube de Engenharia, Fernando Peregrino, Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do BRasil (CTB); os economistas Paulo Kliass e Denise Gentil; Paulo Farias, presidente da CTB-RJ e João Batista, liderança sindical.