Nikolas Ferreira e a política do vazio em marcha

O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) à frente da nau dos insensatos (Foto: Reprodução - Instagram)

Sem agenda concreta para Minas, o deputado troca o mandato pelo espetáculo simbólico e ajuda, paradoxalmente, a fortalecer o campo político que diz combater — ainda que caminhe obstinadamente na direção oposta do bom senso

MARCOS VERLAINE (*)

Trata-se da “caminhada como encenação”. É assim que se apresenta a marcha de aproximadamente 240 quilômetros, iniciada agora em janeiro de 2026 rumo a Brasília, vendida como gesto político de “resistência”.

Na prática, porém, a iniciativa se assemelha mais à performance de endurance — resistência — do que a ato parlamentar propriamente dito.

A propósito, ato parlamentar não é bem o forte dessa turma bolsonarista, que costuma promover motim em plenário.

Ao transformar o deslocamento físico em símbolo político, o deputado federal bolsonarista Nikolas Ferreira (PL-MG) aposta no impacto visual e na lógica da viralização.

Afinal, quilômetros percorridos rendem mais engajamento nas redes do que projetos de lei debatidos no plenário. É a famosa “economia da atenção”. Leia mais em “Bolsonaro preso, bolsonarismo vivo: a economia da atenção como estratégia político-eleitoral”.

Quando faltam propostas, constrói-se narrativa; quando escasseia trabalho legislativo, investe-se no espetáculo. A política institucional, contudo, costuma ser ingrata com quem confunde passos dados com avanços reais.

ANISTIA DIFUSA, OBJETIVO TURVO

O mote central da caminhada — a defesa genérica de anistia a Jair Bolsonaro e aos golpistas do 8 de janeiro — carece de rigor político, jurídico e, sobretudo, de coragem argumentativa.

Não há texto, não há minuta, não há articulação institucional. Há apenas a palavra “anistia”, repetida como mantra, na expectativa de que a insistência substitua o conteúdo e o slogan dispense o debate.

Ao colocar no mesmo balaio um ex-presidente e cidadãos condenados por ataques diretos às instituições democráticas, o discurso dilui responsabilidades e trata a democracia como detalhe burocrático. Algo incômodo, mas contornável.

É proposta tão etérea que talvez só pudesse mesmo ser sustentada a pé, quem sabe para ver se ganha densidade ao longo do caminho.

MANDATO ÁRIDO, MINAS AUSENTE

No último ano de mandato, o balanço do deputado para Minas Gerais segue tão enxuto quanto a agenda legislativa dele. Estado marcado por profundas desigualdades, carências estruturais e desafios históricos permanece fora do roteiro prioritário.

Não se observam iniciativas estruturantes, nem esforços consistentes por investimentos ou políticas públicas de impacto. Minas aparece apenas como ponto de partida geográfico da caminhada — espécie de cenário inicial — antes de o protagonista seguir rumo aos holofotes nacionais.

O eleitor mineiro, nesse enredo, fica relegado ao papel de figurante silencioso, assistindo à própria representação política se deslocar fisicamente sem jamais se aproximar de suas necessidades concretas.

PARADOXO DO PROTESTO

Como destacou a Veja, o protesto pode render “golaço” para Lula. O paradoxo é quase pedagógico: ao optar pelo ruído em vez da crítica qualificada, a oposição oferece ao governo o contraste de que esse necessita.

Enquanto um lado governa, o outro caminha. Enquanto um articula politicamente, o outro performa simbolicamente.

Em política, não há vácuo. O espaço deixado pelo protesto vazio costuma ser ocupado pelo adversário, que agradece em silêncio e marca o gol sem sair do lugar — como o craque experiente que sabe que não é preciso correr atrás da bola o tempo todo.

FORREST GUMP ÀS AVESSAS

A metáfora se impõe: Nikolas Ferreira encarna um Forrest Gump às avessas. Corre — ou melhor, caminha — sem que se saiba exatamente por quê, nem para quê.

Diferentemente do personagem, cuja ingenuidade produzia encontros improváveis e efeitos inesperados, aqui o desfecho é previsível: muita movimentação para lugar nenhum.

A marcha não constrói consensos, não produz leis, não melhora indicadores sociais. Quando o asfalto acaba, resta apenas o cansaço e a constatação de que a política não avança por osmose nem por insistência simbólica.

POLÍTICA EXIGE CONTEÚDO

A democracia não se sustenta em gestos simbólicos vazios, por mais bem filmados e compartilhados que sejam. Exige ideias, trabalho legislativo, articulação institucional e compromisso efetivo com o interesse público — inclusive quando isso rende menos aplausos.

Quando o mandato se aproxima da irrelevância, o espetáculo surge como substituto. Funciona por um instante, mas não deixa legado.

Minas Gerais — e o Brasil — precisam menos de peregrinações políticas e mais de representantes que façam o básico: trabalhar. Afinal, caminhar é saudável; legislar, governar e formular políticas públicas são indispensáveis. Minas e o Brasil agradecem…

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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